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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Acerca da indissolubilidade do matrimônio e do debate sobre os divorciados recasados e os sacramentos - por Arcebispo Gerhard Ludwig Müller

In NewsVa

O estudo da problemática dos fiéis que contraíram um novo vínculo civil depois de um divórcio não é novo e foi sempre guiado com grande seriedade pela Igreja com o propósito de ajudar as pessoas concernidas, dado que o matrimónio é um sacramento que abrange de modo particularmente profundo a realidade pessoal, social e histórica do homem. Considerando o número crescente de pessoas concernidas nos países de antiga tradição cristã trata-se de um problema pastoral de vasto alcance. Hoje os crentes questionam-se muito seriamente: não pode a Igreja permitir, em determinadas condições, o acesso aos sacramentos aos fiéis divorciados recasados? Em relação a tal questão tem a Igreja as mãos amarradas para sempre? Os teólogos consideraram deveras todas as implicações e consequências em relação a esta matéria?

Questões como estas devem ser tratadas em conformidade com a doutrina católica sobre o matrimónio. Uma pastoral plenamente responsável pressupõe uma teologia que se abandone a Deus que se revela «prestando-lhe o total obséquio do intelecto e da vontade e assentindo voluntariamente à Revelação que ele faz» (Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Dei Verbum, 5). Para tornar compreensível o ensinamento autêntico da Igreja devemos proceder a partir da Palavra de Deus que está contida na Sagrada Escritura, ilustrada na Tradição da Igreja e interpretada de modo vinculador pelo Magistério.

O testemunho da Escritura
 
Não está isento de problemáticas o facto de apresentar imediatamente a nossa questão no âmbito do Antigo Testamento, porque naquela época o matrimónio ainda não era considerado um sacramento. A Palavra de Deus no Antigo Testamento é contudo significativa em relação a isto também para nós, a partir do momento que Jesus se coloca nesta tradição e argumenta a partir dela. Encontra-se no Decálogo o mandamento «Não cometer adultério» (Êx 20, 14), mas noutras partes o divórcio é considerado possível. Segundo Dt 24, 1-4, Moisés estabelece que um homem pode dar à esposa um libelo de repúdio e pode mandá-la embora da sua casa se ela não achar mais graça diante dos seus olhos. Como consequência disto, o homem e a mulher podem voltar a casar. Contudo, em paralelo com a concessão do divórcio no Antigo Testamento encontra-se também um certo constrangimento em relação a esta prática. Assim como o ideal da monogamia, também o ideal da indissolubilidade é entendido no confronto que os profetas instituem entre a aliança de Javé com Israel e o vínculo matrimonial. O profeta Malaquias expressa com clareza tudo isto: «Ninguém atraiçoe a mulher da sua juventude... a mulher a ti vinculada por um pacto» (Ml 2, 14-15).
 
Foram sobretudo as controvérsias com os fariseus que deram a Jesus a ocasião para se ocupar do tema. Ele distanciou-se expressamente da prática veterotestamentária do divórcio, que Moisés tinha permitido por causa da «dureza do coração» dos homens, e ao contrário indicou a vontade originária de Deus: «Mas no início da criação varão e mulher os criou; por isto o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher e os dois serão uma só carne […] Por conseguinte, não separe o homem o que Deus uniu» (Mc 10, 5-9; cf. Mt 19, 4-9; Lc 16, 18). A Igreja católica, no seu ensinamento e na sua prática, referiu-se constantemente às palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimónio. O Pacto que une íntima e reciprocamente os dois cônjuges é instituído pelo próprio Deus. Trata-se por conseguinte de uma realidade que vem de Deus e já não está na disponibilidade dos homens.
Hoje, alguns exegetas afirmam que estas expressões do Senhor já teriam encontrado nos tempos apostólicos uma certa flexibilidade na aplicação: e precisamente, no caso da porneia/fornicação (cf. Mt 5,32; 19, 9) e no caso da separação entre um cônjuge cristão e outro não cristão (cf. 1 Cor 7, 12-15). As cláusulas sobre a fornicação foram objecto de debate controverso desde o início no campo exegético. Muitos estão convictos de que não se trata de excepções em relação à indissolubilidade do matrimónio, mas antes de vínculos matrimoniais não válidos. Contudo, a Igreja não pode basear a sua doutrina e a sua prática em hipóteses exegéticas controversas. Ela deve ater-se ao ensinamento claro de Cristo.
 
Paulo estabelece que a proibição de divórcio é uma vontade expressa de Cristo: «Mando aos casados, não eu mas o Senhor, que a mulher se não separe do marido. Se, porém, se separar, que não torne a casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não repudie a mulher» (1 Cor 7, 10-11). Ao mesmo tempo, baseando-se na própria autoridade, Paulo concede que um não cristão possa separar-se do seu cônjuge que se tornou cristão. Neste caso o cristão já não está «submetido à escravidão», isto é, já não está obrigado a permanecer não-casado (1 Cor 7, 12-16). A partir desta posição, a Igreja reconheceu que só o matrimónio entre um homem e uma mulher baptizados é sacramento em sentido próprio e só para estes é válida a indissolubilidade incondicional. De facto, o matrimónio dos não-baptizados está subordinado à indissolubilidade, mas pode contudo ser dissolvido em determinadas circunstâncias – devido a um bem maior (Privilegium Paulinum). Não se trata portanto de uma excepção ao ensinamento do Senhor: a indissolubilidade do matrimónio sacramental, do matrimónio no âmbito do Mistério de Cristo, permanece.
 
De grande significado para o fundamento bíblico da compreensão sacramental do matrimónio é a Carta aos Efésios, na qual se afirma: «Maridos, amai as vossas mulheres como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou» (Ef 5, 25). E mais adiante o apóstolo escreve: «Por isso, o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à mulher e passarão os dois a ser uma só carne. É grande este mistério; digo-o porém, em relação a Cristo e à Igreja» (Ef 5, 31-32). O matrimónio cristão é um sinal eficaz da aliança de Cristo e da Igreja. O matrimónio entre baptizados é um sacramento porque distingue e age como mediador da graça deste pacto.
 
O testemunho da tradição da Igreja
 
Os Padres da Igreja e os Concílios constituem sucessivamente um importante testemunho para o desenvolvimento da posição eclesiástica. Segundo os Padres as instruções bíblicas são vinculadoras. Eles não admitem as leis civis sobre o divórcio considerando-as incompatíveis com o pedido de Jesus. A Igreja dos Padres, em obediência ao Evangelho, rejeitam o divórcio e o segundo matrimónio, em relação a esta questão o testemunho dos Padres é inequívoco.
 
Na época patrística os crentes separados que se tinham voltado a casar civilmente não eram readmitidos aos sacramentos nem sequer depois de um período de penitência. Alguns textos patrísticos deixam entender que os abusos nem sempre eram rigorosamente rejeitados e que por vezes foram procuradas soluções pastorais para raríssimos casos-limite.
 
Mais tarde nalgumas zonas, sobretudo por causa da crescente interdependência entre Igreja e Estado, chegou-se a compromissos maiores. No Oriente este desenvolvimento prosseguiu o seu curso e levou, sobretudo depois da separação da Cátedra de Pedro, a uma prática cada vez mais liberal. Hoje nas Igrejas ortodoxas existe uma variedade de causas para o divórcio, que normalmente são justificadas com referência à oikonomia, a clemência pastoral para cada um dos casos difíceis, e abrem o caminho a um segundo ou terceiro matrimónio com carácter penitencial. Esta prática não é coerente com a vontade de Deus, claramente expressa pelas palavras de Jesus acerca da indissolubilidade do matrimónio, e isto representa certamente uma questão ecuménica que não deve ser subestimada.
 
No Ocidente, a reforma gregoriana contrastou as tendências de liberalização e voltou a propor o conceito originário das Escrituras e dos Padres. A Igreja católica defendeu a absoluta indissolubilidade do matrimónio até à custa de grandes sacrifícios e sofrimentos. O cisma da «Igreja da Inglaterra», que se separou do Sucessor de Pedro, aconteceu não por causa de diferenças doutrinais, mas porque o Papa, em obediência à palavra de Jesus, não podia favorecer o pedido do rei Henrique VIII para a dissolução do seu matrimónio.
 
O Concílio de Trento confirmou a doutrina da indissolubilidade do matrimónio sacramental e esclareceu que ela corresponde ao ensinamento do Evangelho (cf. DH 1807). Por vezes afirma-se que a Igreja tolerou de facto a prática oriental, mas isto não corresponde à verdade. Os canonistas sempre falaram de uma prática abusiva, e há testemunhos acerca de alguns grupos de cristãos ortodoxos que, tendo-se tornado católicos, tiveram que assinar uma confissão de fé na qual era feita referência explícita à impossibilidade da celebração de segundas ou terceiras núpcias.
 
O Concílio Vaticano II propôs de novo uma doutrina teológica e espiritualmente profunda do matrimónio na Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo, expondo com clareza também o princípio da sua indissolubilidade. O matrimónio é entendido como uma completa comunhão corporal e espiritual de vida e de amor entre homem e mulher, que se doam e se acolhem um ao outro enquanto pessoas. Através do acto pessoal e livre do consentimento recíproco é fundada por direito divino uma instituição estável, orientada para o bem dos cônjuges e da prole, e não dependente do arbítrio do homem: «Esta união íntima, enquanto mútua doação de duas pessoas, assim como o bem dos filhos, exigem a plena fidelidade dos cônjuges e reclamam a sua unidade indissolúvel» (n. 48). Por meio do sacramento Deus concede aos cônjuges uma graça especial: «Com efeito, como outrora Deus tomou a iniciativa de uma aliança de amor e fidelidade com o seu povo assim agora o Salvador dos homens e esposo da Igreja vem ao encontro dos cônjuges cristãos através do sacramento do matrimónio. Além disso, permanece com eles para que, assim como ele amou a Igreja e se entregou por ela, também os cônjuges possam amar-se um ao outro fielmente, para sempre, com dedicação mútua» (ibid.). Mediante o sacramento a indissolubilidade do matrimónio encerra um significado novo e mais profundo: ela torna-se imagem do amor de Deus pelo seu povo e da fidelidade irrevogável de Cristo à sua Igreja.
 
Só é possível compreender e viver o matrimónio como sacramento no âmbito do Mistério de Cristo. Se se seculariza o matrimónio ou se for considerado uma realidade meramente natural permanece como que impedido o acesso à sua sacramentalidade. O matrimónio sacramental pertence à ordem da graça e é inserido na comunhão definitiva de amor de Cristo com a sua Igreja. Os cristãos estão chamados a viver o seu matrimónio no horizonte escatológico da vinda do Reino de Deus em Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado.
 
