Mostrar mensagens com a etiqueta Tolerância. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tolerância. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Eutanásia: A democracia assenta em chão firme, não depende de uma mera opinião - por José Maria André



In Público
 
Cada vez que este jornal publica, com uma certa regularidade, os artigos de Laura Ferreira dos Santos a favor da eutanásia, fico perplexo. Muito havia a dizer, mas vou debater apenas o argumento da liberdade e da tolerância em abono da eutanásia (por exemplo, no artigo de 6 de Agosto de 2011).

Quando se diz que uma sociedade tolerante deve proporcionar o homicídio assistido a quem o pedir, invertem-se os dados da questão, porque isso não é um pedido de tolerância mas de colaboração: os defensores da eutanásia pretendem obrigar-nos a satisfazer o desejo de quem quer ser morto. Seria mais razoável que, em nome da tolerância, nos deixassem em paz.

Nos artigos referidos há uma objecção interessante, que aceito, à parte um pequeno sofisma: defender a inviolabilidade da vida humana equivale a impor uma determinada perspectiva sobre a verdade, excluindo outras. De facto, quando a sociedade toma posição em defesa da dignidade humana assume como verdade que o ser humano tem um valor intrínseco, não sujeito a transacção. No entanto, isso não é uma «determinada perspectiva sobre a verdade», é a própria verdade. Aliás, é um elemento de verdade absolutamente fundamental, sobre o qual assenta uma sociedade que se queira justa, livre e tolerante.

Uma sociedade tolerante não é aquela que aceita tudo. Não pode aceitar a guerra da Líbia, a instabilidade do Iraque, ou a violência da China... não aceita o inaceitável. Não derruba os pilares-base da vida social, nomeadamente o princípio de que a vida humana é inviolável. Esta verdade não é negociável, numa sociedade digna. Não é uma perspectiva acerca da verdade, que estejamos dispostos a trocar por qualquer outra.

Colaborar num homicídio, a pedido da vítima ou com qualquer outro pretexto, é contradizer a verdade fundacional de uma sociedade democrática e solidária. Por isso, introduzir a eutanásia é uma subversão tão grave da ordem social, em linha com aquelas contradições do slogan do Ministério da Verdade do inferno orwelliano: «Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força».

Qualquer ordenamento jurídico, por mais bárbaro que seja, reconhece o valor de algumas vidas humanas, por razões de família, de dinheiro, ou de poder. A inovação característica da democracia é proclamar de que todas as pessoas, sem excepção, merecem esse respeito e de modo absoluto. A democracia não se fundamenta na afirmação de que todos têm êxito nos negócios, ou de que todos são saudáveis, ou têm notoriedade social. Nem sequer importa o que «têm», mas o que «são». A verdade fundacional da democracia é que o ser humano, pelo simples facto de o ser, possui uma respeitabilidade intocável.

O ponto de partida da democracia é que esta verdade ética não é uma opinião entre outras, mas uma verdade absoluta. No dia em que uma vida humana seja dispensável, quebrou-se o princípio e a vida humana passou a ser um valor relativo. Se uma sociedade aceitar que algumas pessoas sejam mortas (com um critério ou outro, o critério pouco importa), ninguém está a salvo, porque nenhum critério resvaladiço subsiste depois de se derrubar o princípio de que a vida humana é inviolável. Quem revogar este princípio intransponível não espere encontrar noutro lugar a justificação ética para uma democracia solidária.

Embora neste assunto da eutanásia esteja em desacordo com a minha colega da Universidade do Minho, isso não quer dizer que não tenha muita consideração por ela e não estejamos de acordo noutros temas.


José Maria C. S. André

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A hostil tolerância - João César das Neves

In DN 

Portugal tem um grave problema educativo. Tem-no há décadas. Todos o diagnosticam, todos sabem a solução e ninguém resolve. Um livro recente ajuda a perceber as razões do paradoxo.

Os pais queixam-se e os professores são crescentemente severos na denúncia dos erros educativos. Aos alunos ninguém pergunta, mas também acham que a coisa vai mal. Com a eventual excepção do ministro do momento, todos dizem que a educação está péssima. E até ele estará de acordo, logo que saia, como todos os antecessores e possíveis sucessores.

Uma simples inspecção da estrutura explica a causa: o sistema educativo português segue o modelo estalinista. Aliás é, com Cuba e Coreia do Norte, uma das poucas realidades sociais ainda nesse curioso sistema de duvidosa memória. O Ministério da Educação, descuidando as funções normais desse departamento num estado democrático, assume-se como "gosplan", controlando centralmente estrutura, evolução, gestão e operação dos actos escolares. Assim explodem custos, multiplicam-se desperdícios e pululam professores desocupados. Pior, consciente do problema educativo, o Ministério reage com sucessivas reformas e revisões, introduzindo uma nota original de "revolução permanente" trotskista.

