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terça-feira, 26 de março de 2013

Aquecimentos globais - por João César das Neves

In DN 

O Inverno que agora acaba mostrou sintomas que os especialistas relacionam com a mudança climática. Um tornado na Póvoa, temporais mortais em S. Miguel, atraso na monção, temperaturas acima da escala no verão australiano mostram que o planeta sente um acréscimo da irregularidade meteorológica e alguns fenómenos invulgares. 

Certos acontecimentos estranhos na recente dinâmica económica são análogos à evolução atmosférica. Os sintomas são diferentes na China e EUA, Brasil ou Portugal, mas todos sentem mais irregularidade produtiva e alguns fenómenos invulgares. Podemos dizer assim que se experimenta também um "aquecimento socioeconómico" mundial. Este paralelo ajuda a compreender ambos os fenómenos.

O primeiro elemento é que factos aparentemente distantes podem ser gerados por uma causa comum. No clima a explicação é evidente, mas também na economia muitos acontecimentos, que parecem desligados, estão relacionados numa dinâmica global que preanuncia um período de mudança e conflito. O impasse orçamental americano e o impasse eleitoral italiano, a recessão europeia e o arrefecimento das economias asiáticas, o agravamento na disparidade ente ricos e pobres e as múltiplas emergências orçamentais, são resultado de um quadro comum de transformação. Nos últimos 20 anos a globalização e abertura comercial de múltiplas zonas, junto com as profundas transformações da era da informação, mudaram a estrutura produtiva criando perturbações em diversas áreas e transformando o sistema que conhecíamos.

O segundo facto é que esta mutação é inevitável. Aqui foi a economia quem melhor percebeu que pouco havia a opor à globalização. No campo climático os repetidos avisos aflitivos de ambientalistas, recomendando soluções drásticas, mostram como muitos ainda têm a ilusão de se poder voltar atrás. Apesar disso, e de esforços dispendiosos, era evidente há muito que o mundo nunca conseguiria habituar-se a viver com menores níveis de energia e emissões. Assim, em vez de evitar mudanças climáticas, a humanidade terá de aprender a suportá-las.

O terceiro aspecto é que, em ambos ao casos, a mudança não é o fim do mundo. Trata-se de transformações dolorosas, difíceis, exigentes mas, como todas as evoluções, com vantagens e inconvenientes. Se os desertos avançam em certas zonas, outras melhoram a fertilidade. Algumas ilhas e costas ficam submersas enquanto áreas geladas passam a habitáveis. O mesmo processo vê-se no campo económico. A concorrência dos mercados emergentes gera reestruturações produtivas e tensões sociais na Europa e América do Norte. Essas dificuldades vêm a par da maior redução de pobreza da história do mundo, no Extremo Oriente e África, que vivem a sua melhor época nos últimos séculos.

Nunca se deve subestimar o enorme sofrimento causado por ajustamentos desta dimensão na economia e clima. Adaptações sectoriais e empresariais, acompanhadas por falências e despedimentos, movimentos de populações, dívidas e rupturas são dramas bem reais, e por isso tanta gente ainda tenta evitar a evolução. As sociedades terão de alterar estruturas e costumes seculares, defender-se de perigos inesperados, conceber novas formas de trabalho e enfrentar climas diferentes. O facto de os dois "aquecimentos" virem em simultâneo ainda agrava mais os inconvenientes.

Seja nas formas produtivas e tecnológicas, nas culturas agrícolas ou nos hábitos de vida, vêm aí tempos novos que exigem respostas originais. Esta é uma evolução que a humanidade fez já muitas vezes ao longo da sua história, em geral em condições muito mais difíceis. Cabe à nossa geração vencer este novo desafio.

O mais importante é ser capaz de ajustar o essencial, manter o importante e adaptar o acessório. Em particular é urgente apoiar os mais afectados, defendendo e reafirmando a democracia e direitos humanos, que estão já a ser contestados por muitos no meio das pressões que se começam a sentir. As tentações de violência serão fortíssimas. Se cair nelas, o globo fica, não mais quente, mas carbonizado.





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Europa y los Estados Unidos, después de décadas de deslocalización productiva, ahora deben reindustrializarse - di Ettore Gotti Tedeschi

In news.va

En el mundo occidental la exigencia de desapalancar (deleveraging) la deuda producida en treinta años por familias, empresas, instituciones financieras y Estados está provocando ese fenómeno que, para simplificar, se define recesión, esto es, crecimiento negativo del producto interior bruto. El PIB se contrae porque las familias reducen los consumos, las empresas producen menos, las bancas limitan las intermediaciones, los Estados procuran endeudarse menos. Los capitales disponibles son escasos y más costosos, el crédito es inferior y, subjetivamente, más costoso a causa de las diferencias entre “spread”. La superación de la recesión no será fácil ni realizable a corto plazo.

Austeridad es la expresión que mejor caracteriza esta fase económica del mundo occidental. Pero no hay que descuidar la tentación de transferirla a otros países.

