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terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Cegueira dos Visionários - Nuno Serras Pereira

Andava o mundo sugestionado, e com ele altos dignitários da Igreja, com o magnetismo do diabo e os engodos dos controladores demográficos, seus sequazes, quando um homem débil se ergueu majestoso, e fazendo do seu cajado uma funda, nela colocou um escrito que arremessou com determinação ao colosso. Este, que já rejubilava seguro de uma vitória retumbante, subitamente paralisou; os olhos ficaram turvos e esgazeados; a boca que gargalhava, retorcida; as pernas, convulsas; o rosto antes vermelho, agora pálido com um rubor líquido na testa. Aquela fortaleza firme e maciça num repente esbarrondou-se com enorme fragor. O Profeta, lançando a sua encíclica Humanae Vitae[1] derrotou a besta monstruosa, mas esqueceu-se de usar a espada, a Palavra de Deus, para o descabeçar, de modo que enquanto a fera descomunal não morreu vieram os cientistas tecnocratas que apressuradamente o mutilaram roubando-lhe o saco das suas sementes. Daí que, uma vez lançadas, em laboratório, no seio da grande meretriz eclesial, tenha proliferado desmarcadamente a sua descendência. Quando dignitários da Igreja se prostituem com Satanás e os seus discípulos engendra-se uma prole de víboras letais com aparências de Arcanjos benignos solícitos da nossa felicidade. Daí, em grande parte, a situação tremenda em que nos encontramos.

 
Em Portugal, não se trata de uma acusação mas de uma verificação, o Episcopado (não existia então, providencialmente, a Conferência Episcopal nos termos em que ela tem funcionado) elaborou um documento notável de total assentimento ao ensino do sucessor de S. Pedro e Vigário de Cristo. Porém, em pouco tempo, o “departamento” para a doutrina da Fé do Patriarcado de Lisboa fez publicar uma Nota extremamente ambígua que “justificava” a contracepção, fazendo da consciência e não da Verdade, transmitida pelo Magistério, o critério último. Daqui a cada católico entender que neste aspecto poderia e deveria guiar-se pela sua opinião não foi mais do que um brevíssimo passo. Rapidamente, todavia, o dissentimento se alargou a praticamente tudo quanto o Magistério declarasse, uma vez que cada um soberanamente decidia o que era a verdade.

Não se pode escamotear o facto, a todos os títulos louvável, da criação de um movimento dedicado à difusão dos então chamados métodos naturais de planeamento familiar. No entanto, infelizmente, um Bispo auxiliar de Lisboa, naturalmente com a concordância do Senhor Patriarca daquele tempo, com a colaboração activa de alguns Padres e leigos ignorando orgulhosamente os avisos explícitos em contrário de gente muito bem informada introduziram em Portugal a APF/IPPF. Esta organização destruidora da inocência das crianças, dos casamentos e das famílias, bem como serial killer de pessoas nascituras, num instante tomou o poder e, numa escalada vertiginosa, foi escravizando, deputados, governos e presidentes da república que submissamente foram introduzindo e financiando criminosamente, com o dinheiro dos nossos impostos, a contracepção, inclusive a abortiva, a procriação artificial que em média sacrifica 9 pessoas nascituras por cada nascimento.

Neste entretanto, muitos prelados e demais clerezia colaboracionistas, tantas vezes em nome da tolerância e da compaixão, ou mais diplomatas que Pastores, ou cães mudos, assistiram, ou cumpliciaram-se avidamente, impávidos e serenos, ao implantar-se de uma sociedade deformada, produzida por estes desvios sobre-horrendos, que pariu divórcios em série (separação da unidade irrevogável entre marido e marida - sic, não é gralha); mães solteiras (destacamento dos filhos dos pais); fragmentação da família (despedaçamento dos alicerces sociais); aborto (excisão da mãe e dos filhos); pobreza, (consequência do estilhaçamento familiar); introdução coacta, por ideologia ou necessidade, das mulheres no mundo do trabalho a tempo inteiro (desvalorização brutal da maternidade); desamparo dos idosos (cisão entre gerações) despejados em lares; enjeitamento das crianças descarregadas, por tempos infindáveis em infantários e ATL’ s (disjunção da saúde e dos pais); contracepção, qua anticoncepção, induzida em nome da saúde (escaqueirar-se da união e esterilização do amor); procriação artificial (apartamento dos filhos da entrega total, corpo e alma, de marido e mulher e fabricação ou produção, gravissimamnte injusta dos mesmos por técnicos); homossexualidade crescente e invasiva (dissolução da reciprocidade e negação da alteridade entre homem e mulher, invertendo a humanidade da pessoa); ideologia do género (pulverizando a identidade pessoal) etc., etc.