O testemunho do Magistério em época recente
 
Com o texto ainda hoje fundamental da Exortação apostólica Familiaris consortio, publicada por João Paulo II a 22 de Novembro de 1981 depois do Sínodo dos Bispos sobre a família cristã no mundo contemporâneo, foi expressamente confirmado o ensinamento dogmático da Igreja acerca do matrimónio. Sob o ponto de vista pastoral a Exortação pós-sinodal ocupou-se também da cura dos fiéis recasados com rito civil, mas que ainda estão vinculados por um matrimónio válido para a Igreja. O Papa demonstrou uma medida alta de solicitude e atenção.
 
No n. 84 («Os divorciados recasados») são expostos os seguintes princípios:
 
1. Os pastores que cuidam das almas são obrigados por amor à verdade «a discernir bem as diversas situações». Não é possível avaliar tudo e todos do mesmo modo.
 
2. Os pastores e as comunidades são obrigados a ajudar «com caridade solícita» os fiéis concernidos; com efeito também eles pertencem à Igreja, têm direito à cura pastoral e devem poder participar da vida da Igreja.
 
3. A admissão à Eucaristia não lhes pode contudo ser concedida. Em relação a isto é aduzido um duplo motivo: a) «o seu estado e condição de vida estão em contraste objectivo com aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e realizada pela Eucaristia»; b) «se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio». Uma reconciliação mediante o sacramento da penitência – que abriria o caminho ao sacramento eucarístico – só pode ser concedida com base no arrependimento em relação a quanto aconteceu, e com a disponibilidade «a uma forma de vida já não em contradição com a indissolubilidade do matrimónio». Isto comporta, em concreto, que quando a nova união não pode ser dissolvida por motivos sérios – como, por exemplo, a educação dos filhos – ambos os cônjuges «assumem o compromisso de viver em continência total».
 
4. Por motivos teológico-sacramentais, e não por uma constrição legal, ao clero é expressamente feita a proibição, enquanto subsiste a validade do primeiro matrimónio, de concretizar «cerimónias de qualquer género» a favor de divorciados que se recasam civilmente.
 
A Carta da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a recepção da Comunhão eucarística por parte de fiéis divorciados recasados de 14 de Setembro de 1994 confirmou que a prática da Igreja sobre este tema «não pode ser modificada com base nas diferentes situações» (n. 5). Além disso, é esclarecido que os crentes concernidos não devem receber a sagrada Comunhão com base no seu juízo de consciência: «Caso o julgasse possível, os pastores e os confessores […] têm o grave dever de o repreender porque tal juízo de consciência está em aberto contraste com a doutrina da Igreja» (n. 6). No caso de dúvidas acerca da validade de um matrimónio fracassado, elas devem ser verificadas pelos órgãos judiciários competentes em matéria matrimonial (cf. n. 9). Permanece de importância fundamental fazer «com caridade solícita tudo o que pode fortalecer no amor de Cristo e da Igreja os fiéis que se encontram em situação matrimonial irregular. Só assim será possível para eles acolher plenamente a mensagem do matrimónio cristão e suportar na fé o sofrimento da sua situação. Na acção pastoral dever-se-á fazer todos os esforços para que seja bem compreendido que não se trata de discriminação alguma, mas unicamente de fidelidade absoluta à vontade de Cristo que nos voltou a dar e confiou de novo a indissolubilidade do matrimónio como dom do Criador» (n. 10).
 
Na Exortação pós-sinodal Sacramentum caritatis de 22 de Fevereiro de 2007 Bento XVI retoma e relança o trabalho do precedente Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia. Ele chega a falar da situação dos fiéis divorciados recasados no n. 29, onde não hesita defini-la «um problema pastoral delicado e complexo». Bento XVI reafirma «a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (cf. Mc 10, 2-12), de não admitir aos Sacramentos os divorciados recasados», mas chega até a esconjurar os pastores a dedicar «especial atenção» em relação às pessoas concernidas «no desejo de que cultivem, na medida do possível, um estilo cristão de vida através da participação na Santa Missa, mesmo sem receber a Comunhão, da escuta da Palavra de Deus, ad adoração eucarística, da oração, da participação na vida comunitária, do diálogo confidente com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação à caridade vivida, das obras de penitência, do compromisso educativo dos filhos». É reafirmado que, em caso de dúvidas acerca da validade da comunhão de vida matrimonial que foi interrompida, elas devem ser examinadas atentamente pelos tribunais competentes em matéria matrimonial.
 
A mentalidade contemporânea está bastante em contraste com a compreensão cristã do matrimónio, sobretudo em relação à sua indissolubilidade e à abertura à vida. Considerando que muitos cristãos são influenciados por tal contexto cultural, os matrimónios são provavelmente com mais frequência não válidos nos nossos dias de quanto o eram no passado, porque é deficitária a vontade de se casar segundo o sentido da doutrina matrimonial católica e também a pertença a um contexto vital de fé é muito limitada. Portanto, uma verificação da validade do matrimónio é importante e pode levar a uma solução dos problemas. Quando não é possível comprovar uma nulidade do matrimónio, é possível a absolvição e a Comunhão eucarística se for seguida a aprovada prática eclesial que estabelece que se viva juntos «como amigos, como irmão e irmã». As bênçãos de vínculos irregulares devem «ser evitadas em qualquer caso […] para que não surjam entre os fiéis confusões acerca do valor do Matrimónio». A bênção (bene-dictio: aprovação por parte de Deus) de uma relação que se contrapõe à vontade divina deve ser considerada em si uma contradição.
 
Na homilia pronunciada em Milão a 3 de Junho de 2012, por ocasião do VII Encontro mundial das famílias, Bento XVI voltou a falar deste doloroso problema: «Gostaria de dedicar uma palavra também aos fiéis que, mesmo partilhando os ensinamentos da Igreja sobre a família, estão marcados por experiências dolorosas de fracasso ou de separação. Sabei que o Papa e a Igreja vos amparam na vossa fadiga. Encorajo-vos a permanecer unidos às vossas comunidades, enquanto faço votos por que as dioceses realizem iniciativas adequadas de acolhimento e proximidade».
 
O último Sínodo dos Bispos sobre o tema «A nova Evangelização para a transmissão da fé cristã» (7-28 de Outubro de 2012) ocupou-se de novo da situação dos fiéis que, a seguir ao fracasso da comunhão de vida matrimonial (não a falência do matrimónio, que subsiste enquanto sacramento) iniciou uma nova união e convivem sem o vínculo sacramental do matrimónio. Na mensagem final os Padres sinodais dirigiram-se com estas palavras aos fiéis concernidos: «A todos eles desejamos dizer que o amor do Senhor não abandona ninguém, que também a Igreja os ama e é casa acolhedora para todos, que eles permanecem membros da Igreja mesmo se não podem receber a absolvição sacramental e a Eucaristia. As comunidades católicas sejam acolhedoras em relação a quantos vivem em tais situações e apoiem caminhos de conversão e de reconciliação».
 
Considerações antropológicas e teológico-sacramentais
A doutrina sobre a indissolubilidade do matrimónio encontra com frequência incompreensão num ambiente secularizado. Onde se perderam as razões fundamentais da fé cristã, uma mera pertença convencional à Igreja já não é capaz de guiar as escolhas de vida importantes e de oferecer apoio algum nas crises do estado matrimonial – como também do sacerdócio e da vida consagrada. Muitos se questionam: como posso vincular-me por toda a vida a uma só mulher/a um só homem? Quem me pode dizer como será daqui a dez, vinte, trinta, quarenta anos de matrimónio? É efectivamente possível um vínculo definitivo com uma só pessoa? As muitas experiências de comunhão matrimonial que hoje se interrompem reforçam o cepticismo dos jovens em relação às decisões definitivas da vida.
 
Por outro lado, o ideal da fidelidade entre um homem e uma mulher, fundado na ordem da criação, nada perdeu do seu fascínio, como evidenciam os recentes inquéritos entre os jovens. A maior parte deles deseja uma relação estável e duradoura, enquanto isso corresponderia também à natureza espiritual e moral do homem. Além disso, deve recordar-se o valor antropológico do matrimónio indissolúvel: ele subtrai os cônjuges do arbítrio e da tirania dos sentimentos e dos estados de ânimo; ajuda-os a enfrentar as dificuldades pessoais e a superar as experiências dolorosas; protege sobretudo os filhos, que são vítimas do maior sofrimento da interrupção dos matrimónios.
 
O amor é algo mais do que o sentimento e o instinto; na sua essência é dedicação. No amor conjugal duas pessoas dizem um ao outro consciente e voluntariamente: só tu – e tu para sempre. A palavra do Senhor: «O que Deus uniu...» corresponde à promessa do casal: «Recebo-te como meu esposo... recebo-te como minha esposa... Quero amar-te e honrar-te toda a minha vida, enquanto a morte não nos separar». O sacerdote abençoa o pacto que os cônjuges estabeleceram entre si diante de Deus. Quem tiver dúvidas sobre o facto de que o vínculo matrimonial tenha qualidade ontológica, pode deixar-se instruir pela Palavra de Deus: «No princípio Deus criou o homem e a mulher. Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua esposa e os dois serão uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne» (Mt 19, 4-6).
 
Para os cristãos é válido o facto de que o matrimónio dos baptizados, incorporados no Corpo de Cristo, tem um carácter sacramental e representa, por conseguinte, uma realidade sobrenatural. Um dos problemas pastorais mais graves consiste no facto de que muitos, hoje, julgam o matrimónio exclusivamente segundo critérios mundanos e pragmáticos. Quem pensa segundo o «espírito do mundo» (1 Cor 2, 12) não pode compreender a sacramentalidade do matrimónio. À crescente falta de compreensão acerca da santidade do matrimónio, a Igreja não pode responder com uma adequação pragmática ao que parece inevitável, mas só com a confiança no «Espírito de Deus, para que possamos conhecer o que Deus nos doou» (1 Cor 2, 12). O matrimónio sacramental é um testemunho do poder da graça que transforma o homem e prepara toda a Igreja para a cidade santa, a nova Jerusalém, a própria Igreja, pronta «como uma esposa adornada para o seu esposo» (Ap 21, 2). O Evangelho da santidade do matrimónio deve ser anunciado com audácia profética. Um profeta tíbio procura na adequação ao espírito dos tempos a sua própria salvação, mas não a salvação do mundo em Jesus Cristo. A fidelidade às promessas do matrimónio é um sinal profético da salvação que Deus doa ao mundo: «quem pode compreender, compreenda» (Mt 19, 12). O amor conjugal é purificado, fortalecido e aumentado pela graça sacramental: «Este amor, ratificado por um compromisso comum e sobretudo consagrado por um sacramento de Cristo, permanece indissoluvelmente fiel na boa e na má sorte, a nível do corpo e do espírito; por conseguinte exclui qualquer adultério e divórcio» (Gaudium et spes, 49). Por conseguinte, os esposos, participando em virtude do sacramento do matrimónio do amor definitivo e irrevogável de Deus, podem em virtude disto ser testemunhas do amor fiel de Deus, nutrindo constantemente o seu amor através de uma vida de fé e de caridade.
 
