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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A alegria do Evangelho - por João César das Neves

In Infovitae

         A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, «sobre o anúncio do Evangelho no mundo actual», destina-se oficialmente a tornar público o trabalho do XIII Sínodo Ordinário dos Bispos, de Outubro de 2012, tarefa que o Papa Francisco herdou do seu antecessor. Em vez disso, ou além disso, o Papa transformou-a num verdadeiro programa do pontificado.
 
Aquilo que, desde 1740, todos os seus antecessores fizeram através de uma encíclica inaugural (excepto João Paulo I, que morreu antes, e Gregório XVI, que usou uma bula) é agora realizado por uma exortação. De facto a encíclica de Junho, Lumen Fidei (LF), não cumpriu esse desiderato. Ela partia de um «primeiro esboço» (LF 7) da autoria de Bento XVI, e Francisco confessou que: «assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição» (7). Agora, mesmo através da labuta do Sínodo, surgem finalmente os traços marcantes do programa papal. Não perdemos pela demora, pois ele constitui um dos maiores documentos pontifícios de todos os tempos, só ligeiramente ultrapassado em dimensão pela exortação de João Paulo II Pastores Dabo Vobis de 1992, resultado do VIII Sínodo Ordinário, em 1990.


1. Conteúdo


O texto é uma maravilhosa reflexão sobre uma das tarefas mais centrais da Igreja de sempre, a evangelização. Com o seu estilo inimitável, certamente o documento ficará na história como uma das grandes proclamações sobre o tema, ao nível do melhor que se tem publicado acerca da evangelização.


A sua vastidão e profundidade impedem que se tente sequer uma descrição breve. De facto, a evangelização é aqui discutida em todas as suas dimensões, das grandes questões teológicas (e.g. nº 111-134) a pormenores pastorais (e.g. 145-175). Isso leva o texto a abordar inúmeros temas concretos, dos obstáculos sociais ao anúncio de Cristo (52-109) à preparação das homilias (135-159), das implicações sociais da proclamação doutrinal (177258) aos diálogos ecuménico (244-246) e com a ciência (242-243), do aborto (213-214) e crise da família (66-67), ordenação das mulheres (104) e problemas económico-financeiros (53-60; 202-204). Trata-se de um grande tratado. que funde a eclesiologia, missionação, liturgia e catequese numa única elaboração.


O elemento mais marcante é aquele estilo claro, singelo, cortante e sugestivo que estes poucos meses tornaram já tão conhecido. A exortação ressuma com as expressões favoritas do Papa, que ele fez famosas: «Os evangelizadores contraem assim o “cheiro de ovelha”, e estas escutam a sua voz» (24); «Se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus» (38); «A Igreja “em saída” é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direcção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho» (46); «Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa» (47); «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (49).


Os contributos da encíclica são muitos e muito valiosos, espantosos até, merecendo repetidas e atentas leituras, para retirar todo o proveito que escorre a cada passo. Só para referir um dos mais notáveis, no capítulo IV, o Papa Francisco apresenta «quatro princípios relacionados com tensões bipolares próprias de toda a realidade social», o que constitui uma genial e original síntese e contributo para a Doutrina Social da Igreja. Segundo o Papa, «para avançar nesta construção de um povo em paz, justiça e fraternidade» (221) é preciso não esquecer quatro elementos básicos: «o tempo é superior ao espaço» (222-225), «a unidade prevalece sobre o conflito» (226-230), «a realidade é mais importante que a ideia» (231-233), e «o todo é superior à parte» (234-237). Desta forma quase acidental, Francisco consegue trazer um resultado brilhante e inédito a um dos temas mais estudado, debatido e analisado de toda a actividade eclesial.


Muitos outros exemplos podiam ser aduzidos, intuições e análises igualmente preciosas. É importante que fiéis, e sobretudo os clérigos, se habituem a vir a este texto frequentemente, para retomar uma meditação sempre frutífera sobre uma das mais relevantes actividades eclesiais.


2. Polémica


Para terminar este texto vale a pena tratar ainda brevemente aquele ponto que é, certamente, um daqueles que se revelou mais polémicos. Nas habituais leituras apressadas dos media (que neste caso foram ainda mais ligeiras que o costume, devido à dimensão e abrangência do documento), houve um facto que se destacou: as críticas consideradas acérrimas ao sistema capitalista.


Inclusivamente o habitualmente sóbrio Wall Street Jornal, através do seu comentador Liam Moloney deu, logo a 26 de Novembro, dia da divulgação pública da exortação, datada de 24, nota do documento referindo que o Papa, «usando linguagem invulgarmente brusca (unusually blunt), criticou a economia de mercado» (http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702303281504579221933931268354)


Vale a pena referir que o texto nunca usa a palavra «capitalismo» ou «capital», emprega apenas uma vez a palavra «lucro» (56), e nove vezes a palavra «mercado» (54-57, 70, 202, 204). Mas é verdade que emprega frases bastante contundentes. Por exemplo: «Assim como o mandamento “não matar” põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Esta economia mata» (53); «O desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira» (55); «Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras» (56) «O dinheiro deve servir, e não governar!» (58), «O sistema social e económico é injusto na sua raiz (...) É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor» (59) «Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado» (204)


