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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Il senso dell'economia nell'insegnamento del Papa - di Ettore Gotti Tedeschi

In NBQ 

Il nostro grande Pontefice Benedetto XVI, di cui sentiremo una mancanza indicibile, non ha fatto lezioni di economia, ma lezioni sulla volontà di Dio che necessariamente considera l’economia. O meglio considera l’uso dello strumento economico secondo i fini per cui è stato adottato, o il senso che gli è stato dato. Il magistero del papa in economia è assimilabile al consiglio di un medico speciale per una malattia dell’anima e conseguentemente del corpo.

Il magistero economico di Benedetto XVI è scritto nell’Enciclica della globalizzazione economica e sociale, Caritas in Veritate. Che esce circa due anni dopo la data prevista (2007) dovendo tener conto dell’impatto della crisi economica incombente. Il Pontefice decide di iniziare a parlare di economia contemporanea ricordando il messaggio della Populorum Progressio di Paolo VI: la promozione dello sviluppo dell’uomo. Promozione integrale, non solo materiale! Il che significa che l’uomo ha bisogno di tre nutrimenti: corporali-materiali, intellettuali e spirituali.

Ecco cosa è il bisogno dell’uomo e conseguentemente la sua “economia”. Successivamente il Papa si domanda se lo sviluppo economico auspicato da Paolo VI nella Populorum Progressio sia stato realizzato. E la risposta che si da è no. E il perchè no è a sua volta spiegato dal fatto che tale sviluppo economico è stato, e continua a esser, “gravato da distorsioni e drammatici problemi” soprattutto nella crisi economica in corso di esplosione. Quali sono queste distorsioni? Sono uno sviluppo economico egoistico, mal pianificato che prescinde dalle nascite o addirittura che le scoraggia. Uno sviluppo economico drogato per compensare la insufficiente crescita economica conseguente, la crescita dei costi fissi conseguente, la crescita delle tasse e la diminuzione della crescita del risparmio conseguente. Uno sviluppo economico fondato sull’indebitamento delle famiglie per imporre regimi di consumismo utili a far crescere il PIL. Riducendo così gli individui ad esser “sussidiari” ai bisogni di crescita economica di Governi che la pretendono per coprire i propri errori e assicurarsi la continuità di potere in un mondo globale dove il potere economico si stava trasferendo da occidente a oriente grazie al numero di popolazione, forza e ricchezza di questi paesi.

E tutto ciò con indifferenza invece verso altri paesi poveri che attendevano da decenni di esser coinvolti nel processo di crescita economica, ma non assicuravano sufficienti ritorni sull’investimento o evidenziavano troppo rischi. Benedetto XVI ci ricorda che i principi economici sono nella dinamica della natura. Ciò per una considerazione semplice, la natura è stata creata da Dio con un ordine da seguire per valorizzarla, se si prescinde da questo ordine invece di economia si fa diseconomia, invece di creare ricchezza, si distrugge ricchezza. E non si realizza nulla di buono e vero.

Di seguito Papa Benedetto spiega ancora una legge fondamentale: l’economia non può avere una sua autonomia morale, se la pretende fallisce con danni elevati. Se l’economia riconosce di esser strumento, necessita un fine, e solo allora produce il bene comune, l’unico sostenibile. Affinchè ciò avvenga l’uomo deve avere responsabilità personale delle sua azioni, dalla creazione di ricchezza attraverso una equilibrata natalità, fino alla valorizzazione di cosa è etica applicata, al problema dell’ambiente. Ecco un altro richiamo alle cose importanti da cui l’economia non può prescindere.