Certamente, há situações – cada pastor o sabe – nas quais a convivência matrimonial se torna praticamente impossível por causa de graves motivos, como por exemplo em caso de violência física ou psíquica. Nestas dolorosas situações a Igreja sempre permitiu que os cônjuges se pudessem separar e não vivessem mais juntos. Contudo, deve ser esclarecido que o vínculo conjugal de um matrimónio validamente celebrado permanece estável diante de Deus e ambas as partes não são livres de contrair um novo matrimónio enquanto o outro cônjuge for vivo. Os pastores e as comunidades cristãs devem portanto comprometer-se em promover de todas as formas a reconciliação também nestes casos ou, quando isto não for possível, em ajudar as pessoas concernidas a enfrentar na fé a própria difícil situação.
 
Anotações teológico-morais
 
Com sempre maior frequência é sugerido que a decisão de receber ou não a Comunhão eucarística deveria ser deixada à consciência pessoal dos divorciados recasados. Este assunto, que se baseia num conceito problemático de «consciência», já foi rejeitado na carta da Congregação de 1994. Certamente, em cada celebração da Missa os fiéis são obrigados a respeitar na sua consciência se é possível receber a Comunhão, possibilidade à qual a existência de um pecado grave não confessado se opõe sempre. Por conseguinte, eles têm a obrigação de formar a própria consciência e de tender para a verdade; para esta finalidade podem ouvir na obediência o magistério da Igreja, que os ajuda «a não se desviarem da verdade acerca do bem do homem, mas, sobretudo nas questões mais difíceis, a alcançar com segurança a verdade e a permanecer nela» (João Paulo II, Carta encíclica Veritatis splendor, 64).
 
Se os divorciados recasados estão subjectivamente na convicção de consciência que o precedente matrimónio não era válido, isto deve ser objectivamente demonstrado pela competente autoridade judiciária em matéria matrimonial. O matrimónio não diz respeito só à relação entre duas pessoas e Deus, mas é também uma realidade da Igreja, um sacramento, sobre cuja validade não só o indivíduo para si mesmo, mas a Igreja, na qual ele mediante a fé e o Baptismo está incorporado, deve decidir. «Se o matrimónio precedente de fiéis divorciados recasados era válido, a sua nova união não pode ser considerada de modo algum lícita, pelo facto de que a recepção dos Sacramentos não pode estar baseada em razões interiores. A consciência do indivíduo está vinculada sem excepções a esta norma» (Card. Joseph Ratzinger, A pastoral do matrimónio deve fundar-se na verdade, L'Osservatore Romano, edição italiana de 30 de Novembro de 2011, pp. 4-5).
 
Também a doutrina da «epiqueia», segundo a qual uma lei é válida em termos gerais, mas nem sempre a acção humana lhe pode corresponder totalmente, não pode ser aplicada neste caso, porque a indissolubilidade do matrimónio sacramental é uma norma de direito divino, que por conseguinte não está na disponibilidade da autoridade da Igreja. Contudo, ela tem o pleno poder – na linha do privilégio paulino – de esclarecer quais condições devem ser satisfeitas antes de poder definir um matrimónio indissolúvel segundo o sentido que Jesus lhe atribuiu. Sobre esta base, a Igreja estabeleceu os impedimentos para o matrimónio que são motivo de nulidade matrimonial e preparou um pormenorizado procedimento processual.
 
Uma ulterior tendência a favor da admissão dos divorciados recasados aos sacramentos é a que invoca o argumento da misericórdia. Dado que o próprio Jesus solidarizou com os sofredores doando-lhes o seu amor misericordioso, a misericórdia seria por conseguinte um sinal especial da autêntica sequela. Isto é verdade, mas é um argumento débil em matéria teológico-sacramentária, também porque toda a ordem sacramental é precisamente obra da misericórdia divina e não pode ser revogada invocando o mesmo princípio que a sustém. Através daquela que objectivamente ressoa como uma falsa invocação da misericórdia incorre-se no risco da banalização da própria imagem de Deus, segundo a qual Deus mais não poderia fazer do que perdoar. Pertencem ao mistério de Deus, além da misericórdia, também a santidade e a justiça; se se escondem estes atributos de Deus e não se leva seriamente a realidade do pecado, não se pode nem sequer mediar às pessoas a sua misericórdia. Jesus encontrou a mulher adúltera com grande compaixão, mas também lhe disse: «Vai, e doravante não voltes a pecar» (Jo 8, 11). A misericórdia de Deus não é uma dispensa dos mandamentos de Deus e das instruções da Igreja; aliás, ela concede a força da graça para a sua plena realização, para se levantar depois de uma queda e para uma vida de perfeição à imagem do Pai celeste.

A cura pastoral
 
Mesmo se, por natureza íntima dos sacramentos, a admissão a eles por parte dos divorciados recasados não for possível, os esforços pastorais devem dirigir-se ainda mais a favor destes fiéis, mesmo se eles devem permanecer na dependência das normas derivantes da Revelação e da doutrina da Igreja. O percurso indicado pela Igreja para as pessoas directamente concernidas não é simples, mas elas devem saber e sentir que a Igreja acompanha o seu caminho como uma comunidade de cura e de salvação. Com o seu compromisso a compreender a prática eclesial e a não receber a Comunhão, os cônjuges apresentam-se à sua maneira como testemunhas da indissolubilidade do matrimónio.
A cura para os divorciados recasados certamente não deveria limitar-se à questão da recepção da Eucaristia. Trata-se de uma pastoral global que procura satisfazer o mais possível as exigências das diversas situações. É importante recordar, a este propósito, que além da Comunhão sacramental há outros modos para entrar em comunhão com Deus. A união com Deus alcança-se quando nos dirigimos a ele na fé, na esperança e na caridade, no arrependimento e na oração. Deus pode conceder a sua proximidade e a sua salvação às pessoas por diversos caminhos, mesmo se elas vivem em situações contraditórias. Como frisam constantemente os recentes documentos do Magistério, os pastores e as comunidades cristãs estão chamados a acolher com abertura e cordialidade as pessoas que vivem em situações irregulares, para estar ao seu lado com empatia, com a ajuda concreta e para lhes fazer sentir o amor do Bom Pastor. Uma cura pastoral fundada na verdade e no amor encontrará sempre e novamente neste campo os caminhos a percorrer e as formas mais justas.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Pope Francis and the Liturgy - by Alejandro Bermudez

In NCR

No genius is needed to figure out that Pope Francis is not a liturgist the way Pope Benedict was.

But the fear that Francis’ papacy may mark the “end of the reform of the reform” of the liturgical changes that were introduced after the Second Vatican Council is, frankly, unfounded.

Let me present the evidence.

Although his liturgical gestures as pope have not amounted to much so far, his ministry in the Archdiocese of Buenos Aires convincingly shows his mindset on the liturgy.

In Buenos Aires, then-Cardinal Bergoglio did not express significant interest in the extraordinary form of the rite. However, he put up no resistance to it either. Following Summorum Pontificum, he made the traditional Mass readily available. In fact, Buenos Aires is probably the Latin-American city with the largest number of Masses celebrated in the extraordinary form.

His lack of major interest was not hostility or indifference. Instead, he was concentrating on a far more daunting task: making sure that all of the faithful in his archdiocese had access to a decent Mass.

Let me explain. In Latin America, beside the beautifully and carefully celebrated Masses associated with the major popular devotions, liturgical abuses are still alive and constitute a massive problem in the region.

It is not a situation of omitting or changing the rubrics here and there. The liturgical problems are much more serious. They consist of events like priests “concelebrating” the Mass with the youth at the rhythm of tropical songs in Colombia; “consecrating” cakes with Guayaba marmalade in Venezuela; a “reggae” Mass in Panama; or a priest celebrating with vestments portraying Batman and Robin while squirting holy water with a green-and-red water pistol in Mexico.

This is no exaggeration. Such abuses are happening now.
Cardinal Bergoglio’s efforts for reform in Buenos Aires were not exclusively aimed at the liturgy. He sought to change priestly and sacramental life in general.

One of the most important and successful transformations in the archdiocese, with a significant impact on liturgy, was the cardinal’s approach to the “villero” priests.

Villa miseria” (miserable town) is the name Argentineans give to shanty towns in major cities. The villero priests were those who dedicated their pastoral ministry to work in these impoverished, usually very violent urban environments.

Although full of pastoral zeal, most of them were identified with Latin America’s theology of liberation, which incorporated Marxist ideas into Christianity as an indispensable means of understanding and dealing with social injustice. And, in general, they had a rebellious attitude towards authority, liturgical rubrics included.

In an interview for a book I recently finished about Pope Francis and his fellow Argentinian Jesuits, Jesuit Father Ignacio Perez del Viso, who taught Jorge Bergoglio as a seminarian, explained that, as archbishop of Buenos Aires, he completely changed the dynamics of the priests and the shanty towns they served.

Father Ignacio explained, “In the ’70s, most bishops would be in constant tension with the villero priests, and, every now and then, one of them would be suddenly transferred or removed altogether.”

“By the ’90s, bishops would tolerate them … but Bergoglio, from the moment he became auxiliary [bishop] in Buenos Aires, changed all that,” he said.

The difference was that Cardinal Bergoglio embraced the priests and their ministry. He would visit them in the shanty towns, send them to rest if they were tired and replace them himself at their parish for a few days. He would personally take care of them if they were in bed sick — essentially, he looked after their particular needs.

The only time he removed a villero priest from a shanty town was to protect him from a local drug lord who sent death threats.

And with the same fatherly solicitude that he used to care for his priests, the archbishop requested that they return to wearing clerics; refrain from using “batata” (an Argentinean sweet potato) instead of unleavened bread to celebrate Mass; and use songs from Catholic songbooks rather than political or secular songs.

Most often, he used persuasion with his pastors to transform the liturgical abuses in Buenos Aires, but also, in the words of a fellow Jesuit, “he never flinched when tough measures were required.”

With the process of secularization and stiffer selection criteria applied to priestly vocations, the number of seminarians dropped during Cardinal Bergoglio’s years as archbishop. But friends and foes agree that the quality of the celebration and preaching dramatically improved in the archdiocese.

I can personally attest that a Catholic’s chances to attend a well celebrated Novus Ordo Mass, with an edifying homily, anywhere in the city on any given day, are very, very high. As someone who travels Latin America and the U.S. on a regular basis, I can attest that very few other major urban areas, if any, can provide a similar rate.