Será isto uma novidade doutrinal? Talvez na forma, mas não de todo no conteúdo. Uma breve inspecção à última encíclica social, a Caritas in Veritate (CiV) de Bento XVI (2009), encontra ideias equivalentes, expressas de forma também clara: «Situações de subdesenvolvimento, que não são fruto do acaso nem de uma necessidade histórica, mas dependem da responsabilidade humana. É por isso que os povos da fome se dirigem hoje, de modo dramático, aos povos da opulência». (CiV 17); «os efeitos deletérios sobre a economia real duma actividade financeira mal utilizada e maioritariamente especulativa» (CiV 21) «Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades. Nos países ricos, novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em áreas mais pobres, alguns grupos gozam duma espécie de superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora. Continua o escândalo de desproporções revoltantes». (CiV 22).


É verdade que o estilo é agora diferente, com o atrás referido tom cortante, directo, envolvente a que o Papa Francisco nos habituou. É verdade também que esse modo já criou enganos em muitos, que quiseram ver nele uma alteração do rumo da doutrina da Igreja. Mas isso é evidentemente falso. Francisco não pretende mudar a doutrina nem os princípios. Aliás não lhe compete fazer tal, porque ele não é dono da Igreja, mas seu servo. A sua atitude simples, directa e brilhante tem de ser bem entendida: as suas frases devem de ser lidas no quadro de uma ortodoxia serena, que ele sempre afirmou e que é a aquela em que Jorge Bergoglio sempre viveu. Se nos primeiros episódios do pontificado houve compreensível surpresa, agora já não é razoável insistir no que apenas pode ser um abuso e distorção das suas declarações.


Por exemplo, na entrevista que deu à La Civiltà Cattolica, publicada a 19 de Setembro de 2013, ele foi interpretado como menorizando a defesa da vida pela Igreja, quando disse coisas como «Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso». É evidente que a dedução de uma nova tolerância aos ataques contra a vida e família é totalmente injustificada. Na mesma entrevista ele parecia recusar a «hermenêutica de continuidade» que Bento XVI proclamara na interpretação do Concílio Vaticano II ao dizer: «O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea (...) a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível». Também aqui a inferência revolucionária é patentemente vazia. Talvez ainda mais polémica foi a entrevista a Eugenio Scalfari, no "la Repubblica" a 1 de Outubro. Aí o Papa foi acusado de defender o relativismo ao afirmar: «Cada um de nós tem a sua própria visão de bem e de mal, e deve escolher seguir o bem e combater o mal como ele mesmo o conceba». Ora esta, como as outras interpretações, são erros evidentes dos que quiseram impor as suas ideias ao Papa.


No caso das expressões da Evangelli Gaudium sobre economia, é preciso acrescentar que o Papa Francisco se precaveu explicitamente de abusos na interpretação da sua linguagem. De facto ele fez questão de afirmar: «Aqui não é o momento para explanar todas as graves questões sociais que afectam o mundo actual, algumas das quais já comentei no terceiro capítulo. Este não é um documento social e, para nos ajudar a reflectir sobre estes vários temas, temos um instrumento muito apropriado no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, cujo uso e estudo vivamente recomendo.» (184). Desta forma clara, o Pontífice reafirma toda a tradicional doutrina sobre o tema.


Então porque disse ele o que disse? As finalidades das referidas expressões bruscas são evidentes. Elas surgem em dois tópicos concretos: o primeiro para esclarecer o enquadramento prévio dos obstáculos à evangelização (53-60); o segundo lidando com a dimensão social da mesma (186-208). Ou seja, o Papa não está a tratar do valor da economia ou a fazer um juízo axiológico acerca da actividade produtiva e mercados. Essa vem no Compêndio e foi claramente mantida. O que aqui se trata é de evangelização e dos impedimentos que o sistema lhe coloca ou das necessidades que ele impõe à intervenção cristã. Naturalmente que isso exige que a atenção se dirija aos aspectos mais graves, porque só esses causam dificuldades. Só com uma flagrante má-fé se podem retirar as conclusões genéricas que tantos alinham.


A grande exortação Evangelii Gaudium constitui um documento ímpar, que merece atenta e repetida atenção. Este programa de pontificado figurará durante muito tempo entre as referências eclesiais mais marcantes. Tal como a encíclica inaugural de Paulo VI, Ecclesiam suam que, versando sobre o mesmo tema, ainda hoje, 50 anos depois de escrita, é citada com grande proveito, por exemplo precisamente neste novo documento.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ano da Fé - por João César das Neves

In DN
 
Não há felicidade maior do que saber que Deus, o Deus supremo, sublime, transcendente, que fez o céu e a terra, se entregou à morte para me salvar. A mim pessoalmente. Nas nossas cidades e aldeias, nas casas e capelas de Portugal, em especial neste Ano da Fé que agora termina, tudo lembra este facto radical. Apesar disso, ele é esquecido a cada passo. Por isso as nossas vidas não são felizes. Ele está pendurado por minha causa. Nas paredes das salas, nas frontarias das igrejas, nos quadros dos museus, até no meu peito, em todo o lado a imagem da cruz lembra que Aquele ali, coberto de sangue, foi condenado à morte por minha causa. Eu vivo a minha vida, em cada momento, sob o olhar do que está num patíbulo em vez de mim.