É verdade que, apesar de hegemónico, o mecanismo não é totalitário. Um conjunto de acossadas escolas particulares permanece teimosamente ao lado da esmagadora mole pública. Mas a sua existência é sempre precária, ameaçada, incerta. Em particular nestes anos o ensino privado sofre mais um ataque devastador, que muitos consideram fatal. O mais curioso é que isto não varia com a linha política, pois permanece com qualquer orientação do executivo.

O governo Sócrates foi especialmente agressivo contra a liberdade de ensino, por razões ideológicas, enquanto o governo Passos usa alegadas razões financeiras. O que constitui uma rematada mentira, porque fica muito mais caro ao Orçamento de Estado ter um aluno no sector público que no privado com apoio. Os cortes nos contratos de associação são suicidas para o Orçamento.

Num tempo que apregoa a liberdade como valor supremo, de que a liberdade educativa é parte central, num tempo de concorrência, abertura e globalização, num tempo de privatizações, até forçadas e apressadas, como se explica a tendência estatizante na educação nacional, que repetidamente provou a sua ineficácia? A razão é muito mais profunda que a flutuação governativa e até geracional.

A verdadeira origem vem do traço paternalista da cultura portuguesa, que sempre gosta de sentir a mão protectora do Estado. Até para poder dizer mal dela. Em Portugal nunca houve, nem pode haver, pensamento liberal. Há críticos e defensores do Governo, mas da extrema-esquerda à extrema-direita toda a gente só fala do Estado. Esta atitude de fundo manifesta-se depois nas opções particulares. Os pais querem saber que o Estado paga, mesmo quando o único dinheiro vem dos nossos impostos e é mal gosto. Os professores querem ser funcionários públicos, mesmo que detestem o patrão-Estado. O Ministério quer aumentar ao máximo as suas competências, mesmo sabendo que ficará com culpas de que é inocente.

Isto está patente no livro do professor Jorge Cotovio O Ensino Privado nas Décadas de 50, 60 e 70 do Século XX. O Contributo das Escolas Católicas (Gráfica de Coimbra 2, 2012). A obra monumental, além de exaustiva investigação das fontes documentais, estatísticas e legislativas, inclui 30 preciosas entrevistas a protagonistas, alguns já falecidos. Lendo esta fascinante história compreende-se a questão educativa portuguesa, não apenas nessa época e tipo de escola, mas em geral.

"Os trinta anos do período em análise são atravessados por dois regimes com diversos 'Estados' e variadas políticas governamentais. Apesar deste mosaico, e no tocante ao ensino privado e temário conexo, a atitude do Poder manifesta um denominador comum que se pode traduzir pela palavra 'tolerância'" (p. 379). Assim não admira que Portugal tenha há décadas um grave problema educativo.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Razão do Bom Combate - P. Gonçalo Portocarrero de Almada

No dia 29 de Agosto passado publiquei um artigo que questionava o actual regime legal de alteração de sexo. A 4 de Setembro seguinte, o mesmo jornal publicou uma contundente resposta àquela pacífica crónica. Por essa altura, o director de um semanário, que escrevera um inofensivo texto de opinião sobre os «casamentos» entre pessoas do mesmo sexo, sofreu, por esse motivo, uma impiedosa campanha de ataques pessoais. Estes casos obrigam a questionar: está em causa a liberdade de pensamento e de expressão em Portugal?

A «igualdade de género» e os casamentos ditos homossexuais são teses aguerridamente defendidas por poderosas organizações nacionais, com a cobertura de instituições internacionais. Estes lóbis têm uma grande influência política e, em geral, gozam de um complacente acolhimento por parte dos meios de comunicação social.

Os defensores destas teses, tidas por avançadas e mesmo progressistas, advogam, na prática, uma unicidade cultural. É razoável que se lhes reconheça a liberdade de divulgação das suas opiniões, mas não a sua pretensão de silenciar as vozes discordantes. Este seu propósito não consta formalmente, é certo, mas resulta da sua estratégia de depreciação pessoal e de intimidação sobre quem se atreva a questionar o seu ideário político e social.