Rich, traditional liturgical gestures at Mass are highly edifying. I have the blessing of living in an archdiocese led by an archbishop who is an expert in the theology of the  liturgy, and I attend a parish with similar treasures.

But the number of Catholics who live under the liturgical tyranny of well-meaning priests who believe that the Mass is theirs and not the Lord’s is way too high in the U.S., in Latin America and around the world.

Returning to the faithful the right to attend a Mass that more fully transmits the experience of actually being the summit of Christian life is still a pending revolution, in many regions.

Pope Francis’ vision of the liturgy as a crucial part of personal conversion, as well as his pastoral experience in Buenos Aires, should be a source for hope rather than suspicion.

This task is Herculean, but let’s just give him time.

Alejandro Bermudez is the translator of On Heaven and Earth,
a dialogue between Cardinal Jorge Bergoglio and Rabbi Abraham Skorka (Image Books, 2013).


domingo, 12 de maio de 2013

Attacking the Roots of Abortion - By Don Murray

In HPR

What is really required … is to address the thought processes and motivations that prompt people to seek abortion as a solution to a personal problem that should not have occurred in the first place

Catholics, and our counterparts in other religions, are making headway in the struggle against abortion.  Women coming to clinics seeking abortion have often been convinced to turn around and plan to give birth to the baby.  Legislatures in many states have thrown up roadblocks by introducing requirements such as time delays, requiring parental consent, or requiring a woman to view a sonogram of the developing baby before going ahead with a planned abortion.  Court action has often been taken in cases of underage girls being coached on how to falsify their story and in cases where girls have been transported across state lines to locations where abortion was legal.  A few states have even denied funding to Planned Parenthood, the nation’s largest abortion provider.  And, through C-FAM, we have been fighting the abortion agenda in the halls of the United Nations.
The publicity front in the abortion war has also been moving ahead, with a concentration on young women and on ethnic groups that have statistically higher rates of abortion.  Pro-life inserts are placed in college newspapers, presentations of photos showing the true nature of abortion are given on college campuses, a film has been produced referring to abortion as black genocide, and a campaign is under way to introduce pro-life literature into barber shops in minority neighborhoods.
The success of the overall effort can be realized from the fact that the numbers of abortion clinics and abortion providers have been sharply reduced, especially in rural areas.
But the effort thus far has been aimed at preventing the act of abortion itself or reducing the numbers of abortions performed.  What is really required, however, is to address the thought processes and motivations that prompt people to seek abortion as a solution to a personal problem that should not have occurred in the first place.
The first of these attitudes and motivations is the widespread acceptance, and widespread practice, of contraception, even among Catholics.  When the Obama administration targeted Catholics and used a mandate to force many Catholic institutions to fund contraception for all their employees, the Catholic bishops responded on the freedom of religion aspect of the issue, but contraception is itself a major moral problem to which the Church has not been giving proper attention for several decades.
People develop a mistaken idea that contraception prevents pregnancy 100 percent of the time, and when an unforeseen pregnancy does occur, they are tempted to resort to abortion.  The Guttmacher Institute reported in 2009 that 54 percent of abortions were performed on women who had used contraceptives in the month before they became pregnant.  The United States Supreme Court in 1992 (Casey v. Planned Parenthood), based a judgment against allowing obstacles to abortion on the very fact that people rely on abortion when contraception fails.
There is an abundance of evidence as to why contraception is morally wrong, beginning with God’s striking Onan dead for using it (Gen 38:9-10), continuing through the earliest Church tradition (the Didache), and the writings of numerous Church Fathers and Popes, right up to Vatican Council II (Gaudium et Spes 48, 50).
In addition to the moral arguments are the harmful natural effects – the increase in adultery due to the lessening of the fear of pregnancy; the resulting increase in divorce, leading to an increase in the number of women forced to be single mothers living in poverty; and, associated problems of their children receiving poorer education, making them vulnerable to incentives toward delinquency and crime; the decline in men’s respect for women; and the tendency of governments to institute population control measures, including forced abortions.  Besides these sociological effects, there are still others – the fact that contraceptives do not prevent the transmission of venereal disease, the damage to reproductive systems from water supplies that contain runoff from the urine of women using the pill, and the damage to Social Security and Medicare because fewer young people are entering the work force, resulting in the fact that contributions are insufficient to match the outlays to retirees.
But the objective of the Catholic Church goes beyond preventing a host of worldly problems.  The reason for the Church’s existence is to help people to gain heaven, but contraception prevents children from even existing. Couples who seek the pleasure of sex, without its natural consequences, are acting in a way that’s directly opposed to their achieving salvation.
The most direct result of using contraception is the fact that it violates the very purpose of sexuality.  When one wants to find the purpose of anything, it is necessary to consider what it does that nothing else does.  In the case of sexuality, it’s procreation.  Nothing else in nature accomplishes that.  Using this God-given faculty in a way that deliberately frustrates its God-intended result is a direct offense against the Creator, who wishes the couple to accept this new human being, and to raise this child in a way that will lead all three of them to life with God.  So, life-long monogamous marriage is the proper and necessary environment for the exercise of sexuality.
Natural Family Planning (NFP) is not the universal solution. In the very encyclical in which he proclaimed that contraception is immoral, Pope Paul VI also declared that NFP is allowable only under certain conditions – medical, psychological or financial – that make it permissible for a married couple to restrict their marital acts to times when procreation is not likely to occur (Humanae Vitae 16 and 10).  While today’s financial environment could mean that more couples qualify now than forty years ago, Pope Paul made it very clear that NFP is not a universal solution for everyone.
But while procreation is the very purpose of sexuality, then the concept of recreational sex, so widely accepted today, is a fundamental component of the attitudes and beliefs that lead to abortion.  When a person is open to the idea that sex is primarily recreational, they seek to explore it, at first vicariously, by means of pornography, and then with actual, contracepting partners, either in one-night stands, or in an ongoing arrangement of cohabitation.  Very often, it leads to abortion.
Contraception, with its underlying concept of recreational sex, has also led to the movement on the part of homosexual people to have their lifestyle, and their relationships accepted, and even considered to be marriage. After all, if heterosexual people can enjoy the pleasure of sex while preventing the birth of children, then it’s difficult to justify the belief that people who cannot have children should be forbidden to have sex.  But our willingness to accept people with same-sex attraction as human beings, and as God’s children, does not mean that one should condone actions that God himself punished with fire and brimstone at Sodom and Gomorrah.
So, we see that abortion, horrible as it is, is just the tip of the iceberg that consists of a series of evils, threatening the salvation of everyone in today’s world.  The notion of recreational sex is a major part of the problem.  So, how must we conduct this part of the fight?
Obviously, we have to publicize arguments regarding the purpose of sexuality, plus the nature and the purpose of marriage.  We must add to this the reasons why contraception is wrong, both the harmful natural effects that apply to everyone, including secularists, and also the evidence from Sacred Scripture and Sacred Tradition that applies to Catholics and to other Christians.  Parishes need to insure that these are dealt with properly in pre-Cana meetings, in adult education, in training for parents of children and of teen-agers, and in RCIA classes. Instructors in Catholic schools, and in CCD classes, must be properly trained. Catholic high schools and colleges must also ensure proper proclamation of the message.
These must be accompanied by strong opposition to pornography, insisting on proper enforcement of laws that are in effect, plus seeking more restrictions on the distribution of prurient material through the Internet, on television, in magazines, and other media outlets.
But dissemination of the message is the easy part.  It will be more difficult to gain acceptance of the message, given that people have become accustomed to a lifestyle built around the concept of recreational sex. The Church has been silent too long regarding the expression of that lifestyle through contraception.
Just as there were a series of issues underlying abortion, there is another series of issues involved in convincing people what they need to do, for their own salvation, and to overcome the evils throughout society.
The first obstacle that needs to be addressed is the loss of respect for the authority of the Church.  Catholics need to be reminded that Christ’s words to Peter included:  “I will give you the keys to the kingdom of heaven. Whatever you bind on earth shall be bound in heaven; and whatever you loose on earth will be loosed in heaven” (Matthew 16:19).  This authority given to Peter and his successors involves morality as well as doctrine.
Many baptized Catholics intellectually accept the Church’s right to promulgate the moral law but do not act according to what they have been taught.  They rationalize it, finding ways to justify acting as they want, rather than as they ought.  Rationalization involves a misuse of conscience. These people must, therefore, be led to a proper understanding of conscience as a matter of discerning through the intellect, and not a matter of deciding for themselves through the will, influenced by feelings.
But for other baptized Catholics, who do not accept Church authority, the obstacle is a failure of faith, as people question the right of God himself to direct their activity, having been led by a secular world to think of themselves as subject to no one, with an unlimited right to do as they want.  They need to be brought to realize their own limitations, that they did not bring themselves into this world, and that their existence and their well-being depend on others.  They need also to recognize Christ as divine, possessing the nature and authority of God, who came into our world to redeem it, and to point out for us the way to eternal life with him by leading an earthy life based on his teachings.
Apologetics, giving the reasons for the truths the Church teaches, is a necessary first step. It is necessary for presenting the evidence for Christ’s divinity, and it is necessary also for showing that the Catholic Church is the instrument for proclaiming his message, thus showing people the reasonableness of faith.  From there, one can go on to show that the Catholic Church is the one founded by Christ; that the moral law is essentially the road map to salvation; and how to make the proper use of conscience.  All Catholics, but especially parents and teachers, should be trained in the essentials of apologetics.  But apologetics, necessary as it is, must be accompanied by prayer, and a spirit of sacrifice, on the part of those who already believe, all for the sake of conversion of others, that they may be led to realize these truths.
It’s a campaign that needs to be waged on many fronts simultaneously.  The essential theme that needs to permeate the entire effort is love that includes forgiveness.  Christ came into our world out of love for us, precisely to redeem every member of the human race by means of the sacrificial offering of himself on Calvary.  His action there included a prayer that his persecutors might be forgiven, and his promise of Paradise for the repentant thief.  Then, at his first meeting with the eleven remaining apostles, he even gave them the authority to forgive sins against him.
Besides making our salvation possible by his suffering and death, Christ also told us how to achieve salvation, telling us that we must live out the Ten Commandments internally, as well as externally. He gave us the Beatitudes, and the instruction of more than a score of parables.  Christ went even further, by giving us the means of gaining salvation, through the sacraments.  Three of these are especially relevant in combating abortion.
The Sacrament of Reconciliation re-unites the repentant sinner with Christ and his Church.  For one who is truly sorry for offending God, resolved to avoid further sinful acts, thoughts and words, and willing to make restitution for damage done to others, the sincere and complete confession of the sins can bring total forgiveness for multiple abortions, for decades of contraceptive acts, and indulgence in pornography, as well as for other sins they have committed.  A loving Christ is, thus, applying to an individual the fruits of his sacrifice on Calvary.
But sexual abuses, especially pornography and contraception, frequently become addictions, difficult to overcome, so a person needs special help to fight their way back to a moral way of life.  The Sacrament of Holy Eucharist provides that help.  A loving Christ comes personally to the individual, and he himself is the special food that builds up spiritual strength for the struggle against the temptations that inevitably will return.  Frequent reception of Holy Eucharist, even daily if possible, together with quick returns to the Sacrament of Reconciliation, if lapses should occur, can help the person to overcome eventually their long-standing inclinations and weakness.
But there is yet another sacrament that is especially relevant to the struggle against abortion, and that is the Sacrament of Matrimony.  One of the promises the couple makes at the marriage ceremony is to accept all the children God may send them.  A person normally receives this sacrament only once, in contrast to Reconciliation and Holy Eucharist which should be received frequently. But the effects of marriage are constantly renewed throughout life in order to assist the couple in the day-to-day effort to live out their vocation to love each other, and to love the children God sends them, in a way that will bring all of them to be with him.  Given the realities of human nature, and the fact that we frequently offend others, the act of forgiveness—which we often need to request, as well as to extend—is a necessary feature of a healthy married life.
We began this discussion by trying to find the means to attack abortion at its roots, and what we have arrived at is a Catholic way of life, and the day-by-day effort of married persons to live that life.  And that’s exactly the point.  When one is truly convinced that sex is not for pleasure, but for children; and that marriage is a vocation for bringing up children, one is much better able to resist the lures of pornography and of contraception. Those who do not practice contraception, are far less likely to seek abortion.  Even if chemical abortions are increasing to fill the gap left by the decline in surgical abortions, the same arguments apply.
The Catholic concept of marriage—involving the commitment of one’s very life to serve God in the small community of husband and wife, pledging their mutual love exclusively until death, and sharing their love with the children their love brings about—is an ideal way of life that others do not possess, but which they would really want to have if they can be brought to recognize its value.  It must be presented to them in a way that leads them to that recognition.  This way of life is based on faith in God and his Son, Jesus Christ. It is recognizing the love he has shown to us. It is appreciating the Church he has given us. It is thankful obedience to the rules pointed out by his Church. And, it is the willingness to direct one’s life according to his will for us, so that we may eventually experience the eternal happiness he holds out for us.
It is a matter of carrying out the fundamentals of Catholic life in a humble, prayerful way, driven by a lively faith that expresses itself in love, and then evangelizing others from that point of view.