Mas afinal a que vem o título deste texto? Quem são os tais visionários cegos? 

É bem de ver que não poderia entrar de supetão indicando-os. Mesmo agora, apesar deste longo exórdio (tendo em conta outros textos para que remeto seleccionados, aliás, com a máxima restrição, pois a quantidade da informação é inumerável) sei que serei ferozmente condenado no tribunal da mentalidade dominante. O que devo confessar muito me alegra se isso me ajudar (como espero, assim Deus o queira e o permita) a conformar-me algum pouco com Jesus Cristo.

Enquanto a mim, não sendo os únicos mas sim os que mais me preocupam, são os Prelados que antevendo, visionariamente, algumas consequências não quiseram ver as causas e o essencial mas preocuparam-se tão só de ir respondendo ao que ia surgindo, antecipando problemas maiores – por isso cegos mais que cegos porque vendo não viam, pois não queriam ver. É inegável que com uma abundantíssima generosidade têm acorrido aos velhinhos, quer fundando lares, quer pelo apoio domiciliário prestando cuidados de higiene, de saúde e alimentares. É, de facto, impressionante a mole copiosa de católicos quer nas Paróquias quer em instituições como as Misericórdias e as IPSS’ s que se entregam com um amor exuberante ao próximo. E o mesmo se poderá dizer dos berçários, infantários e ATL’ s.

Perguntar-me-ão, porventura, que mais se pode fazer. E eu respondo que se pode e deve obrar muito mais, e que não se devia ter traído a Sagrada Escritura, nem a Tradição da Igreja, nem o Magistério, nem a família, nem a pessoa humana. Porque se assim tivesse sido não teríamos a desgraça que caiu sobre nós, como se a ira de Deus, aquela cólera entranhada do Amor Supremo, que detesta o mal e o pecado, se tivesse abatido sobre nós. De facto, uma vez que Lhe virámos obstinadamente as costas, endurecendo os nossos corações, trancando-Lhe sistematicamente a porta sempre que Ele batia, deixou-nos entregues a nós próprios, e nós alarvemente tentámos erguer uma nova Babel que acabou por se desmoronar, desabando sobre nós, assolando a nação, devastando Portugal, depopulando o povo. 

Os sociólogos e demógrafos são quase unanimes em considerar que um povo, um país, que se mantêm algum tempo com a taxa de natalidade em 1. 2, praticamente perde a capacidade de subsistir. Nós estamos em 1. 3, e prevê-se um decréscimo de nascimentos da ordem dos 20%, que acelarará a queda no abismo.

Tivesse a Igreja em Portugal sido fiel, pregando, catequisando, sacramentando, formando, admoestando, exortando, anunciando e denunciando, conforme à vontade do Seu Senhor, sem que uma enorme parte dos seus eclesiásticos se vendesse, ou se deixasse hipnotizar pelo poder, pela riqueza e pela vaidade da fama, e teríamos famílias inteiras, avós, pais e netos presentes uns aos outros em acolhimento, harmonia e comunhão. A natalidade seria elevada garantindo a criatividade e a inovação, a defesa, o bem comum, a saúde, o crescimento económico, a segurança social, etc. 

Acorrer agora à desgraça de que fomos cúmplices é melhor do que nada. Mas é necessário reconhecer o nosso pecado monstruoso e dele nos penitenciarmos, abrindo-nos à conversão, implorando a Misericórdia de Deus enquanto vivermos, uma vez que com a morte certa e imprevista fica selado o nosso destino eterno: Céu ou Inferno para sempre. Sempre. Sempre. Sempre.

Dêmos Graças a Deus porque tem providenciado uma nova geração de Sacerdotes e de Fiéis Leigos acolhedores do Seu Espírito e seus cooperadores, que destemidamente, com uma Caridade verdadeira, uma Misericórdia genuína, e uma Compaixão autêntica, armados de um amor intenso à Imaculada Virgem Maria Mãe de Deus humanado, à Eucaristia, ao Santo Padre e da Teologia do Corpo do Beato João Paulo II, se entregam servindo sinceramente a maior Glória de Deus e o maior Bem de cada pessoa humana, em todas as fases da sua existência, desde a concepção até à morte natural. 

Tão longe foi a calamidade que com um grau enorme de probabilidade estaremos destinados aos calabouços e mesmo ao martírio, se não na minha geração na que nos sucederá. A menos, claro, que Jesus Cristo pelo Seu Espírito, que vem a nós através da Virgem Maria, Senhora de Fátima, opere um portentoso Milagre para nos Salvar.