As razões da condenação acumulo-as a cada momento. Pequenas e grandes traições, mentiras e violências, egoísmo e mesquinhez; sobretudo a terrível tibieza e mediocridade em que mergulham os meus dias. De fora não se vê a podridão que tenho dentro. Nem os meus inimigos, que têm tanta razão nos insultos, nem eles sabem do mal a metade. Sou todos os dias muito justamente condenado à morte.

Todos estamos condenados à morte e um dia, cedo ou tarde, a sentença será executada. Aliás, a morte não é só um justo castigo dos nossos males, mas também um alívio terapêutico dos mesmos males. Que seria viver para sempre em tanta maldade? "Deus não institui a morte ao princípio, mas deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamentações insuportáveis, a vida dos homens começou a ser miserável. Deus teve de pôr fim a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça" (S. Ambrósio Na Morte do Irmão Sátiro, II, 47).

Isto posso compreendê-lo bem olhando com honestidade para a minha vida. Se tirar a máscara de respeitabilidade e elegância, se esquecer as justificações retóricas e os enganos convenientes, se for ao fundo das minhas razões, vejo com clareza que um juiz justo e imparcial teria de me condenar. Exalto o pouco bem que vou fazendo, mas essa ilusão de óptica não impede a sentença inevitável.

Mas não sou eu que estou ali pendurado. É Ele. Ele, a única pessoa a poder dizer com verdade não merecer a morte, é Ele que está ali. "Jesus estará em agonia até ao fim do mundo" (Pascal , 1670, Pensées, ed. Brunschvicg n.º 553, ed.Lafuma n.º 919). Ele está em agonia, e a culpa é minha. E graças à morte d"Ele a minha tem remédio. A morte, em si mesma, é definitiva. Quem morre fica morto. Mas porque Ele quis morrer por mim, a minha morte tem saída. A minha morte pode ir para a vida. Se me agarrar a Ele, o único que voltou da morte.

Porque essa morte, que Ele sofreu por minha causa, durou apenas três dias. Porque Ele, o único a poder dizer que não merece a morte, destruiu a morte com a morte que sofreu por minha causa. Assim não há mais morte, não há mais culpa. Tudo foi levado na enxurrada da ressurreição de Cristo.

Eu, no medíocre quotidiano, continuo a mesma mesquinha criatura que sempre fui. Os meus pecados não desapareceram por Ele ter morrido e ressuscitado. Aliás, todos os meus pecados foram já cometidos depois de Ele ter morrido e ressuscitado por mim. Mas, porque Ele morreu e ressuscitou, eu sei que existe algo que cobre a multidão dos meus erros, misérias, podridões. Existe a Sua eterna misericórdia. E essa, por ser infinita, ganha ao meu mal. Se eu a procurar.

Agora posso viver a minha vida debaixo do olhar que Ele me lança da cruz. Daquela cruz que vejo a cada passo nas cidades e aldeias. Daquela cruz onde Ele está pendurado por minha causa. E isso muda a minha vida. Até muda a desgraça, a tacanhez, a maldade da minha vida. Assim, até ela fica quase boa. Por me lembrar do facto de Ele estar ali pendurado por minha causa. E não se ir embora, por grandes que sejam os meus crimes. Por ficar ali pendurado, esperando sempre que eu O veja. Que caia em mim. Que volta para Ele. Que tenha fé. E isso é a vida eterna.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Austeridade à lusitana - por João César das Neves

In DN

Há dois anos e meio, 6 de Abril de 2011, o primeiro-ministro José Sócrates anunciou o pedido de ajuda financeira. Passados 30 meses qual é a situação da economia e da sociedade portuguesas? Ouvindo as fúrias retóricas que gera, a questão parece desastrosa. Mas ao lado da epopeia político-literária foi acontecendo uma evolução social bastante mais complexa e ambígua. O resultado final do programa, até meados de 2014, e a suas eventuais sequelas dependem crucialmente deste balanço.

Evitando alaridos incendiários, a situação pode resumir-se a dois elementos básicos, ligado a dois traços históricos do carácter nacional, flexibilidade e corporativismo. Há séculos que Portugal é um país excelente a improvisar e a inovar, mas onde os interesses sempre se entrincheiram. Este episódio renova essas tendências.

O primeiro vector vê-se no espantoso ajustamento das famílias e pequenas empresas, mercados, trabalhadores e empresários perante o aperto. Independentemente do que se achar da austeridade, os cidadãos portugueses revelaram uma admirável flexibilidade e adaptação. A mudança de atitude dos agentes económicos começou cedo e surpreendeu os analistas internacionais.

A balança comercial, que no início de 2010 tinha um défice de 9% do PIB, atingiu o equilíbrio a meio de 2012, reforçado desde então. A emigração, tradicional válvula de escape, voltou a acelerar, saindo mais de cem mil pessoas em cada um dos anos de ajustamento. Quase inaudito é que, apesar da pressão financeira sobre as famílias, a sua taxa de poupança tenha mais do que duplicado, do mínimo de 5,6% do rendimento disponível em 2008 para 13,3% a meio deste ano. É verdade que estes e outros indicadores resultam dos custos da terrível recessão; mas outros países com ajustamentos semelhantes não conseguiram resultados tão rápidos. Isto aponta para a tradicional e espantosa capacidade de adaptação do nosso tecido socioeconómico, que os recentes sinais incipientes da recuperação irão aproveitar.