Um dos princípios da democracia é, precisamente, a liberdade de pensamento e de expressão. Mas esta liberdade não subsiste senão no respeito por todos os cidadãos, quaisquer que sejam as suas opiniões, desde que as mesmas não tipifiquem um delito de injúrias que, obviamente, de verificar-se, deve ser punido.

Mas o incondicional respeito pelas pessoas, pela sua dignidade e pelos seus direitos fundamentais, não tem por que traduzir-se pela adesão às suas opções. É recorrente pressupor, por exemplo, que os que defendem o matrimónio natural são contra as pessoas com tendências homossexuais, convertendo-se assim, abusivamente, uma legítima divergência conceptual numa inadmissível ofensa pessoal. Deste jeito logra-se, através da falaciosa vitimização das pessoas, a injusta condenação da tese que se pretende contraditar.

Com a mesma lógica, ou falta dela, os regimes totalitários entendem que são anti-patriotas todos os dissidentes quando, na realidade, estes apenas defendem um outro modo de servir a pátria, que seguramente não amam menos nem servem pior do que os seus opositores.

Todas as pessoas, sejam quais forem e como forem, merecem respeito, mas as suas circunstâncias – sejam elas opções de vida, ideias, teorias, gostos, doenças ou taras – nem sempre são igualmente respeitáveis. É legítima a liga contra o cancro, mas não o seria uma liga contra os doentes de cancro, por exemplo.

Mas a questão fundamental não é, contudo, a da identidade de género ou a da natureza do matrimónio. O que realmente está em causa é mais do que isso: é o modelo de sociedade que se pretende para o nosso país, para a Europa e para o mundo.

Contra a intolerância e o totalitarismo dos que pretendem impor critérios contrários à ordem natural, há que recordar as exigências da natureza humana, fundamento dos direitos fundamentais. Contra a ideologia contrária aos princípios da doutrina social da Igreja, há que defender o direito de opinião e de intervenção cívica dos fiéis, que não são menos cidadãos do que os não-cristãos. Não se trata de impor à sociedade os dogmas da fé católica, mas fazer respeitar o direito de cidadania da mundividência cristã, sem excluir as outras religiões e filosofias sociais.

Defender a liberdade de pensamento e de expressão é, entre outras, missão da Igreja a que me orgulho de pertencer e que modestamente sirvo. Esta é, como cristão e como cidadão, a razão da minha luta. Não tenho a veleidade de vencer, nem de convencer, mas não me demito do meu dever de travar o bom combate da fé.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A enorme crueldade dos intolerantes

Existe nos dias de hoje um gravíssimo tipo de intolerância que não só não é reconhecido como passa pelo seu antónimo ou contrário. Esta intolerância apresenta-se com as vestes e a aparência da condescendência, da indulgência. Em nome dela há uma multidão que tolerando o erro e a mentira é totalmente intolerante para com a verdade. A afirmação clara desta surge como uma ameaça, como um fundamentalismo perigoso e injustamente beligerante. A clareza na afirmação e na prática da verdade, condição essencial do amor, parece a muitos uma violência imperdoável e fanática. Por isso, em nome da misericórdia, calam-na, censuram-na, diminuem-na, apoucam-na, distorcem-na, desvirtuam-na e pervertem-na. Mutilando-a e despedaçando-a de um modo fanaticamente intolerante dão rédeas soltas à falsidade e ao erro. Não tendo estes quem os desmascare e denuncie, logo seduzem as mentes e se apoderam dos costumes. Guiadas, as pessoas, pelo “mentiroso e pai da mentira”[1] tornam-se, para usar as palavras de Jesus, filhos do diabo, que querem realizar os desejos do seu pai[2].

A mim parece-me uma enorme crueldade entregar ou não intentar redimir qualquer pessoa humana (também as há Divinas e angélicas) da escravidão do pecado[3], do Maligno. Ora a forma desse resgate foi ensinada pelo Salvador com uma precisão rigorosa e com uma clareza meridiana: “… conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”[4]. Pelo que todo aquele que tolera o erro e a mentira sendo, por isso, intolerante para com a verdade não tem misericórdia alguma para com as pessoas necessitadas de arrependimento, conversão e salvação. Pelo contrário, quem é intolerante com o erro e a mentira é dotado não só de uma grande tolerância para com as pessoas concretas, mas também de uma verdadeira Misericórdia e Piedade que lhe são concedidas pela mesma Verdade, à qual se aferra e da qual não abdica, por Graça de Deus.


Nuno Serras Pereira

07. 12. 2009




[1] Evangelho segundo S. João 8, 44

[2] Idem

[3] Idem, 8, 34

[4] Idem, 8, 32