Successivamente il Papa pone l’uomo nel mezzo del consorzio umano e lo invita a pensare alle relazioni per impegnarsi alla collaborazione, alla solidarietà, alla sussidiarietà degli stati verso gli individui e alla solidarietà verso i paesi poveri. Infine il Papa considera che l’uomo ha saputo, e sa, far crescere lo strumento scientifico e tecnologico, ma obietta che se non cresce lui stesso in “maturità” di conoscenza rischia di non saperlo usare. Anzi di usarlo male. Con questa riflessione Benedetto XVI fa riflettere sul fatto chiave che il problema socio economico è più che mai oggi legato al problema antropologico. Cosa è l’uomo? Cosa è il suo bene ? E’, grazie alle ricerche scientifiche, vivere mille anni? E’ riprogrammarsi per non soffrire? Per cancellare vecchiaia, dolore, infermità? E’ considerarsi alla fine solo un animale intelligente, con una certa maggior dignità, ma sempre animale da soddisfare materialmente e perfezionare scientificamente?

L’uomo non si soddisfa solo materialmente e scientificamente, gli atei-agnostici più intelligenti hanno cominciato a comprendere che la soddisfazione dell’uomo non è solo materiale, ma anche, in qualche modo, spirituale. Magari tra poco scopriranno che oltre il corpo c’è un’Anima, e allora arriveranno alla vera conclusione: “senza Dio l’uomo non sa dove andare… e l’Umanesimo che esclude Dio è un umanesimo disumano. ”Rileggendo il magistero di Benedetto XVI in materia economica si ha il gran conforto di comprendere l’insegnamento di un Papa che pensa a noi, che si preoccupa di noi. Ma di noi, quali creature di Dio, bisognose di consolazione, ma anche di educazione. E vorrei aggiungere, bisognose di amore. Tutte cose che Sua Santità Benedetto XVI ha saputo darci in modo esemplare.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Viva o Bispo do Porto!! Viva!!




Excertos da Homilia no Dia Mundial da Paz

“... Intitulada “Bem-aventurados os obreiros da paz”, a Mensagem do Papa Bento XVI para este dia oferece-nos um resumido mas substancial compêndio da Doutrina Social da Igreja, para quanto respeite à justiça e à paz. Com óbvio relevo para a defesa e a promoção da vida, dizendo assim: «Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspetos, a começar pela conceção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida» (Mensagem, nº 4).

- Que oportunidade, irmãos, que responsabilidade tamanha, se verdadeiramente procuramos a paz! Estando Deus aí mesmo, na vida em gestação, dentro ou já fora do ventre materno, como se torna prioritária a promoção e salvaguarda de cada vida humana, no arco total da sua existência terrena!

A fragilidade da vida uterina ou a fraqueza e enfermidade que a atinjam depois, são outros tantos apelos a que acorramos céleres – como os pastores do Evangelho – ao seu cuidado preciso, solidário e eficaz. Qualquer hesitação neste ponto, qualquer amolecimento cultural ou legal em relação a ele, é absolutamente um atentado à paz. À paz das consciências, que, quanto a isto, nunca adormecerão tranquilas, antes somarão pesadelos; e à paz das famílias e de sociedades inteiras, se contemporizarem com qualquer tipo de antinatalismo ou reducionismo existencial.

A tão mencionada “qualidade de vida”, deve significar, antes de mais, o reconhecimento da qualidade que ela essencialmente tem e sempre conserva, mesmo quando física ou mentalmente atingida. A paz – enquanto harmonia íntima e global de tudo quanto representa a verdade das coisas, começando pela verdade das pessoas – é obra e fruto da justiça, que nos manda dar a cada um o que lhe é devido e pertence. E a vida é a primeiríssima pertença de cada ser humano. ... ”


Caso queira felicitar o Senhor D. Manuel Clemente

Terreiro da Sé - 4050-573 PORTO
Tel.: 223 392 330 - Fax: 223 392 331
E-mail: manuelclemente@sapo.pt

terça-feira, 31 de julho de 2012

Livres à Força? - por P. Gonçalo Portocarrero de Almada


  A propósito de uma sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos

Há quem esteja tão empenhado na defesa dos direitos fundamentais que até os queira impor … à força! Parece ser o caso do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, na sua sentença de 31 de Janeiro passado, contra a Roménia. Ao arrepio do mais elementar sentido comum e desrespeitando mais de dois mil anos de tradição cristã, esse Tribunal entendeu legítima, em virtude do artigo 11º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, a pretensão de alguns sacerdotes ortodoxos romenos e seus colaboradores pastorais de se constituírem em sindicato.