Suponho, talvez erradamente, que os leitores habituais das minhas elucubrações, já enfastiados, se não mesmo adormecidos em cima do teclado do computador, se perguntarão - ou porventura sonharão pesadelos interrogativos -: mas este casmurro testaçudo não poderia e deveria escrevinhar sobre outros assuntos deixando de lado esta obsessão maníaca? Arre!, que é demais.

Há alguns anos atrás enquanto transportava o Monsenhor Michel Schooyans para um congresso organizado pela associação dos médicos Católicos portugueses a certa altura, como viesse a propósito, disse-lhe que muitos Sacerdotes me acusavam de não falar de outra coisa senão destes assuntos. Ao que ele retorquiu, pois continue até eles começarem periodicamente a versar esses temas; quando são raros os que ensinam alguém terá de teimar. Poderá, acrescento eu, vir a ser detestado mas a semente há-de germinar. Prelados eminentes, varões de grande virtude e santidade (santidade e virtude que eu também poderei vir a alcançar, caso os meus leitores e amigos rezem muito e se sacrifiquem por mim; afinal nada é impossível à Omnipotência Divina) foram alvo de grandes escárnios e chacotas pela sua extrema pertinácia no servir e pregar sobre os pobres, e hoje são venerados nos altares, apresentados como modelo aos Fiéis, tidos como poderosos intercessores junto Àquela Beneficência infinita que Se regozija e deleita em tornar os Seus amigos participantes das Sua mercês, inspirando-os a impetrarem as Suas Graças em nosso favor.

Segundo a Beata Teresa de Calcutá, que toda a vida se doou totalmente aos que padeciam de grande pobreza, de enfermidade, de velhice e aos moribundos, há uns, de quem ela também muito cuidou, que são mais pobres que esses pobres, que são paupérrimos, misérrimos, a saber, os que não conhecem nem amam a Jesus Cristo e as crianças nascituras.

13. 11. 2012


[1] Não translado aqui a ligação para o sítio do Vaticano onde se encontra esta Carta em português porque a tradução, sendo deplorável, torna incompreensível o ensinamento ful cral do Papa Paulo VI.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Velhos como os trapos

por Maria José Nogueira Pinto

In DN

Chamaram-lhes seniores, idosos, pessoas da terceira idade. Usaram com eles um léxico variado, uma espécie de cobertura de açúcar que foi ocultando uma dura e triste realidade. Conheci-os, há muito, nas camas dos hospitais, nas camas dos lares, prisioneiros em suas casas, sós como cães em bancos de jardins e soube que alguns eram encontrados sem vida pelas ajudantes familiares, depois de terem enfrentado a morte na mais completa solidão.

Vieram ter comigo, uma manhã de Outono já arrepiada de frio, eram cinco, três muito velhos e dois apenas um pouco menos, a pé, amparando-se mutuamente através das ruas íngremes do Bairro Alto, até chegarem ao meu gabinete da Misericórdia de Lisboa para me exporem as suas vidas, carências e aflições. O assunto era tão melindroso que roçava a indignidade, uma nudez crua que submetiam ao meu olhar porque a vida a isso os obrigava: tinha (alguém, os Serviços, a Senhora Técnica? Não sabiam ao certo) sido dada uma ordem que cortava o número de fraldas a que tinham direito mensalmente. "Ora as fraldas, a menina sabe, fazem-nos muita falta". "Então agora como é que têm feito?", perguntei. "Cortamos cada fralda em três pedaços e assim rende mais. Mas é muito mau", disse outra, porque "esfarelam-se todas e não protegem". "Pois não", concluíram em coro. Mandei vir uma fralda e uma tesoura e, mais por mim do que por eles, pedi-lhes que repetissem esse gesto que transformava em três pedaços esfarelados uma fralda de adulto.

Fiquei envergonhada - julgo que essa era a ideia - por coisas destas acontecerem paredes meias com quem manda e dirige, com quem gere e distribui recursos, pessoas que não usam fraldas, não as cortam em três, para quem andar nos meandros dos bairros lisboetas não significa um esforço físico excessivo, pessoas como eu que, no mínimo, têm que levar murros no estômago quando coisas destas acontecem. Se alguma dúvida me restasse ela dissipou-se nessa manhã bisonha: pode o envelhecimento ser, na maioria dos casos, um caminho para a pobreza, a indignidade, a dependência mais aviltante? Não. Mas para isso era (e é) imperativo priorizar esta questão, dar-lhe uma estratégia, dotá-la de recursos e prossegui-la sem hesitações. Foi assim que se fez o levantamento dos idosos no concelho de Lisboa, que se estudou a cobertura de apoio domiciliário, o tipo de respostas novas que seria preciso criar para fazer face a problemas diferentes que emergiam brutalmente após décadas de uma política de apoios que se revelavam manifestamente insuficientes e desadequados. Foi assim que nasceu, por exemplo, o "Mais Voluntariado Menos Solidão" com a preciosa colaboração do "Coração Amarelo" e da Cruz Vermelha. Foi assim, também, que fomos buscar o Euromilhões, um novo jogo social consignado ao envelhecimento e às dependências e que hoje, constou-me, foi parcialmente desviado para manobras de diversão do mais puro marketing político.