sábado, 11 de maio de 2013

Carta aberta ao Cardeal Jorge Bergoglio - por Nuno Serras Pereira



11. 05. 2013

Eminentíssimo Cardeal Jorge Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, escrevo-lhe esta missiva na esperança de que o Deus eterno, para o qual não há tempo e que todos os tempos Senhoreia, providencie, se assim for do Seu agrado, que dela tome conhecimento, ainda na sua condição cardinalícia.

Soube ontem, por um texto do vaticanista Sandro Magister, que vossa Eminência em circunstâncias várias se recusava a distribuir a Sagrada Comunhão, deixando esse ministério aos seus assistentes, em virtude do aproveitamento, ou manipulação, que pecadores públicos, de vida dupla, podiam fazer da publicitação da recepção do Santíssimo Sacramento, por suas augustas mãos de Pastor.

Em primeiro lugar, é com imensa alegria que agradeço a Vossa Eminência o desmascaramento desassombrado que faz, contraditando liminarmente aqueles, escassíssimos, seus confrades que aberrantemente advogam exactamente o contrário, a saber, que a recusa da Sagrada Comunhão aos pecadores públicos, tais como, por exemplo, políticos abortófilos e eutanazis, seria uma manipulação política da Eucaristia! É extraordinário até onde pode chegar a cegueira obstinada de “príncipes da Igreja” cuja obrigação e amor os deveria colocar na linha da frente na salvaguarda e defesa da Sacralidade três vezes Santa da Eucaristia, e no cuidado diligente do bem e da Salvação das almas, que, como ensina S. Pedro em uma das suas cartas (1 Pe 1, 9), é o fim da nossa Fé. Também o Código de Direito Canónico o afirma no seu último cânone (n º 1752): “ … a salvação das almas … deve ser sempre a lei suprema na Igreja”.

Será preciso ainda recordar que a proibição de dar a Sagrada Comunhão a pecadores públicos deriva da Lei Divina e que, por isso mesmo, nenhuma, NENHUMA, autoridade eclesiástica a pode ignorar, mudar ou dispensar?

Perdoará, Vossa Eminência, mas a par do contentamento fui assaltado por algumas estranhezas que se transformaram numa perplexidade tamanha que não consigo, por mim próprio, encontrar luz suficiente para dela sair.

Antes, porém, de as expor quero firmissimamente afirmar que tudo quanto escrevo ou digo submeto à autoridade da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, e ao “Doce Cristo na terra”, para usar a expressão bem conhecida de Santa Catarina de Sena, isto é o sucessor de Pedro, o Santo Padre, o Papa Francisco.

Direi agora o que estranho. 

a) Em primeiro lugar, no excerto transcrito por Sandro Magister, Vossa Eminência apresenta dúvidas - “difíceis de comprovar” – quanto à pecaminosidade pública daqueles a quem poderia recusar a Sagrada Comunhão. No final, porém, dá-los como hipócritas e argúi-os de duplicidade. Ora, com o devido respeito, ou se tem uma certeza moral firme ou então impõe-se não lançar suspeitas generalizadas. 

b) No entanto, poder-se-á dar o caso da incerteza de Vossa Eminência se alicerçar na suposição de que se poderão ter arrependido e confessado, com o devido propósito de emenda. Mas Vossa Eminência não ignorará que um pecador público, para além do arrependimento verdadeiro e da confissão bem-feita, não poderá abeirar-se publicamente da Sagrada Comunhão sem uma retractação, por palavras ou/e por obras, que manifeste a todos a sua mudança de vida. Caso assim não seja, provocará escândalo, no sentido em que induzirá os outros em pecado.

c) Perdoará Vossa Eminência, mas embora seja totalmente compreensível o abster-se de dar a Sacratíssima Comunhão, com o propósito de evitar manipulações maquiavélicas (Maquiavel, aconselha este tipo de manobras) deste Augustíssimo Sacramento, creio ser muitíssimo importante recordar que a Personagem principal não é o Cardeal Jorge Bergoglio, mas sim o seu Senhor, Jesus Cristo, Deus humanado, que se faz inteiramente presente, em aparências de humildade, na Hóstia Consagrada. Por isso, o que é gravíssimo não é tanto que a foto mostre Vossa Eminência, mas que ela mostre Jesus a ser “comungado” por quem é publicamente indigno, independentemente de quem administra a Sagrada Comunhão. O facto de Vossa Eminência se abster de a conceder mas de autorizar os seus ministros a fazê-lo, inclusive nas Missas por si Presididas, parece-me, salvo o devido respeito, um grande absurdo e um atropelo grosseiro da Lei Divina, caso se trate, já se sabe, de pecadores públicos.

Peço a Deus que se estou errado no que escrevo, não só neste texto mas em todos os demais, seja condenado como irresponsável e tudo seja arrojado nos fétidos esgotos nauseabundos; mas principalmente que seja esclarecido, admoestado e corrigido, não só para meu proveito mas também para o de todos a quem possa ter desencaminhado.

domingo, 2 de setembro de 2012

Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo - por João César das Neves

In João César das Neves, Deixem-me falar-vos do impossível, (Principia, 2008)


Eminências[1]
Senhores padres
Irmãs e irmãos

Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo !

Eu sei que este não é o momento. Neste Congresso eu devia analisar convosco a dimensão eclesial e sacramental da evangelização. Mas deixem-me falar-vos de Jesus Cristo.

Eu sei que não sou a pessoa. Há tanta gente que O conhece muito melhor do que eu. E Ele mesmo, ouve tudo o que nós dizemos. Mas deixem-me, apesar de tudo, falar-vos de Jesus Cristo.

1- A vida de Cristo

 

Porque Ele é o único assunto. Ele é o único tema que existe. De que podemos falar, senão d’Ele? Depois dos profetas nos anunciarem que Ele viria, de que podemos falar, senão d’Ele? Depois dos Apóstolos nos terem dito que Ele já tinha vindo, de que podemos falar? Quando os sucessores dos Apóstolos nos dizem, aqui e agora, que Ele veio, de que podemos falar senão d’Ele? Quando os santos no-Lo mostram presente, aqui e agora, de que podemos falar senão d’Ele? «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68).

Cristo é o único tema de que podemos falar. Charles Péguy, que rezou aqui, nesta catedral de Notre Dame de Paris, disse-nos que:


Os passos das legiões tinham marchado por Ele.
As velas dos barcos por ele se tinham inchado.
Por Ele os sóis de Outono tinham luzido.
As velas dos barcos por Ele se tinham dobrado.
(...)
Os passos de Dario tinham marchado por Ele.
Era Ele que se esperava no fim do fundo da Pérsia.
Era Ele que se esperava numa alma dispersa.
Ele era o Senhor de ontem e de hoje.
(...)
As regras de Aristóteles tinham marchado por ele.
Do cavalo de Alexandre às regras escolásticas.
E por Ele o ascetismo e a regra tinham luzido.
Das regras de Epicuro às regras monásticas
[2]


Todo o mundo nos fala de Cristo. Todo o mundo marcha por Cristo. Tudo existe por Cristo. Este deve ser o primeiro elemento da evangelização. Ele mesmo o disse. «Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra.Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.» (Mt 28, 18). A pré-condição da evangelização é que todo o poder foi recebido por Cristo. Pela sua ressurreição gloriosa, o mundo pertence a Cristo. Então a evangelização pode começar.

Se todo o poder é de Cristo, isso quer dizer que todas as coisas estão sob o seu poder. Isso quer dizer que cada momento da nossa vida está sob o seu poder. Nós sabemo-lo muito bem. Mesmo as coisas que parecem não estar sob o seu poder, elas o estão misteriosamente. O Catecismo da Igreja Católica explica-o muito bem.

«É unânime, a este respeito, o testemunho da Escritura: a solicitude da divina Providência é concreta e imediata, cuida de tudo, desde os mais insignificantes pormenores até aos grandes acontecimentos do mundo e da história. Os livros santos afirmam, com veemência, a soberania absoluta de Deus no decurso dos acontecimentos: “Tudo quanto Lhe aprouve, o nosso Deus o fez, no céu e na terra” (Sl 115, 3); e de Cristo se diz: “que abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre” (Ap 3, 7); “há muitos projectos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que prevalece” (Pr 19, 21) (...) O testemunho dos santos não cessa de confirmar esta verdade: Assim, Santa Catarina de Sena diz aos “que se escandalizam e se revoltam contra o que lhes acontece”: “Tudo procede do amor, tudo está ordenado para a salvação do homem, e não com nenhum outro fim” [3]. E S. Tomás Moro, pouco antes do seu martírio, consola a filha com estas palavras: “Nada pode acontecer-me que Deus não queira. E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça, é, na verdade, muito bom”[4]»[5].