É muito de saudar o empenho pela aplicação universal dos direitos humanos, exigência em que a Doutrina Social da Igreja foi precursora, mas em que a revolução francesa e outros movimentos cívicos também colaboraram. Contudo, o reconhecimento formal e efectivo dessas prerrogativas, decorrentes da irrenunciável dignidade humana, não pode ultrapassar certos limites, em cujo caso a sua aplicação seria contrária ao mais essencial dos direitos fundamentais: a liberdade responsável das pessoas e instituições. 

Reconheça-se, com empenho, o direito à sindicalização dos trabalhadores, mas não se imponha autoritariamente a todos o exercício desse direito, a que alguns devem, em virtude de uma razão maior, renunciar. De igual modo, a todos compete o direito ao matrimónio, mas o seu exercício a ninguém deve ser, como é óbvio, imposto. E quem opte, consciente e voluntariamente, por uma entrega pessoal que exclua o matrimónio, não se lhe permita que o invoque, para efeitos de uma improcedente reivindicação.

Poder-se-ia questionar se o ordenamento jurídico pode aceitar, como válida e eficaz, uma renúncia a um direito fundamental, como o prescrito no artigo 11º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Decerto, não seriam nunca aceitáveis, por absurdas hipóteses, contratos de venda da própria pessoa, ou de aluguer do seu corpo, que seriam necessariamente aberrantes e inválidos. Mas é tolerável e até meritório que alguns cidadãos optem por dar à sua vida uma dimensão de serviço à comunidade, através da sua consagração religiosa, que pressupõe a livre e legítima abdicação de algumas prerrogativas pessoais. 

A determinação, expressa pelos votos religiosos, ou por um compromisso análogo, de não possuir bens materiais, de obedecer ao seu superior, mais além do que seria exigível numa relação laboral, ou de permanecer célibe, não só não ofende a condição humana como a dignifica: não há maior amor do que dar a própria vida pelos outros. Portanto, aos que se comprometem liberrimamente com a sua Igreja, mediante um vínculo de voluntária e consciente obediência, a respectiva entidade religiosa, paternal mas não paternalista, pode e deve exigir uma coerência responsável. O Estado, por sua vez, deve respeitar a sacralidade desse vínculo, bem como a especificidade do ministério eclesial, o que não se verificaria se reduzisse esse munus a uma simples relação laboral. Também não seria pertinente que o jugo matrimonial fosse equiparado a uma mera prestação de serviços domésticos, ou a um sui generis arrendamento da habitação familiar.  

Foi no dia 17 de Julho de 1794 que foram guilhotinadas, em Paris, dezasseis carmelitas do convento de Compiègne. O seu crime não era apenas a sua fé em Deus, mas também e principalmente a ousadia da sua liberdade. Foram mártires não só porque eram religiosas num país oficialmente ateu mas, sobretudo, porque eram livres sob um jugo totalitário, que se dizia defensor da «liberdade, igualdade e fraternidade».   

Em nome de todos os Carmelos franceses, a prioresa de Grenelle enviara um Memorial à Assembleia Nacional revolucionária, nos seguintes termos: «As riquezas das Carmelitas nunca foram objecto de cobiça. A nossa fortuna consiste nessa pobreza evangélica que, mesmo depois de saldadas todas as dívidas para com a sociedade, ainda tem meios para ajudar os necessitados e socorrer a pátria e, em todas as circunstâncias, nos torna felizes com as privações que passamos. A liberdade mais completa preside aos nossos votos; a igualdade mais perfeita reina nas nossas casas; entre nós, não há ricas nem nobres […]. No mundo comprazem-se em publicar que os mosteiros só encerram vítimas que se vão consumindo lentamente pelos seus sofrimentos; mas nós declaramos diante de Deus que, se há na terra autêntica felicidade, nós a temos […]. Depois de terdes proclamado com tanta solenidade que o homem é livre, querereis obrigar-nos a pensar que já não o somos?».