Afinal parece que ninguém sabia que Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo (o sétimo), que os nossos velhos são os mais pobres da Europa, que na sua maioria são doentes crónicos, que muitos sofrem ou vão sofrer de demências e que para além de dependências crescentes se encontram sós, com pouca ou nenhuma família, sem redes de vizinhança efectivas, optando por comprar remédios ou comida. O census de 2001 apontava já para 35 mil idosos isolados na cidade de Lisboa. Confinados ao casco histórico e a outras zonas desertificadas viram os seus descendentes serem expelidos para as periferias. Muitos destes fogos de habitação nunca tiveram obras, nas mansardas pombalinas os telhados em más condições deixam entrar a chuva, o frio e o calor tórrido do Verão.

Apesar de tanto Ministério, Direcção-Geral, Gabinete de Estudos, Observatórios, dados estatísticos e milhões e milhões de euros gastos sabe-se lá como, em Portugal é possível não conhecer a realidade e trazê-la para os jornais a propósito de um único caso concreto. Como se este enorme drama não valesse por ser tão silencioso. E esta é, estou certa, a nossa maior falta e a nossa pior vergonha.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Corações ocos


por Baptista-Bastos
In DN

"Velhos, ó meus queridos velhos, saltem-me para os joelhos: vamos brincar?" Alexandre O' Neill

O número perturbador de velhos portugueses que morreram sós, e estiveram anos sem ninguém disso dar conta, permitiu uma série de piedosas declarações. A "atomização da sociedade", de que falou, admiravelmente, Simone de Beauvoir, num ensaio esquecido mas não datado [La Vieillesse], facilitou o sistema em que sobrevivemos, e que "confina com a barbárie."

Os nossos velhos pagam, amarga e dolorosamente, as nevroses das suas infâncias e as consequências das suas vidas frustradas, esmagadas, irrealizadas e aceitas com a resignação de quem foi alienado para consentir o inevitável declínio. A velhice, tal como as sociedades modernas a tratam, é uma questão de anomalia política, uma mutilação. Podíamos, talvez, atenuar essa violência, essa desolação social, com um pouco de compaixão.

Porém, autorizámos que nos esburacassem os sentimentos. Reparem: deixámo-nos de nos cruzar uns com os outros: simplesmente, atravessamo-nos; afastámo-nos da cordialidade, expulsámo-nos dos laços que nos uniam e justificavam como seres humanos e como comunidade. O nosso coração está oco.

Um país que abandona assim os seus velhos, que assim deixa morrer os seus velhos, é um sítio sem memória, um vácuo no vácuo. Um local inóspito que perdeu a ligação do espiritual e foi ocupado pela desordem estabelecida. Mas os sobressaltos de emoção são momentâneos. A dialéctica da Imprensa impede a durabilidade das nossas indignações, já de si muito ténues e muito frágeis. Os velhos mortos na solidão de todas as mortes serão substituídos pela inclemência da eterna actualidade. Morrem e passam a número. A dissolução do humano assimilou os nossos mais pequenos gestos, as nossas mais escassas fraternidades. A vulgaridade dos factos torna-se banalidade. Chega a ser indecoroso o lado mau da vida que os jornais expõem. Mas é assim. E o que assim é tem muito peso. O peso escandaloso da insensibilidade.

Os nossos velhos não estão, apenas, a morrer nas suas casas geladas de calor humano. Estão a morrer nos jardins, sentados na distância de já haverem perdido o pessoal sentido de identidade. O tempo flui neles e sobre eles, e já lhes não interessa, sequer, a desolação do seu fim de vida. Estão a morrer em caixotes horrendos, os paióis para onde são despejados como inutilidades que se desprezam.

E os jornais vão fornecendo números, levando, finalmente, para as primeiras páginas, aqueles que sempre as tinham merecido. Não gostamos dos nossos velhos. Abandonamo-los nos hospitais, rasuramos da nossa memória os seus afagos de pais e avós, as atenções que nos concederam, o amor que nos ofereceram sem contingências.

Que estamos a fazer a nós próprios?