O Catecismo é claro. Nós conhecemos muito bem esta doutrina. Mas acreditamos verdadeiramente nela todos os dias? Será que acreditamos que Jesus Cristo é o Senhor dos mercados e dos engarrafamentos? Sabemos que Cristo é o «Senhor dos exércitos» (Sl 84 (83), 2; Is 1, 9), o «Senhor dos séculos» (Tb 13, 15), sabemos que Ele é o «Senhor dos nossos pais» (Jdt 7, 28). Mas será que acreditamos que Ele é também o Senhor dos satélites e dos sindicatos? Dos jogos de computador e dos cinemas? Será que sabemos que Ele é o Senhor da televisão e dos autocarros, o Senhor das fábricas e dos telemóveis? Ele é o Senhor de ontem e de hoje.

É Ele o Verbo de Deus, que nos fala a cada momento da nossa vida. É Ele o Verbo de Deus , que está presente em cada presença que encontramos no nosso quotidiano. De que podemos falar, senão d’Ele? É isso a evangelização: falar de Jesus Cristo nos mercados, nos autocarros, nos sindicatos, nos cinemas.

O mundo, todo o mundo, é a manifestação de Cristo. O mundo, todo o mundo, quer o saiba ou não, é a presença de Cristo. Por Ele marcharam as legiões, mesmo se elas não O conheciam. Por Ele marcham as cotações da Bolsa e as decisões dos ministros, mesmo se elas não o sabem. Por Ele andam os passos dos operários e os preços do petróleo. Ele é o Senhor de ontem e de hoje.

«Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam Deus, daqueles que são chamados de acordo o seu desígnio» (Rm 8, 28). É por isso que, no meio de todas as coisas da nossa vida, de quem podemos falar, senão d’Ele?

A vida do mundo é o primeiro sacramento da evangelização. O mundo e tudo na nossa vida nos fala de Cristo. Cristo evangeliza através do mundo. Cristo evangeliza-nos através do mundo. Os acontecimentos da história são o primeiro sacramento da evangelização. O mundo, a nossa vida, a história não nos falam senão de Cristo. A vida do mundo é o primeiro sacramento da evangelização. O primeiro sacramento da evangelização é o Baptismo.

2- A felicidade de Cristo

 

Mas que significa falar de Jesus Cristo? Qual é a significação da evangelização?

Falar de Jesus Cristo é falar de felicidade, é falar de alegria, é falar de paz. É esse o sinal de Cristo. A verdadeira felicidade é o sinal, é o sacramento da presença de Cristo no mundo. A felicidade é a presença de Cristo em nós.

S. Agostinho disse : «Quando vos procuro, ó meu Deus, procuro uma vida feliz. Que eu vos procure, para que a minha alma viva. Pois o meu corpo vive da minha alma e a minha alma vive de vós (...) Longe de mim, Senhor, longe do coração do vosso servo, que se confessa a vós, longe de mim considerar-me feliz, com qualquer alegria com que me alegre. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que desinteressadamente vos servem, cuja alegria sois vós mesmo. E a vida feliz consiste em sentir alegria junto de vós, vinda de vós, graças a vós: esta é a vida feliz e não há outra. Aqueles, porém, que julgam que há uma outra vida feliz, perseguem outra alegria que não a verdadeira. Contudo, a sua vontade não se afasta de uma certa imagem de alegria.»[6]

S. Agostinho diz-nos que a felicidade é alegrar-se junto de Cristo, através de Cristo, graças a Cristo. É isso a felicidade. Não se pode falar de Cristo, não se pode falar de evangelização sem levar em si a felicidade e a alegria de Cristo. «Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. Manifestei-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa.» (Jo 15, 10-11). A alegria é o sinal do apóstolo.

Deus, quando nos quis mandar os Mandamentos, enviou-os por portador. Mas quando veio pessoalmente, trouxe-nos as Bem-aventuranças. A felicidade, a bem-aventurança, a alegria, a paz são as novidades da Nova Aliança. Elas devem ser também as novidades da Nova Evangelização. Falar de Jesus Cristo é falar de felicidade. É Cristo quem nos fará ver a felicidade[7].

É só por causa disso que «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1Co 9, 16). Não é um castigo. É apenas um esquecimento. Se não anuncio o Evangelho, se me esqueço de falar de Jesus Cristo, a felicidade não está em mim. Se eu não falo de Jesus Cristo, a felicidade não está em mim. Se não falo de Jesus Cristo sou infeliz. Ai de mim se não anuncio Jesus Cristo.

Quando esqueço as Bem-aventuranças sou infeliz. A felicidade, a verdadeira felicidade, a única felicidade, é falar de Jesus Cristo, é falar com Jesus Cristo. É alegrar-se falando de Cristo, através de Cristo, graças a Cristo. Falar de Jesus Cristo nos mercados e nos engarrafamentos. Falar de Cristo pelos satélites e pelos sindicatos. Falar de Cristo é ser feliz. Falar de Cristo é ser verdadeiramente feliz. É ser feliz nos passos dos operários e nas fábricas, nos cinemas e na Bolsa. Falar de Cristo é ser feliz no meio das decisões dos ministros e dos jogos de computador.

Mas a paz vem de Cristo, não do mundo. Sabemos muito bem que a paz que as fábricas nos dão, a paz dos cinemas, dos computadores, dos ministros não é a verdadeira paz. Sabemos que não é na televisão e nos autocarros que podemos encontrar a verdadeira alegria. Há aí uma imagem da verdadeira alegria, como diz S. Agostinho. Mas aqueles que julgam que há outra fora de Cristo, agarram-se a uma alegria que não é a verdadeira. Como diz S. Agostinho.

Os computadores e os sindicatos, os mercados e os engarrafamentos não nos podem, por si mesmos, dar a alegria. Os satélites e as fábricas não nos podem dar senão uma imagem da verdadeira felicidade. Sabemos que a alegria do mundo não é uma verdadeira alegria, a sua paz não é uma verdadeira paz. O mundo e a história não têm a paz, não têm a alegria. Não no-la podem dar. Vistos os sofrimentos da nossa vida, sabemos muito bem que não podemos encontrar a verdadeira felicidade no mundo e na história. Senão por Cristo.

Nós, pobres pecadores, nós sabemos muito bem quantas vezes caímos em falsas alegrias. Vemos por todo o lado pessoas que colocaram a sua esperança nas fábricas e nos políticos, nos mercados e nos jogos. E estão perdidos. Encontramos pessoas, quer o saibam ou não, que não encontraram no mundo a felicidade que aí procuravam.

A verdadeira felicidade está na presença de Cristo. E o mundo, todo o mundo, quer o saiba ou não, contém a presença de Cristo. Mas esta presença não pode ser revelada senão pela evangelização. É pela evangelização que encontramos o que nos dá a alegria nos mercados e nas ruas, porque é pela evangelização que aí encontramos Cristo. É pela evangelização que o mundo encontra a verdadeira alegria, a verdadeira felicidade, que ele já tem em imagem como diz S. Agostinho, mas que não conhece.

Qual é a fonte pela qual Jesus Cristo nos traz a alegria? Onde é que, mais que em qualquer outro lado, podemos encontrar Cristo presente no mundo?

Quando o mundo vê Cristo, o que o espanta mais é a misericórdia. «Quem é este que até perdoa os pecados?» (Lc 7, 49). É isto que espanta os fariseus. É isto que atrai os discípulos. Para nós, pobres pecadores, a única fonte de felicidade é a misericórdia. Para nós, que tantas vezes caímos nas falsas alegrias, o único caminho para a paz é a misericórdia. Para nós, esmagados pelos pecados, a única fonte de alegria é a misericórdia.

Os nossos pecados condenaram-nos. Cada um de nós sabe muito bem que os nossos pecados nos condenaram. E quando vemos as fábricas e os autocarros, os ministros e os mercados, sabemos muito bem que eles não podem ter paz, por causa dos seus terríveis pecados. Aquilo que precisamos, aquilo que eles precisam é da misericórdia. Só a misericórdia liberta dos pecados. Só a misericórdia redime os pecados. Só a misericórdia abre as portas da paz e da alegria. O anúncio da evangelização deve ser o anúncio da misericórdia. Só assim a evangelização pode anunciar a felicidade, a alegria e a paz.

São Tomás de Aquino, que rezou aqui, nesta Catedral de Notre Dame de Paris, ensinou-nos que os efeitos interiores da caridade são três: a alegria, a paz e a misericórdia[8]. A caridade que Cristo nos trouxe, dá-nos a alegria e a paz. Ela no-la dá através da misericórdia, que é também um efeito da caridade. «Os seus muitos pecados lhe foram perdoados porque ela muito amou» (Lc 7, 47).

A alegria é o segundo sacramento da evangelização. Para fazer a evangelização devemos ter a alegria dos salvos, devemos ter a paz de Cristo. A alegria de ser perdoado dos pecados é a o segundo sacramento da evangelização. O segundo sacramento da evangelização é a Penitência.

3- O corpo de Cristo

 

O mundo não gosta da evangelização. O mundo não gosta que lhe falemos de Cristo. É verdade que o mundo não conhece Cristo. Mas, mesmo sem o conhecer, o mundo não gosta que lhe falemos d’Ele. O mundo não conhece Cristo porque não ouve a evangelização, não compreende a evangelização. E não a ouve porque não gosta da evangelização.

O mundo procura por todo o lado a felicidade, a alegria, a paz. Mas não conhece Cristo. Só Cristo lhe poderia dar o que ele procura. E o mundo não gosta d’Aquele que não conhece. É esta a principal dificuldade da evangelização.

Tocamos aqui no mistério central da evangelização. Estamos no drama essencial da evangelização. «A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam. (...) Veio para o que era seu, e os seus não a receberam.» (Jo 1, 5 e 11). Eis o terrível obstáculo da evangelização.

O mundo, que tem em si a presença de Cristo, o mundo que busca a felicidade, a alegria e a paz, que ele só pode ter em Cristo, não gosta da evangelização. Nós só podemos falar de Cristo. Mas o mundo não gosta que lhe falemos de Cristo. Se O tivesse conhecido, o mundo não podia senão gostar d’Ele. Mas o mundo, não conhecendo Cristo, não gosta que lhe falemos de Cristo. O mundo não gosta da evangelização.

Não é do Verbo de Deus que o mundo não gosta. O mundo, em geral, não tem problemas com o panteísmo, com os misticismos e os espiritualismos. O mundo, nos seus mercados e fábricas, nas decisões dos ministros e nos preços do petróleo, não tem problemas com as superstições esotéricas. Deus, se ficar no Céu e se limitar a ser Deus longínquo, não traz problemas ao mundo, não cria dificuldades aos mercados e aos ministros.