Ao lado deste sucesso, paralelo a grandes feitos antigos, surge também o velho fantasma corporativo, que tantas vezes bloqueou o País. Os portugueses, mesmo em terrível emergência, insistem em defender interesses e privilégios através de entranhados mecanismos sociais e políticos. Direitos adquiridos, favores, "cunhas", redes de influência têm enorme poder, e estão em plena acção nestes anos a dois níveis, um mais visível do que outro.

O primeiro é o protesto, reivindicação e bloqueio legislativo e judicial às medidas de ajustamento. Apesar das evidentes dificuldades nacionais, alguns grupos acham-se com direito a manter benesses que a sociedade evidentemente não consegue pagar. Pior, estes são os grupos mais próximos do Estado - funcionários, médicos, professores, pensionistas, autarquias -, precisamente os mais favorecidos nos anos de fartura. Fingindo-se desvalidos, abusam dos impostos dos pobres. As forças políticas vão à boleia do embuste, capitalizando no descontentamento e contribuindo para a desigualdade nacional. Desempregados, empresas falidas, imigrantes, contribuintes, que realmente são os mais afectados pela crise, acabam sempre sacrificados e usados como figura de retórica para preservar benesses de outros.

O segundo nível, talvez mais grave, é o das empresas e poderes económicos próximos do Estado, que têm distorcido o ajustamento a seu favor. Se as pequenas e médias ajustaram rápido, como vimos, muitas grandes empresas conseguem proteger-se graças a relações políticas. Através de rendas, apoios e influências, os bancos, construtoras, comunicações, energia, outros serviços básicos e alguns grupos económicos mantêm artificialmente negócios e investimentos insustentáveis. O capitalismo de compadres tem muito poder num país corporativo.

O balanço entre flexibilidade e corporativismo ainda é ambíguo. Certo é que aqueles que hoje bloqueiam as reformas em defesa de interesses particulares arriscam a ruína nacional, que os destruirá a eles e a todos, como repetidamente tem mostrado a nossa história.





terça-feira, 23 de julho de 2013

Sete anos - por João César das Neves

In DN 

Quem se lembra do Verão de 2006? Portugal foi quarto no campeonato do mundo de futebol; a economia crescia 1,4%, o desemprego era 7,4%. Nasciam mais pessoas do que morriam e os casamentos eram o dobro dos divórcios. Só há sete anos. Como tudo mudou tanto!

Dois factos dominaram este período. O mais visível é económico-financeiro: o país, então já atascado em dívida, caiu de bêbado em 2011 e debate-se na terrível ressaca. A coberto desta veio a segunda evolução, mais decisiva: um devastador assalto à cultura e sociedade portuguesas em nome da liberdade sexual, com extremistas capturando e distorcendo elementos centrais da alma lusitana. A bebedeira financeira cura-se em menos de sete anos, mas a investida lasciva será pavorosa por décadas.

Foi no Verão de 2006 que começou a demolição das leis básicas da identidade nacional que trouxeram Portugal de uma posição mundial equilibrada ao extremo desmiolado na regulamentação familiar. A primeira foi a Lei 32/2006 de 26 de Julho da reprodução artificial. Seguiu-se a liberalização e subsidiação do aborto (Lei 16/2007 de 17/4 e Portaria 741-A/2007 de 21/6), banalização do divórcio (Lei 61/2008 de 31/10), educação sexual laxista (Lei 60/2009 de 6/8), casamento entre pessoas do mesmo sexo (Lei 9/2010 de 31/5), mudança do sexo (Lei n.º 7/2011 de 15/3), entre outras.

Enquanto noutros países estes assuntos criavam profundos e longos debates, por cá deu-se o triunfo súbito do fundamentalismo extremista. Embrulhados em manigâncias capitalistas, os Governos precisavam de fingir progressismo na ideologia familiar. A sociedade assustada adoptou a posição cómoda e irresponsável de tolerar a libertinagem. As forças de defesa da família, em particular a Igreja Católica, suportaram derrota atrás de derrota fragorosa.

Deste modo irresponsável, o país alinhou em poucos anos as suas leis básicas por caprichos de fanáticos, ultrapassando a toda a velocidade os países civilizados, alguns dos quais já em sentido inverso. Portugal tornou-se um paraíso mundial de comportamentos desviantes e perversos. Não admira o colapso do casamento, ausência de fertilidade, envelhecimento galopante, multiplicação de patologias sociais. Em 2011 os casamentos foram só mais 34% que os divórcios e houve menos 6000 nascimentos que óbitos. A geração anterior desequilibrou as finanças em quinze anos; esta desequilibrou-se a si mesma em sete.

A História mostra duas coisas. A primeira é que movimentos súbitos, com tal rapidez e profundidade, nunca param antes do abismo. Com extremistas no controlo da dinâmica, a coisa irá até ao absurdo. Sorveremos a infâmia até à última gota.