Conta a história que as mártires de Compiègne morreram cantando o Te Deum e a Salvé Rainha. Madame Roland, fervorosa revolucionária que, não obstante, também foi guilhotinada, não teve a dita de uma tão excelsa inspiração à hora da morte, mas não lhe faltou razão quando, a caminho do cadafalso, afirmou: «Ó liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!».

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Produzem-se Crianças e Alugam-se Panças

Grande parte do essencial sobre os problemas que os projectos de “legalização” das “barrigas de aluguer” implicam já foi descrito aqui, aqui, aqui, aqui e, numa visão mais abrangente de toda a problemática da procriação artificial, aqui.

Neste texto quereria tão só chamar a atenção para alguns pontos que porventura ainda não foram aflorados, a propósito dos princípios ou absolutos éticos não negociáveis. Importa em primeiro lugar indicar que a actual crise económica e financeira é originada por uma corrupção ética e religiosa, como o Santo Padre tem repetido incansavelmente, que mina os fundamentos da sociedade civil e da comunidade política. Esta agressão violenta ao bem-comum, isto é, ao bem de todos e cada um – desde a sua concepção até à morte natural -, perpetrada por “leis” injustas e iníquas é alimentada por uma comunicação social perversa, e é aceite com resignação condescendente por uma grande maioria dos prelados, os quais parecem ter renunciado ao bom combate da Fé para se limitarem a adaptarem-se àquilo que julgam, erroneamente, inevitável; acresce que esses prelados parecem ter uma visão do estado como neutral (coisa aliás impossível), ignorando, as obrigações deste quer para com a Lei Natural quer para com a Religião verdadeira, isto é, o Catolicismo, como o ensina o Concílio Vaticano II (sim, o Vaticano II). Dá impressão que esses Pastores, achando embora que Jesus Cristo seja útil, não O consideram necessário e indispensável para uma organização social e política verdadeiramente humana. Não, evidentemente, através de qualquer imposição mas sim de proposta pública testemunhando explicitamente a Fé juntamente com a argumentação racional. Só Jesus Cristo revela plenamente o homem a si mesmo, torna perceptíveis todas as exigências da Lei Natural, bem como incute o desejo de a cumprir e comunica a força, a Graça, para a poder realizar na sua totalidade.

Nas últimas eleições legislativas não estava somente em jogo o futuro económico e financeiro da nação portuguesa mas principalmente a rejeição de um caminho suicida, cruel e desumano manifesto na liberalização do aborto, na “lei” da falsamente intitulada PMA, do divórcio expresso sem culpa, do imprópria e absurdamente chamado “casamento” de pessoas do mesmo sexo, da imposição totalitária de uma degradação sexual, mascarada de educação, nas escolas, etc.


É inteiramente indecoroso e detestável que os partidos que agora têm maioria absoluta na assembleia da república nada façam para derrogar aquelas deformidades legislativas e monstruosidades inumanas. Antes se mostrem indulgentes ou se conformem ou as queiram intensificar, como agora mais uma vez se verifica.


O psd admite, em certas circunstâncias, o arrendamento de panças para crianças fabricadas por tecnocratas em gélidos laboratórios sem querer ver os espezinhamento da transcendente dignidade da pessoa humana quer no bebé produzido quer na hospedeira.


O cds fez-nos hoje chegar esta nota extraordinariamente hipócrita e relativista:


“1 – O CDS não terá projeto próprio nesta matéria, não só porque a nossa prioridade é a resolução dos difíceis problemas financeiros e económicos de Portugal, como, porque entendemos que há uma lei, a de 2006, que, globalmente, aponta para a PMA como um tratamento contra a infertilidade que pode e deve ser concretizada.