Europa y los Estados Unidos, después de décadas de deslocalización productiva, ahora deben reindustrializarse para sostener la ocupación interna y volver a encontrar una nueva competitividad. Pero, sin mucho capital para las inversiones, se intentará la vía de las reformas a fin de crear mayor productividad y obtener menores despilfarros. Se buscará, en lo posible, reducir la importación de productos y reimportar las producciones. Escenarios distintos de estos permiten prever tensiones sociales difícilmente manejables. Tampoco hay que excluir que se llegue a la devaluación de las monedas y a la protección de sectores económicos considerados estratégicos.

El deseo de no sufrir o de limitar el impacto de la recesión se podrá, por lo tanto, concretar en una transferencia de los problemas a los países emergentes, o sea, a esos mismos países adonde se desplazaron las producciones en el pasado reciente. Con fatiga, en cambio, para poner en marcha el verdadero motor de la recuperación económica occidental: promover al formación de las familias.

El impacto de estas estrategias en los países emergentes podría ser grave porque sus economías, aún frágiles, verían bruscamente reducidas las exportaciones, con la consiguiente disminución de los capitales de entrada. Estas naciones también experimentarán la contracción del PIB y tendrán que procurar que crezca la demanda interna. Pero esta elección podrá producir algunos efectos como el uso de capitales para incrementar las inversiones internas y el crecimiento del poder adquisitivo local, que, en definitiva, significa también un mayor coste del trabajo. Se trata de un proceso que, una vez activado, conducirá al aumento de los precios de los productos exportados y, por lo tanto, a una competitividad más escasa.

En occidente, gracias a las tecnologías, las producciones que necesitan una mano de obra menos costosa encontrarán nueva competitividad y esto requerirá a los países emergentes la especialización en producciones más costosas —no compensable por las tecnologías— que, en cambio, serán cada vez más objeto de competición entre esas mismas naciones, con repercusiones negativas sobre las menos dotadas. Los países emergentes más ricos y tecnológicamente avanzados podrán intentar la penetración en occidente, adquiriendo empresas y produciendo localmente. Pero será indispensable que acepen reglas para ellos completamente nuevas.

Se configuran riesgos de impacto que habrá que manejar estratégicamente para no debilitar a las franjas más vulnerables de la población y a los países más pobres, que precisamente estaban entrando en el ciclo del bienestar, aunque con capacidades limitadas de competición.

Así pues, además de las estrategias occidentales de reindustrialización, es el mundo entero el que debe aliarse para salir juntos de la crisis y consentir que el reequilibrio de la distribución de la riqueza —iniciado con la globalización— pueda llevarse a cabo sin egoísmos, con solidaridad y justicia. El mundo global no puede soportar nuevas deslocalizaciones. Sobre todo de la crisis y de la pobreza.





Vatican Bank president calls for reindustrialization of US, Europe - by Ettore Gotti Tedeschi

In News.Va

In the Western world the need to deleverage the debt produced over 30 years by families, businesses, financial institutions and states is giving rise to that phenomenon which, to simplify things, is called “recession”, namely as an absence of growth of the gross domestic product. The GDP decreases because families consume less, businesses produce less, banks limit their intermediation. States aim to be less indebted. Available capital is scarce and more expensive, credit is less and, subjectively, costs more, because of the differences in the spreads. It will not be easy – nor in the short-term possible – to surmount the recession.

“Austerity” is the word that best describes this phase in the economy of the Western world. But the temptation to transfer it to other countries should not be ignored.

Europe and the United States, after years of productive delocalization must now be reindustrialized in order to sustain internal employment and to rediscover new competition. Yet, with less capital to invest reforms will be introduced to create greater productivity and leave less waste. As soon as possible an effort will be made to reduce imports and to reimport production. Envisaging any other scenario would allow one to foresee social tensions difficult to handle. Reaching the point of the devaluation of the currency and the protection of economic sectors deemed strategic cannot be excluded.

The wish to avoid reaping the consequences of the recession or to limit its impact could result in the transfer of the problems to the developing countries, those very countries, that is, to which in the recent past production was transferred, but striving to give an impetus to the true driving force of Western economic recovery: promoting the formation of the family.

The impact of these strategies on developing countries might be serious, because their still fragile economies might suddenly see their exports reduced with the consequent fall in revenue. These nations too will experience the fall in the GDP and must seek to increase internal demand. Yet this decision could produce such effects as the use of capital to increase internal investments and the growth of local purchasing power which, ultimately, also means the higher cost of labour. This is a process which, once initiated, will lead to an increase in the price of exports and hence to less competitive prices.

In the West, thanks to technology, production which demands cheaper labour will encourage new competition and this will require the developing countries to specialize in more expensive goods – which are not offset by technology – which will, however, increasingly be an object of competition between the nations themselves, with negative repercussions on those less well equipped. The wealthiest and technologically most advanced of the developing countries may try to penetrate the West, purchasing companies and producing on the spot. However, it will be indispensable that they accept rules which for them are quite new.

They represent risks, whose impact they will manage strategically in order not to weaken the more vulnerable sectors of the population and the poorest countries, which were on the point of entering the cycle of well- being, if with limited competitive skills.

In addition to the Western strategies of reindustrialization, therefore, the whole world must join forces if it is to emerge from the crisis and achieve an equitable distribution of wealth – which began with globalization – to be implemented without selfishness but rather with solidarity and justice. The global world cannot sustain further delocalization. Especially of the crisis and of poverty.

2012-02-24 L’Osservatore Romano