Todos os dias aumentam aqueles que, tendo começado por defender as novidades, agora se arrependem vendo os resultados. Mas a escalada não abranda, atingindo já os temas de requinte, como a co-adopção por casais do mesmo sexo, que em fases anteriores muitos dos próprios activistas prometiam nunca acontecer. A espiral devoradora exige-o, como exigirá as vergonhas seguintes.

Provando que uma loucura nunca fica a meio, a História ensina ainda que casos destes servem de vacina para a humanidade. Quando a Rússia em 1917 aceitou que extremistas dominassem a sua economia, destruiu para sempre o atractivo intelectual do marxismo. Sem essa experiência, hoje o sistema comunista ainda seria perigoso, o PCP não estaria residual nem esconderia a ditadura do proletariado. O desprestígio das ideologias racistas deve-se também ao facto de a Alemanha ter dado em 1933 o poder a esses radicais, revelando ao mundo o seu horror. As sociedades que se deixam controlar por teses aberrantes destroem-se a si mesmas por várias gerações, mas prestam um serviço à humanidade.

Nos sete anos desde o Verão de 2006 Portugal enveredou por caminhos anarquistas nos campos financeiro e familiar. São já bem claros os efeitos dessas opções, mas ainda não se vê o fim do caminho que, pelo menos no segundo, deve demorar mais de sete anos. Resta-nos o consolo de o futuro vir a aprender com os nossos horrores.




segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ilusão voluntária - por João César das Neves

In DN

O povo gosta que lhe mintam. Agora tem um Governo que diz a verdade e considera-o o pior de sempre, muito inferior aos anteriores, que nos convenceram de todas aquelas aldrabices que geraram a crise. Uma conclusão plausível do paradoxo é que o povo quer que o enganem.

Se este Governo diz a verdade não é por ser melhor. A situação é que é pior. Portugal bateu na parede e chegou a um estado em que as alternativas boas não existem e a conjuntura impede ilusões. Por isso, relutantemente, os ministros estão a dar más notícias, revelar o desastre, impor sacrifícios inevitáveis. Agora já não é possível aos responsáveis ocultar a realidade e vender fantasias. Mas o povo não quer isso.

Houve tempos em que o povo gostava de saber a verdade. Em 1974 e 1986 os portugueses estavam assustados. Nessa altura quem lhes descrevesse as dificuldades era eleito e conseguia fazer as reformas necessárias. Depois de 1992 vieram os anos da euforia a crédito. Hoje o povo está, não assustado, mas indignado. E quem sente revolta não quer que lhe digam a verdade, mas que o ajudem a descarregar os nervos. Por isso a mentira anda a prémio. Quem tiver a retórica mais bombástica e incendiária recebe aplausos, mesmo que diga rematada tolice; mesmo que agrave a situação já tão difícil.

António José Seguro sabe perfeitamente que a sua ideia de renegociar o programa de ajustamento é um mito impossível. Quando o PS for Governo ninguém, nem ele próprio, gastará um minuto a pensar nisso. Só o diz porque não pode assumir publicamente que não tem alternativa credível ao caminho que o País segue. De certa forma, o que afirma até é lisonjeiro para o Governo, admitindo implicitamente que nestas condições não se pode fazer melhor. Por isso invoca uma inverosímil mudança de circunstâncias.

Jerónimo de Sousa tem consciência plena de que a sua proposta de expulsar a troika e recusar a austeridade significaria uma desgraça nacional muito pior que a actual. Fazer o que o PCP e BE propõem seria balbúrdia e miséria. Portugal hoje só consegue financiar-se através dos fundos de emergência do FMI e UE, que vêm com as difíceis condições de ajustamento. Mas segui-las é a única forma de algum dia o País recuperar a credibilidade externa e regressar à normalidade. A razão por que esses partidos dizem essas coisas com tanta convicção e vigor, é porque sabem perfeitamente que elas nunca se verificarão, porque no fundo ninguém lhes liga. Sem quaisquer responsabilidades, podem esbracejar à vontade, servindo entretanto alguns interes-ses ameaçados pelos cortes.

Carlos Silva e Arménio Carlos percebem sem dificuldade que as greves são uma perda de tempo, nada alterando numa situação em que não há escolhas. Mas têm de apresentar serviço e fingir que existe outra política que evitaria os sacrifícios. Sempre com o cuidado de deixar omissos os contornos dessa solução milagrosa. Tal como os partidos da oposição, fazem dos protestos uma cortina fumo para esconder o facto de nunca terem dito, afinal, o que é que queriam que se fizesse, e como se pagava.

Mário Nogueira não tem ilusões que sem reformas e, em particular, sem cortar a sério no número e condição dos professores, o sistema de educação português fica arruinado. Mas o sistema de educação é a última das suas preocuações. O que ele quer é fazer mais barulho do que os outros sectores, de forma a que o Governo, para o calar, tire deles para minorar, ao menos em parte, os sacrifícios da sua classe. E já conseguiu.