2 – A Direção do Partido tem uma posição negativa sobre projetos de lei que abordam temas sensíveis e sobre valores importantes em sociedade, sem o necessário cuidado técnico e rigor científico.

3 – A Direção do CDS transmitiu aos Deputados do Partido que projetos de lei que pretendam transformar a PMA, não numa opção subsidiária e certificada de tratamento contra a infertilidade, que é um problema que atinge muitos casais – essa sim uma ótica humanista – mas numa prática corrente e generalizada, não contribuem para uma visão equilibrada nesta matéria.

4 – Na exata medida em que a questão da PMA não consta do último Programa Eleitoral do CDS, que foi muito focado na situação de emergência financeira e económica do País, a Direção reconhece o direito de cada Deputado fazer uma avaliação própria dos projetos de lei e agir em conformidade.”

Note-se que no primeiro ponto o partido começa por mentir ao afirmar que a lei da PMA de 2006 trata a infertilidade o que é manifestamente falso porque limita-se a recorrer a uns processos de substituição deixando que a pessoa infértil o continue a ser. Em segundo lugar, mais grave ainda, o partido dá o seu acordo pleno a que tal “lei” deva ser concretizada, com todo o cortejo imenso de vítimas inocentes e eminentemente vulneráveis que isso implica.

No número dois, este partido afirma que a resolução de projectos de lei sobre temas sensíveis e sobre valores importantes para a sociedade passa somente pelo cuidado técnico e pelo rigor científico, ignorando por completo a necessidade da justiça e por isso da ética como critério de discernimento e de decisão. Finalmente no número 4 o cds mostra de novo que é um partido sem princípios, que não cuida do bem-comum, nem tem em conta a verdade, pois concede aos deputados uma avaliação subjectivista dos projectos juntamente com a consequente acção em conformidade. E assim procura lavar as mãos, tentando agradar a gregos e a troianos. Experimente-se aplicar a lógica subjacente a este texto não a pessoas humanas na sua fase embrionária mas a judeus adultos e logo se topará a malícia intrinsecamente perversa desta posição oficial do cds.

Já em 2004 adverti aqui e aqui para a iníqua subversão total dos partidos políticos com assento na Assembleia da República. Os partidos que nos primeiros anos defendiam os valores e princípios inegociáveis, há muito que o deixaram de fazer, embora se apresentem aos eleitores como mais restritivos que os outros mais à esquerda. Mas essa limitação com o tempo tem-se vindo a tornar mais e mais elástica. Claramente se verifica que não passa de uma armadilha para captar o voto dos cristãos e demais homens de boa vontade. E nós, imbecis, temos caído de esparrela em esparrela, e com o intuito de evitar o pior caímos insensivelmente no abismo que queríamos evitar com horror quando era apresentado pelos partidos tidos como mais radicais. O que esses partidos não lograram por si conseguiram-no através daqueles a quem temos vindo a dar o voto.

Ora é tempo de tomarmos consciência de que actualmente há uma só maneira de evitar que isto continue, se queremos ser fiéis à Doutrina do Magistério da Igreja, coerentes com a sua Doutrina Social, consistentes com uma consciência bem formada e acima de tudo obedientes ao Amor devido a Deus e a todos os homens, a quem temos por próximos, a saber, os católicos que andam espalhados pelos partidos actuais cumpliciando-se pelo voto e demais tipos de cooperação devem deixá-los e formar um novo partido credível. Não se trata de fundar um partido Católico ou Cristão mas sim de um partido constituído por Cristãos, Católicos ou não, e demais homens de boa vontade que acolham integralmente os princípios inegociáveis. Tudo o resto é pensar à maneira dos homens e não de Deus.