Não é também da Cabeça de Cristo que o mundo não gosta. Todos, mesmo os que atacam a fé, tem normalmente respeito pela Cabeça de Cristo, pela pessoa de Jesus. Mesmo os grandes inimigos da Igreja afirmam admirar a vida, a doutrina, a pessoa de Jesus. Lemos nos livros dos ímpios palavras muito belas sobre Jesus, a sua história, as suas parábolas, os seus ensinamentos, o seu sacrifício admirável. Se Ele não é Deus, se Ele não ressuscita, o mundo tem grande admiração por Jesus.

O respeito que o mundo diz ter por Jesus supõe que Ele nunca diga que é Deus. Gostam muito dos seus ensinamentos, mas apenas se Ele não disser «Eu e o Pai somos um» (Jo 10, 30). Esta pequena parte dos seus ensinamentos não é tolerável. Mas, desde que Ele não diga que «antes de Abraão ser eu sou» (Jo 8, 58), o mundo é muito respeitoso para com a Cabeça de Cristo.

Não é do Verbo de Deus nem da Cabeça de Cristo que o mundo não gosta. Aquilo de que ele não gosta é do Corpo de Cristo. O que o mundo condena é o Corpo que Cristo escolheu para si. O corpo de carne e de sangue que Cristo escolheu para Si, é disso que o mundo não gosta. Se Cristo tivesse ficado no Céu, se o Verbo não tivesse escolhido encarnar num corpo, o mundo respeitá-lO-ia sempre.

Mas Ele veio cá abaixo, à lama e à poeira. Ele veio aqui, aos mercados e às fábricas. Se Deus vem aos mercados e às fábricas, se Ele interfere nas decisões dos ministros e dos sindicatos, isso o mundo não gosta mesmo nada. O que mundo não gosta em Deus é que Ele tenha decidido entrar no mercado e na carpintaria. O Verbo de Deus decidiu trabalhar durante uma data de anos numa manufactura, e alguns desses anos em trabalho infantil. É isso que o mundo não gosta: que Ele tenha escolhido um Corpo. O que o mundo não gosta é da Incarnação.

O mundo não gosta do corpo que Cristo escolheu para Si em Nazaré. E, sobretudo, o mundo não gosta do corpo que Ele escolhe para Si no Cenáculo. O corpo que Ele escolheu para Si em Nazaré e que se chama Jesus mas, sobretudo, o corpo que Ele escolhe para Si no Cenáculo, e que se chama Igreja. É disso que o mundo não gosta.

Lemos nos livros dos ateus palavras muito belas sobre Jesus. Mas lemos aí também as mais terríveis acusações contra a Igreja. O que o mundo não gosta de todo é da comunidade dos discípulos que Cristo escolheu para Si como seu Corpo. Este Corpo que se reúne aqui, nesta catedral, é disso que o mundo não gosta de todo. Mas ao atacar a Igreja, o mundo não sabe que está a atacar Cristo, que ele admira tanto.

Joana d’Arc, que desejou tão ardentemente rezar aqui nesta Catedral de Notre Dame de Paris, apresentou-nos este mistério de uma forma radical. No seu processo é dito: «É meu aviso que são tudo um, de Nossa Senhor e da Igreja, e que não se deve fazer dificuldade que seja tudo um.» [9]

A Cabeça de Cristo não pode ser separada do Corpo de Cristo. Nosso Senhor e a Igreja são tudo um. São Paulo diz «Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro.» (1Co 12, 27), «é Ele a cabeça do Corpo, que é a Igreja.» (Cl 1, 18). O Cristo total, a Eucaristia na Igreja, é isso que o mundo condena, que ele não gosta. A evangelização, que revela a presença de Jesus Cristo no mundo, não pode mostrar outra coisa senão o Cristo total, a Igreja que guarda a Eucaristia. E é a Eucaristia que empurra a Igreja para a evangelização.

O papa João Paulo II, que rezou aqui nesta Catedral de Notre Dame de Paris, explicou-o muito bem na sua encíclica «Ecclesia de Eucharistia» : «Unindo-se a Cristo, o povo da nova aliança não se fecha em si mesmo; pelo contrário, torna-se “sacramento” para a humanidade, sinal e instrumento da salvação realizada por Cristo, luz do mundo e sal da terra (cf. Mt 5, 13-16) para a redenção de todos. A missão da Igreja está em continuidade com a de Cristo: “Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21). Por isso, a Igreja tira a força espiritual de que necessita para levar a cabo a sua missão da perpetuação do sacrifício da cruz na Eucaristia e da comunhão do corpo e sangue de Cristo. Deste modo, a Eucaristia apresenta-se como fonte e simultaneamente vértice de toda a evangelização, porque o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, n'Ele, com o Pai e com o Espírito Santo.» [10]

A comunidade é o terceiro sacramento da evangelização. O Corpo de Cristo, presente visivelmente no mundo pela Igreja que leva a Eucaristia, é o terceiro sacramento da evangelização. O terceiro sacramento da evangelização é a Eucaristia.

4- O jugo de Cristo

 

Mas de que é que o mundo não gosta na Igreja? O ódio do mundo pela Igreja é o principal obstáculos à evangelização. Mas de onde vem esse obstáculo? Porque é que o mundo não gosta da Igreja?

A primeira razão porque o mundo condena a Igreja são os pecados da Igreja. Sobre isso estamos totalmente de acordo com o mundo. A vida da Igreja, quer dizer a evangelização, é um esforço constante para evitar esses pecados, minorar esses pecados, chorar esses pecados, pedir perdão por esses pecados. A santa Igreja Católica é quem mais sofre por causa dos seus próprios pecados. O Catecismo explicou muito bem a origem desse paradoxo:

«“Enquanto que Cristo, santo e inocente, sem mancha, não conheceu o pecado, mas veio somente expiar os pecados do povo, a Igreja, que no seu próprio seio encerra pecadores, é simultaneamente santa e chamada a purificar-se, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e renovação[11]. Todos os membros da Igreja, inclusive os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores (cf. 1 Jo 1, 8-10). Em todos eles, o joio do pecado encontra-se ainda misturado com a boa semente do Evangelho até ao fim dos tempos (cf. Mt 13, 24-30). A Igreja reúne, pois, em si, pecadores abrangidos pela salvação de Cristo, mas ainda a caminho da santificação:

«A Igreja “é santa, não obstante compreender no seu seio pecadores, porque ela não possui em si outra vida senão a da graça: é vivendo da sua vida que os seus membros se santificam; e é subtraindo-se à sua vida que eles caem em pecado e nas desordens que impedem a irradiação da sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por estas faltas, tendo o poder de curar delas os seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo[12].”»[13]

A segunda razão pela qual o mundo condena a Igreja é que ele não gosta da hierarquia. O mundo tem muitas hierarquias. Hierarquias nacionais, supranacionais, regionais, comunitárias, mundiais. Mas o mundo não gosta da hierarquia da Igreja. Não gosta que se tenha um Papa, mesmo quando gosta do Papa. O mundo não gosta que se tenha cardeais e bispos, cónegos e padres. O mundo não gosta do Vaticano e, sobretudo, não gosta da Cúria Romana.

Isto na evangelização não é um detalhe. Tivemos duzentos anos de guerras na Europa para saber se se deve obedecer ou não ao Papa, se se deve ter ou não uma hierarquia. Pode mesmo dizer-se que, em todos os esforços para o ecumenismo e para a unidade dos cristãos, este é o problema central, estando as questões de doutrina resolvidas há muito tempo. E sobre isto devemos dizer que estamos parcialmente de acordo com o mundo. Mesmo na Igreja ouvem-se muitas vezes queixas sobre o clericalismo. Quase sempre de clérigos.

A raiz de tudo isto é simples : se há coisas que o mundo odeia mais que todas as outras, é a obediência, a humildade, a mansidão. O mundo não vê relação possível entre a felicidade e a obediência. O mundo não consegue encontrar conexão compreensível entre a alegria e a humildade, entre a paz e a mansidão.

«Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e a minha carga é leve» (Mt 11, 29-30). Eis uma frase que, se existir uma que o faça, simboliza o centro da evangelização. Tomar o jugo de Cristo sobre nós! É isso evangelizar. Mas como o podemos fazer, se o mundo não gosta da obediência, mesmo sob um jugo suave e uma carga leve? Se o mundo ignora a humildade e repudia a mansidão? É por causa disto, mais do que qualquer outra coisa, que o mundo não gosta da evangelização.

Há uma terceira razão para condenar a Igreja: a injustiça. O mundo utiliza, para julgar a Igreja, critérios que não usa para mais ninguém. Se alguém condenasse um povo por coisas que ele fez há trezentos ou seiscentos anos, seria chauvinista, xenófobo, racista. Mas é muito corrente atacar a acção presente da Igreja invocando a Inquisição e as Cruzadas. A esses pretextos anacrónicos, que para mais ignoram a verdadeira realidade desses séculos passados e usam generalizações deformadas, juntam-se muitos outros. O mundo pensa ter terríveis acusações contra a Igreja, pelas quais pretende tantas vezes justificar as agressões contra a obra social, educativa, cultural e caritativa única da Igreja no nosso tempo, como em todos os séculos. Esta injustiça chegou mesmo a justificar que «no final do segundo milénio, a Igreja tornou-se novamente Igreja de mártires[14], como notou o Papa em 1994. 

É por isso que o Corpo de Cristo é, no nosso tempo mais uma vez, condenado ao tribunal. O Corpo de Cristo encontra-se, mais uma vez, flagelado e coroado de espinhos. A mesma coroa de espinhos que S. Luís recebeu e que é venerada nesta Catedral de Notre Dame de Paris encontra-se, uma vez mais, hoje sobre o Corpo de Cristo. Carregam-no, ainda uma vez, com a Cruz e Ele tem de, mais uma vez, percorrer a Via Sacra. É assim que se repetem e que se completam as tribulações de Cristo (cf. Cl 1, 24).

Mas isto não uma ocasião de lamento, de rancor, de sofrimento. É uma causa de alegria, de paz, de felicidade. «Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja.» (Cl 1, 24).

Esta alegria é uma parte essencial da evangelização, porque não se pode fazer a evangelização senão na Cruz. Não se pode encontrar a verdadeira alegria e a verdadeira paz senão na Cruz. «Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam» (Mt 5, 11-12). «Quanto a mim, porém, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.» (Gl 6, 14)

A Cruz é o quarto sacramento da evangelização. A Cruz, que é o cume sublime da obediência, da humildade e da mansidão, é o quarto sacramento da evangelização. Neste mundo que não ama a Igreja, que não suporta a obediência, a Cruz é o sinal mais visível da evangelização. A Cruz é o quarto sacramento da evangelização. A glória da Cruz palpável no esplendor da Ordem. A glória da Cruz visível no brilho do Matrimónio.