A situação portuguesa é dura mas evidente. Temos uma das maiores dívidas externas do mundo. É claro que nunca a poderemos pagar, nem ninguém quer que o façamos. O que é preciso é estancar a sangria e pôr a casa em ordem, de forma a colocar a dívida em trajectória descendente, honrando os juros. Para isso surge a austeridade a que temos assistido. Senão é falência, descrédito, isolamento. A única alternativa é o caos, que vemos noutras longitudes. Esta é a verdade, nua e crua. E é bem dura. Assim, até nem admira que o povo goste que lhe mintam.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

A verdadeira conspiração - por João César das Neves

In DN 

Se alguém pretender destruir a sociedade, como deve proceder? Multiplicam-se essas acusações e os réus são múltiplos, do Governo aos bancos, do euro aos corruptos. Tomemos então a sério tais denúncias. Se se quiser mesmo a aniquilação de Portugal, qual a forma mais eficiente de o conseguir?

Curiosamente as dificuldades recentes provam o oposto do que muitos alegam: o tecido social de um povo é sempre muito resistente, o que torna a sua destruição extremamente difícil. Uma crise económica, por grave que seja, nunca gera efeitos duradouros numa nação, quanto mais definitivos. Mesmo que a dose fosse muito maior, como na Grécia ou em Chipre, ao fim de uns anos tudo normaliza. Até o caso extremo da "grande depressão" dos anos 1930 não chegou para destruir os EUA, que aliás pouco depois dominavam o mundo.

Se o nosso inimigo radical passasse para métodos políticos ou militares, não teria melhor sorte. A França de 1792 ou a Alemanha de 1945 são casos extremos de pressão revolucionária ou demolição bélica. Mas nem essas gerações se perderam, quando mais a respectiva cultura e nação. A única conclusão razoável é que a sociedade é uma das realidades mais resistentes do universo. As contínuas referências a demolição nacional não passam, portanto, de exageros vácuos. Sabemos bem como as dificuldades levam muitos a carregar no acelerador retórico, disparando a grande velocidade para a asneira. Mas, apesar do que dizem, é muito difícil destruir Portugal.

Quer isto dizer que um malévolo não teria forma de conseguir os seus perversos intentos? Não. Há uma maneira, e é simples. Para matar um homem cortando-lhe os braços, é precisa uma espada; para o atingir no coração, basta uma agulha. A maneira mais eficiente de dar cabo de um povo é ferir o seu núcleo mais central. E é isso exactamente que nos está a acontecer.

Não existe nenhuma conversa sobre a família em que não se oiça que ela é a célula base da sociedade. Que poderemos então concluir da sua dramática crise contemporânea, senão que ela põe em risco a sobrevivência nacional? A única dedução possível é que está bastante adiantada uma degradação de todo o tecido cultural, de onde só recuperaremos com muita dificuldade. Um povo com dúvidas sobre o sentido de "cidadão" sofreria graves consequências. Que dizer de um que degrade o conceito de casamento?

A queda demográfica chega, só por si, para justificar enorme preocupação. Sem filhos não há futuro e a inversão da pirâmide etária cria vastas consequências. Como pretender crescimento económico numa população em regressão? Mesmo assumindo que a tacanhez actual só liga a questões económicas, fiscais e políticas, já teria aí muito com que se entreter.

A isto juntam-se as brutais consequências humanas, psicológicas, educativas, culturais e sociais que nascem de famílias em desagregação. Conflitualidade conjugal, explosão de divórcios, desequilíbrio emocional, precarização de relações, penetração do egoísmo, são sintomas evidentes e ameaçadores. O resultado é solidão, desespero ou embriaguez.

Tudo nasce de uma ideologia lasciva que impõe o postulado de que no sexo todos os prazeres são equivalentes e devem ser excitados. Esta mentira evidente e clamorosa consegue passar por razoável na propaganda libertina. O tempo que teme tabaco e obesidade promove divórcio, aborto, promiscuidade e depravação.

O que mais espanta é a apatia generalizada da população perante a podridão, enquanto se enfurece e assusta com questões económicas, secundárias e passageiras. As elites de poder, do CDS, PSD e PS, aplaudidas por PCP e BE, são parte activa do problema, não da solução. As leis recentes sobre o tema envergonhar-nos-ão durante séculos.

Portugal está doente, muito doente. Não pelo défice e dívida, nem sequer pelo desemprego e recessão. Tudo isso resolve-se em anos. A verdadeira doença que, mesmo não fatal, deixará mazelas por gerações, é a incompreensível, boçal e brutal dissolução familiar. Assim este período ficará marcado na nossa história. Se houver história.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

O inocente - por João César das Neves

In DN

Portugal passa por um momento terrível, mas isso não o deve impedir de admirar esteticamente uma obra de arte excepcional. Ora o regresso de José Sócrates é um espantoso feito de técnica política, do mais alto nível mundial.

A personagem é notável. Verve, atitude, táctica são excelentes. Para lá das qualidades como tribuno e estratega, aquilo que o distingue dos demais e o coloca acima da sua geração é a total ausência de escrúpulos. Não existe a menor contemplação pela realidade dos factos, interesse nacional, simples decoro pessoal. Existe apenas um projecto de poder, e tudo lhe é sacrificado. Há muitas décadas que não tínhamos um político assim, e já nos esquecemos do estilo. Por isso tanto nos admira a quase inacreditável capacidade de imaginação e manipulação com que consegue sair de uma posição que seria desesperada para qualquer outro. Além disso é terrivelmente eficaz e convence mesmo. Digno de antologia!