Já agora e até como complemento ao que escrevi deixem-me sugerir-vos um livro precioso: Giampaolo Crepaldi, Il Cattolico in Politica (manuale per la Ripresa), Prefazione del Cardinale Angelo Bagnasco, Cantagalli, Siena Settembre 2010, 235 pp. O autor é Arcebispo-Bispo de Trieste e Presidente do Obsevatório Internacional Cardeal Van Thuân sobre a Doutrina social da Igreja. É brilhante, claríssimo, conciso, eficaz e corajoso. Depois de ter lido milhares e milhares de páginas sobre a Doutrina social da Igreja posso dizer que nunca encontrei uma síntese tão excelente, tão vibrante e tão urgente como esta. É muito aconselhável não só para políticos mas para todos os católicos.



Nuno Serras Pereira
20. 01. 2012

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Os não-existentes

Hoje foi divulgada uma Nota Pastoral do Conselho Permanente da Conferência Episcopal intitulada Crise, Discernimento e Compromisso, que ignora totalmente, como se não importassem, ou melhor, não existissem, as crianças nascituras. Pelos vistos, mais de sessenta mil assassinos legais não comovem os Senhores Bispos. Dissertam sobre Portugal e a Doutrina Social da Igreja sem a mínima referência a estes nossos irmãos, totalmente inocentes, com quem Cristo Se identificou (Cf, Mt. 25, 31-46) e que são espostejados, triturados, esquartejados com subsídios do estado saqueados às famílias.

É verdade que a Nota afirma:

A dignidade – e dignificação prática – de cada pessoa humana é o princípio e também o fim duma sociedade propriamente dita. “Sociedade”, isto é, comunhão de destino e companhia entre todos, que só em conjunto se podem realizar, sem dispensar ou ultrapassar ninguém e com particular atenção aos mais fracos e vulneráveis. É em função deles – como de todos – e da sua irredutível dignidade que a sociedade se constitui e aperfeiçoa, assim mesmo se qualificando.

Na presente conjuntura nacional, é em torno deste primeiro princípio que se devem definir e avaliar as políticas concretas, por mais exigentes que sejam. Legisladores e governantes, empresários e gestores, famílias e cidadãos, todos devemos ter em primeiríssima conta a dignidade das pessoas que somos e os outros igualmente são, sobretudo os que vêem tal dignidade contrariada na prática ou obviada no futuro. Insistamos: A qualidade das decisões e das políticas afere-se prioritariamente com este critério.”

E também não há dúvida nenhuma que a pessoa o é desde a sua concepção. Mas todos sabemos que nos dias de hoje falar de pessoa (humana, porque também as há Angélicas e Divinas), sem mais, ou seja, sem pôr preto no branco que fala dela em todas as etapas da sua existência, desde o momento da concepção até ao seu fim natural, é percebido como referência somente às já nascidas. E esta impressão é confirmada pelo restante teor da Nota (a qual nunca fala dos nascituros) que gira toda ela à volta dos já nascidos sintetizando a urgência actual de acção nestes termos:

“ … também nos deve mobilizar para responder prioritariamente àquilo que de modo algum pode esperar. É este o caso fundamental do trabalho e do emprego, base indispensável de sobrevivência e dignificação humana; a sua garantia é urgente, mesmo exigindo mais criatividade e solidariedade prática para chegar a todos.”

A multidão dos “invisíveis”, dos não-pessoa, dos que positivamente não existem, mas que são degolados, estraçalhados, aniquilados e depois arrojados ao lixo ou aproveitados para sabores de bebidas, para cosméticos, e outras infâmias nefandas não constituem uma emergência para os nossos Bispos. Ignoram sistemática e olimpicamente, com um desprezo que raia a impiedade, o Magistério de João Paulo II e de Bento XVI com as suas insistentes referências a esta tragédia e às implicações sociais da mesma. Chegam ao desplante de citar a Caritas in Veritate, Encíclica que torna bem claro, na continuidade da Evangelium vitae, que é impossível uma Doutrina Social da Igreja à margem da sexualidade e da vida nascente.