5- A vida da evangelização

 

Como fazer a evangelização ? Que devemos dizer a este mundo que não gosta da evangelização? Quais são os meios que devemos utilizar?

«Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo!» É isto que devemos dizer ao mundo. «Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo!» Não há outro assunto de evangelização, não há outra coisa a dizer. «Por favor, deixem-nos falar-vos de Jesus Cristo. Não temos mais nada a dizer-vos. De que vos podemos falar, senão d’Ele?»

O resto, é uma questão de terrenos. As únicas parábolas que foram explicadas nos Evangelhos ocupam-se precisamente dos terrenos da evangelização. «Um semeador saiu para semear...» mas só «aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta.» (Mt 13, 4 e 23). «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que a semeou é o diabo; a ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os anjos.» (Mt 13, 37-39). Eis a escatologia da evangelização. Mas eis também a metodologia da evangelização.

O mundo é o terreno, o único terreno de evangelização. As nossas ruas, os nossos sindicatos e cinemas, eis os terrenos de evangelização. São os problemas do quotidiano que ocupam a evangelização. Os dramas do mundo contemporâneo são os terrenos da evangelização.

A vida é o primeiro sacramento da evangelização. E hoje, é a defesa da vida humana, desde a sua concepção até à morte natural, que constitui um dos temas capitais da evangelização. O Papa João Paulo II apresentou-o de uma forma cristalina na sua encíclica «Evangelium Vitae».

«As raízes da contradição que se verifica entre a solene afirmação dos direitos do homem e a sua trágica negação na prática, residem numa concepção da liberdade que exalta o indivíduo de modo absoluto e não o predispõe para a solidariedade, o pleno acolhimento e serviço do outro. Se é certo que, por vezes, a supressão da vida nascente ou terminal aparece também matizada com um sentido equivocado de altruísmo e de compaixão humana, não se pode negar que tal cultura de morte, no seu todo, manifesta uma concepção da liberdade totalmente individualista que acaba por ser a liberdade dos “mais fortes” contra os débeis, destinados a sucumbir[15]

Devemos dizer, com o Papa, que a evangelização tem hoje o dever solene de confrontar a nossa «cultura de morte».
A alegria é o segundo sacramento da evangelização. No mundo de hoje a defesa da alegria está directamente ligada à defesa da paz e à defesa da família. A família vivendo na paz é a condição necessária à alegria da humanidade. O Papa confiou essas graves intenções ao Rosário da Virgem Maria: «À eficácia desta oração, confio de bom grado hoje – como acenei ao princípio – a causa da paz no mundo e a causa da família (...) Oração pela paz, o Rosário foi desde sempre também oração da família e pela família.»[16] A guerra e os ataques à família, que estão estreitamente ligados, representam os mais graves atentados actuais contra a alegria. A evangelização deve confrontá-los.

A comunidade é o terceiro sacramento da evangelização. A Igreja, comunidade dos santos, encontra-se ameaçada na nossa sociedade, tal como as outras religiões, pelo laicismo, que se erige em crença totalitária do mundo contemporâneo. O laicismo, aparentemente, diz defender os direitos do homem, Mas, como explicou o Papa, «fonte e síntese destes direitos é, em certo sentido, a liberdade religiosa, entendida como direito a viver na verdade da própria fé e em conformidade com a dignidade transcendente da pessoa»[17]. Esta dignidade encontra-se também posta em causa pelos abusos contra a liberdade de educação e da economia, elas também alvos habituais do centralismo do Estado- A Igreja vê-se, tantas vezes, quase só a confrontar o poder da sociedade democrática na defesa dos direitos fundamentais. Essas liberdades são consequentemente um terreno essencial para a evangelização.

A Cruz é o quarto sacramento da evangelização. Nesta Europa que é o continente da confusão cultural, nesta Europa que é a única região que renegou as suas raízes de civilização, a evangelização deve ocupar-se da própria identidade intelectual. A presença da Cruz de Cristo na Europa não é apenas uma questão de fé., é também uma questão de personalidade. A Constituição da Europa e o sucessor Tratado de Lisboa mostram-no claramente. Mostram-no como o sepulcro vazio, pela ausência.

Mas, como disse o Santo Padre João Paulo II na Exortação Apostólica «Ecclesia in Europa» : «Olhando para a Europa como comunidade civil, não faltam sinais indicadores de esperança: neles, mesmo entre as contradições da história, podemos com um olhar de fé individuar a presença do Espírito de Deus que renova a face da terra.»[18]

São estes os terrenos da evangelização. Os terrenos que encontramos nos mercados e nos autocarros, mas também nas paróquias e nos conventos, nos seminários e nos capítulos, nos episcopados e nos sínodos.

São estes os terrenos. Mas quais são os métodos? Como podemos fazer a evangelização nas nossas ruas e nos nossos mercados? Nos cinemas e na televisão? Nas cotações da Bolsa e nas decisões dos ministros?

Se o perguntarmos isto a S. Tomás de Aquino, teremos uma surpresa. Porque na «Suma Teológica», S. Tomás nunca fala de «missão» ou «missionário» no sentido que hoje damos a estas palavras. Ele fala muito de missão, mas não dessa missão de que nós falamos. A missão de que ele fala é a missão das pessoas divinas.

S. Tomás fala de uma tripla missão das pessoas divinas: Primeiro, a missão de Cristo, enviado a este mundo para o salvar. Em seguida da missão do Espírito Santo, que veio à «sala de cima» (cf. Act 1, 13), onde recebemos o espírito missionário nas «línguas à maneira de fogo» (Act 2, 3). Finalmente a missão que é a presença de Deus em nós pela graça santificante.

Ele explica: «Dizemos que uma Pessoa divina é “enviada” na medida em que ela existe em alguém de uma forma nova; e ela é “dada”, na medida em que é possuída por alguém. Ora nem uma coisa nem outra têm lugar senão por causa da graça santificante. Há, com efeito, uma maneira comum de Deus existir em todas as coisas pela sua essência, a sua potência e a sua presença. Ele está assim nelas como a causa nos efeitos que participam da sua bondade. Mas, para lá deste modo comum, existe um modo especial, que é próprio da criatura racional: dizemos que Deus existe nesta como o conhecido no conhecedor e o amado no amante. E porque, ao conhecê-lo e amá-lo, a criatura racional atinge pela sua operação o próprio Deus, dizemos que, por esse modo especial, não apenas Deus está na criatura racional, mas mais, que habita nela como no seu templo. Assim, portanto, fora da graça santificante não existe outro efeito que possa ser a razão de um novo modo de presença da Pessoa divina na criatura racional. E é apenas pela graça santificante que ela tem a missão e a processão temporal da Pessoa divina»[19]. «Pela graça santificante é toda a Trindade que habita a alma, como está escrito em S. João (14,23) “Nós viremos a  ele e faremos nele a nossa morada”»[20].

A evangelização é sempre e só a missão de Deus. Ele quer ter necessidade de nós, mas é Ele que nos faz o anúncio. É Ele que está presente no mundo, em todas as coisas pela sua essência, o seu potência e a sua presença, como a causa nos seus efeitos, que participam da sua bondade. Mas pela evangelização, Ele habita em nós como no seu templo.

Deus é o assunto, é o sujeito, o único sujeito da evangelização. É Deus que está presente na vida do mundo. A única descrição de todas as ocasiões de evangelização é muito simples “Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém” (Lc 13, 22). Em todos os casos é isto que se passa: Jesus percorre as nossas ruas e fábricas, os nossos mercados e os nossos satélites, ensinando e caminhando para Jerusalém.

Deus é o sujeito, o único sujeito da evangelização. Mas o mundo só nos vê a nós. Eis o drama da evangelização. O mundo não sabe que nós somos o Corpo de Cristo. Mas sobretudo, o mundo não sabe que é sempre a Cabeça de Cristo que faz mover o seu Corpo. A evangelização é sempre Cristo que fala ao mundo por nosso intermédio.

Isto não é uma coisa que possamos fazer. É uma coisa que só podemos pedir. A evangelização é sempre uma coisa que pedimos. Devemos pedi-la. Devemos pedi-la a Nossa Senhora.

Maria é o começo, a fonte, a origem da evangelização. Ela é a aurora da Redenção. Ela é também o sacramento inicial, primitivo, original da evangelização. Nossa Senhora é, ela mesma, o quinto e último sacramento da evangelização.

É por isso que toda a evangelização deve começar e acabar pela oração. Rezar a Notre Dame de Paris. Rezar a Nossa Senhora de Fátima. Rezar a Nossa Senhora de todo o lado. «Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amen»




[1] O original francês deste texto, “Les Sacrements de l’Évangélisation”, foi apresentado na Catedral de Notre Dame em Paris, a 28 de Outubro de 2004, durante a sessão francesa do Congresso Internacional para a Nova Evangelização- Paris 2004, e publicado no livro Lustiger, et al (2004) Vous serez mes témoins – Paris Toussaint 2004, Paris.
[2] Péguy, Charles (1913) “Les Tapisseries d’Eve” in Oeuvres poétiques complètes, Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, Paris, 1957, p. 1080, 1085-1086
[3] Dial. 4, 138.
[4] Margarita Roper, Epistula ad Aliciam Alington (mense augusti 1534).
[5] Catecismo da Igreja Católica nº303, 313.
[6] S. Agostinho Confissões, liv. X cap. xx, xxii)
[7] O lema do Congresso Paris Toussaint 2004 era : «Qui nous fera voir le bonheur?»
[8] São Tomás de Aquino Suma Teológica, II-II, 28.
[9] : «Il m’est avis que c’est tout un de Notre-Seigneur et de l’Église et qu’on ne doit point faire de difficulté que ce ne soit tout un.» in Georges et Andrée Duby (2000) Les procès de Jeanne d’Arc, Gallimard, p. 115.
[10] João Paulo II (2003) Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 22.
[11] Vaticano II, Constituição dogmática. Lumen Gentium, 8.
[12] Paulo VI, Sollemnis Professio fidei, 19.
[13] Catecismo da  Igreja Católica nº 827.
[14] João Paulo II (1994) Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente, nº 37.
[15] João Paulo II (1995) Encíclica Evangelium Vitae, nº 19.
[16] João Paulo II (2002) Carta Apostólica Virginis Mariae, nº 39 e 41.
[17] João Paulo II (2002) Encíclica Centesimus Annus, nº 47.
[18] João Paulo II (2003) Exortação Apostólica Ecclesia in Europa, nº 12
[19] São Tomás de Aquino Suma Teológica I 43, 3.
[20] São Tomás de Aquino Suma Teológica I 43, 5