Apresenta-se como totalmente inocente dos males que afligem o País. Foi primeiro-ministro durante mais de seis anos mas é inimputável pelo desastre que deflagrou nos últimos meses do seu mandato. A culpa vem de uma "crise das dívidas soberanas", que lhe é naturalmente alheia. E claro também de um terrível bando de malfeitores, onde se inclui o actual Governo, bancos, União Europeia e FMI, que pretendem, por razões não esclarecidas, destruir Portugal. Ele, pelo contrário, sempre esteve do lado do progresso e alegria, que infelizmente não se concretizaram.

Não é claro se mente descaradamente ou acredita mesmo na fábula, sofrendo de delírio. Em qualquer caso, todos os dados apontam para o facto de José Sócrates ser, não imoral, mas completamente amoral. Não se lhe parecem colocar quaisquer remorsos de consciência. Por isso é tão convincente. A nossa actual democracia nunca teve, em posições cimeiras, pessoas deste calibre. Assim Sócrates destaca-se flagrantemente.

É preciso dizer que ele ainda não atingiu os níveis do contemporâneo mestre absoluto da técnica, Silvio Berlusconi. Nem sequer é evidente que o português alguma vez consiga os feitos do italiano. No entanto, cabe-lhe um honroso segundo lugar. Esta atribuição não é forçada porque a relação entre ambos é evidente. Tirando eles, todos os líderes que estavam no poder quando bateu a crise, alguns deles de reconhecidas qualidades, caíram fragorosamente: Geir Haarde na Islândia, Kostas Karamanlis e George Papandreou na Grécia, José Luis Zapatero em Espanha, Brian Cowen na Irlanda, Yves Leterme na Bélgica, Nicolas Sarkozy em França, Gordon Brown no Reino Unido, George Bush nos EUA, etc. Todos forçados a sair de cena sem remissão. Deles, apenas Berlusconi e Sócrates mantêm esperanças de regresso, estando bastante avançados no processo. O estilo de ambos, apesar das diferenças, tem paralelos evidentes. Mas temos de admitir que o magnata transalpino, que saiu depois e regressou mais cedo do que o nosso engenheiro, tem evidente primazia.

Admirando o engenho e a arte, não podemos esquecer o muito que eles devem aos tempos que vivemos. É preciso recuar às primeiras décadas do século passado para encontrar casos semelhantes, porque nessa altura o mundo enfrentava dilemas e conflitos próximos dos actuais. O rancor das acusações, o ressurgimento da retórica antidemocrática, os contínuos apelos à Grande Depressão aproximam as duas épocas. Talvez tenhamos aprendido a evitar o pior dessa evolução, mas não admira o ressurjimento do mesmo tipo de animais políticos.

A única coisa que pode fazer a diferença é a capacidade dos eleitorados em resistir ao engano. O caso italiano assusta muito, porque repete traços da antiga trajectória, embora com diferenças significativas e ainda sem Mussolinis no horizonte. Portugal começou agora o seu processo. Veremos até que ponto a raiva pelos sacrifícios, junto com o ilusionismo, conseguirão fazer que o grande beneficiário da crise venha a ser aquele que indiscutivelmente foi o seu principal responsável. Isso seria uma obra de arte incomparável.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Conto de Páscoa - por João César das Neves

In DN

Um homem tinha três filhos. O mais novo disse ao pai: "Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde." E o pai repartiu os bens entre os três. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua.

Quando o pai viu isso entrou em casa muito pesaroso. O segundo irmão, ao vê-lo tão triste, e sabendo o que tinha acontecido, disse-lhe: "Pai, aquele teu filho sempre foi má rês. Por isso te roubou. O que temos a fazer é esquecê-lo o mais depressa possível. Continuaremos felizes os três com o que ele cá deixou."

Mas o filho mais velho, que nascera de um primeiro casamento, estava tão triste quanto o pai. Ele tinha ajudado na educação dos mais novos, e muitas vezes os tivera a seu cargo quando eram crianças. Foi ter com o pai e disse-lhe que iria abandonar tudo para acompanhar o irmão que partira. Ele bem sabia que o jovem não o quereria por perto, mas haveria de o vigiar à distância, protegendo-o se fosse preciso e mandando regularmente notícias ao pai. Nesse mesmo dia, o filho mais velho encheu um pequeno saco com o essencial e partiu atrás do irmão.

O mais novo andou por várias terras esbanjando tudo quanto possuía, numa vida desregrada. O irmão nunca se deu a conhecer, mas várias vezes, sem o outro dar por isso, o conseguiu livrar de alguns sarilhos graves. A primeira vez que o jovem notou a presença do mais velho foi no Egipto, quando estava preso por dívidas. O irmão pagou-lhe a fiança e conseguiu libertá-lo daquela terra de escravidão, levando-o para uma outra onde corria leite e mel. O rapaz, um pouco surpreendido pela súbita e oportuna aparição do irmão, agradeceu a libertação, e prometeu portar-se melhor no futuro, cumprindo os mandamentos que vinham numa carta do pai, que o outro então lhe entregou.

Depois de libertado, e durante algum tempo, o filho mais novo comportou-se mais razoavelmente na nova terra. Mas em breve retomou a vida de estróina. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: "Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros." E, levantando-se, foi ter com o pai.