A Sagrada Escritura aponta como um dos mais graves pecados dos gentios a falta de piedade para com o próximo. Giuliano Ferrara, um ateu, director do jornal Il Foglio, mostra uma sensibilidade, ou uma piedade, muito mais apurada que os nossos Bispos quando escreveu, a propósito de um abortamento que deu brado em Itália:

La scomparsa della pietà è una notizia che sovrasta la crisi dell’euro e qualsiasi altra notizia. Una ragazza di sedici anni ha abortito, cioè si è liberata annichilendola di una creatura umana concepita nel suo grembo, dopo e a causa di una campagna pedagogica scatenata con le migliori intenzioni dai suoi genitori a nome di un valore sociale sordo a ogni remora di tipo etico ... ”

“O desaparecimento da piedade é uma notícia que se sobrepõe à crise do euro e a qualquer outra notícia. Uma rapariga de dezasseis anos abortou, isto é, libertou-se aniquilando uma criatura humana concebida no seu seio, depois e por causa de uma campanha desencadeada com as melhores das intenções dos seus pais em nome de um valor social surdo a qualquer rémora de tipo ético … ”

O texto do Conselho Permanente da Conferência Episcopal tem claramente, e é uma mais-valia, a mão do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente – percebe-se isso pelo estilo, pela clareza e profundidade, bem como por aquelas frases brilhantes que sintetizam magnificamente o essencial e que nos atiram para a acção/concretização.

Não sei compreender e muito menos explicar esta relutância do Senhor D. Manuel Clemente, por quem aliás nutro grande estima e a quem muito devo, em abordar esta defesa da pessoa humana nas suas fases iniciais, antes do nascimento. Tem sido nele uma constante, embora com algumas excepções. Por exemplo, na RR (rádio renascença), no seu programa semanal, pregou sobre a Exortação Apostólica do Papa Bento XVI durante uma série de programas vindo a parar, exactamente no número anterior àquele em que o Santo Padre escrevia sobre a Coerência Eucarística, a propósito dos políticos auto-intitulados católicos mas que são abortistas ou abortófilos. Algo de semelhante sucedeu quando dedicou diversos programas à Caritas in veritate. Ignorou por completo grande parte dos seus fundamentos, a saber, a abertura à vida na sexualidade e a defesa da pessoa nascente, em que o Papa Bento XVI a assentou. Tudo isto me entristece, particularmente vindo da sua parte, pois nele depositava grandíssimas esperanças. Aliás elas estão bem patentes no texto que escrevi intitulado “Eu vi uma Sentinela Vigilante” que a ele se referia.

A Nota do Conselho Permanente da Conferência Episcopal provocou em mim uma reacção contraditória. Por um lado, a satisfação de ver um texto bem redigido, ao alcance de muita gente, com frases lapidares a que se adere de coração e de inteligência. Por outro lado, a grave lacuna, que enquanto a mim minou a excelência da Nota, a ponto de a tornar como que contraproducente, sobre os mais oprimidos, espezinhados, vulneráveis e inocentes, os nossos irmãos as crianças nascentes. Por isso o que comecei a ler com alegria e contentamento foi transformando-se numa angústia funda que procurou em vão encontrar algum conforto em lágrimas.


Nuno Serras Pereira

13. 12. 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Da Igualdade de Género ao Respeito pela Liberdade de Pensamento e de Expressão - P. Gonçalo Portocarrero de Almada

1. Na edição de 29-8 passado, saiu no PÚBLICO o artigo «Igualdade de género ou falsa identidade», da minha autoria, no qual se questionava o actual regime legal de alteração de sexo. A 4-9 seguinte, no mesmo jornal, foi dado à estampa um texto intitulado «Uma questão de respeito», assinado por dois ex-deputados da Assembleia da República, que pretende responder àquele primeiro artigo.

2. Importa, em primeiro lugar, saudar o PÚBLICO pela divulgação dos referidos textos, num gesto de grande respeito pela liberdade e de pluralismo democrático, tanto mais louvável quanto a corajosa publicação do primeiro artigo foi criticada pelos referidos ex-deputados, decerto pelo pouco respeito que lhes merece a liberdade de pensamento e de expressão.

3. É certamente honroso, para qualquer autor, que dois ex-deputados comentem um seu texto de opinião, sobretudo se o mesmo já tinha merecido a viva felicitação de muitos leitores, entre os quais outros dois ex-parlamentares, professores universitários, etc.

4. A inegável discordância entre os dois artigos é, certamente, salutar, mas é de lamentar a atitude acintosa dos referidos ex-deputados, porque só na base do respeito mútuo e da tolerância é possível um diálogo construtivo.

5. Pelo contrário, o artigo «Igualdade de género ou falsa identidade», embora crítico, não é ofensivo para ninguém, nem contém nenhuma falta de respeito em relação a nenhum ser humano, quaisquer que sejam as suas ideias e opções.

6. A este propósito, transcreve-se o que na edição do PÚBLICO, mas a 14-8 passado, o mesmo autor escreveu e agora reafirma: «Todos iguais? Com certeza, no que respeita à comum natureza e dignidade do ser humano, bem como a todos os direitos e liberdades fundamentais».

7. Portanto, as alusões a eventuais sentimentos de ódio, de violência ou de premeditada humilhação de quem quer que seja, não tendo qualquer fundamento objectivo, devem ser entendidas no contexto de uma estratégia de ofensa pessoal que, como é óbvio, dispensa qualquer comentário.

8. Na ausência de dados objectivos que sustentem uma crítica consistente, fabula-se como teria sido grave se tivesse sido dito o que não foi dito, ou seja, se se «equiparasse as mulheres ou negros a uma subespécie». Mas esta injuriosa conclusão não consta, explícita ou implicitamente, no texto em apreço e, diga-se de passagem, parece relevar algum preconceito machista e racista.

9. Talvez, se se tivesse dito o que não se disse, a Igreja, a que o autor pertence com muito gosto, tivesse que pedir perdão através da sua hierarquia, mas não decerto pelo facto desse texto, embora discutível e da única responsabilidade do seu autor, reflectir, com substancial fidelidade, o magistério eclesial. Por muito que isso custe aos que desejariam silenciar uma voz livre e coerentemente cristã.

10. Questão mais interessante seria a de saber se os respectivos partidos subscrevem as teses destes seus ex-deputados. Se for este o caso, deveriam assumir publicamente a sua incompatibilidade com a doutrina social da Igreja e, por uma questão de elementar honestidade e de transparência política, esclarecer, sobre este particular, o eleitorado.

11. A ameaça de um eventual procedimento criminal, por sinal juridicamente improcedente, deve ser registada com alguma preocupação, não por temor à justiça – quem não deve, não teme – mas porque este tipo de intimidações são próprias dos regimes totalitários, em que todas as divergências são sistematicamente eliminadas.

12. Compreende-se o empenho dos dois ex-deputados na defesa da actual normativa, mas talvez não seja descabido perguntar-lhes se estão dispostos a respeitarem a vontade do povo português, se este entender que não se revê na «mais avançada» lei da identidade de género. A questão é tanto mais pertinente quanto a maioria que aprovou a actual lei sofreu uma significativa derrota nas últimas eleições legislativas.

13. A resposta dos dois ex-deputados foi expressa em termos aparentemente azedos e ressabiados, ao contrário do bem-humorado texto precedente. Embora a alegria seja mais própria do património cristão, importa alguma serenidade ao abordar questões desta natureza, sob pena de que os estados emocionais toldem um equilibrado uso da capacidade de argumentação.

14. A questão fundamental deste debate não é, contudo, a da identidade de género, que apenas afecta uma percentagem ínfima da população. O que realmente está em causa é o modelo de sociedade que se pretende para o nosso país. Contra a intolerância e o totalitarismo ideológico, há que defender a tolerância e a liberdade de pensamento e de expressão em Portugal.