O filho mais velho, que nunca o tinha abandonado e andava ali por perto, ficou feliz perante a decisão do irmão, e mandou imediatamente a notícia ao pai, para que este o esperasse e o pudesse abraçar assim que chegasse.

Entretanto, o dono dos porcos, patrão do filho mais novo, ficou furioso quando percebeu que o seu escravo abandonara a tarefa. Mandou imediatamente vários servos atrás dele para que o prendessem, prometendo que lhe haveria de dar morte. O mais velho, que também regressava a casa, a uma certa distância atrás do irmão, quando viu aquele grupo apressado de homens armados, percebeu imediatamente o que tinha acontecido e interpelou-os. Ao tomar consciência da situação, ofereceu-se para voltar como seu prisioneiro em vez do irmão. Os servos hesitaram, sem saber se o patrão aceitaria a troca, mas, convencidos com os argumentos do homem, tomaram-no como prisioneiro e regressaram à fazenda dos porcos.

O patrão, ao ver regressar os seus servos com o irmão do escravo fugitivo ficou furioso. O preso explicou que de boa vontade substituiria o jovem no seu trabalho, se o senhor permitisse ao irmão voltar para junto do pai que tanto o amava. Mas este respondeu que um escravo fugitivo tinha de sofrer uma pena dura, para servir de exemplo a todos os outros. Se ele quisesse substituir o irmão, tinha de ser no cadafalso.

Então o irmão mais velho entregou-se à morte para redimir a dívida do mais novo. Foi sacrificado no patíbulo, apesar de inocente.


terça-feira, 26 de março de 2013

Aquecimentos globais - por João César das Neves

In DN 

O Inverno que agora acaba mostrou sintomas que os especialistas relacionam com a mudança climática. Um tornado na Póvoa, temporais mortais em S. Miguel, atraso na monção, temperaturas acima da escala no verão australiano mostram que o planeta sente um acréscimo da irregularidade meteorológica e alguns fenómenos invulgares. 

Certos acontecimentos estranhos na recente dinâmica económica são análogos à evolução atmosférica. Os sintomas são diferentes na China e EUA, Brasil ou Portugal, mas todos sentem mais irregularidade produtiva e alguns fenómenos invulgares. Podemos dizer assim que se experimenta também um "aquecimento socioeconómico" mundial. Este paralelo ajuda a compreender ambos os fenómenos.

O primeiro elemento é que factos aparentemente distantes podem ser gerados por uma causa comum. No clima a explicação é evidente, mas também na economia muitos acontecimentos, que parecem desligados, estão relacionados numa dinâmica global que preanuncia um período de mudança e conflito. O impasse orçamental americano e o impasse eleitoral italiano, a recessão europeia e o arrefecimento das economias asiáticas, o agravamento na disparidade ente ricos e pobres e as múltiplas emergências orçamentais, são resultado de um quadro comum de transformação. Nos últimos 20 anos a globalização e abertura comercial de múltiplas zonas, junto com as profundas transformações da era da informação, mudaram a estrutura produtiva criando perturbações em diversas áreas e transformando o sistema que conhecíamos.

O segundo facto é que esta mutação é inevitável. Aqui foi a economia quem melhor percebeu que pouco havia a opor à globalização. No campo climático os repetidos avisos aflitivos de ambientalistas, recomendando soluções drásticas, mostram como muitos ainda têm a ilusão de se poder voltar atrás. Apesar disso, e de esforços dispendiosos, era evidente há muito que o mundo nunca conseguiria habituar-se a viver com menores níveis de energia e emissões. Assim, em vez de evitar mudanças climáticas, a humanidade terá de aprender a suportá-las.

O terceiro aspecto é que, em ambos ao casos, a mudança não é o fim do mundo. Trata-se de transformações dolorosas, difíceis, exigentes mas, como todas as evoluções, com vantagens e inconvenientes. Se os desertos avançam em certas zonas, outras melhoram a fertilidade. Algumas ilhas e costas ficam submersas enquanto áreas geladas passam a habitáveis. O mesmo processo vê-se no campo económico. A concorrência dos mercados emergentes gera reestruturações produtivas e tensões sociais na Europa e América do Norte. Essas dificuldades vêm a par da maior redução de pobreza da história do mundo, no Extremo Oriente e África, que vivem a sua melhor época nos últimos séculos.

Nunca se deve subestimar o enorme sofrimento causado por ajustamentos desta dimensão na economia e clima. Adaptações sectoriais e empresariais, acompanhadas por falências e despedimentos, movimentos de populações, dívidas e rupturas são dramas bem reais, e por isso tanta gente ainda tenta evitar a evolução. As sociedades terão de alterar estruturas e costumes seculares, defender-se de perigos inesperados, conceber novas formas de trabalho e enfrentar climas diferentes. O facto de os dois "aquecimentos" virem em simultâneo ainda agrava mais os inconvenientes.

Seja nas formas produtivas e tecnológicas, nas culturas agrícolas ou nos hábitos de vida, vêm aí tempos novos que exigem respostas originais. Esta é uma evolução que a humanidade fez já muitas vezes ao longo da sua história, em geral em condições muito mais difíceis. Cabe à nossa geração vencer este novo desafio.

O mais importante é ser capaz de ajustar o essencial, manter o importante e adaptar o acessório. Em particular é urgente apoiar os mais afectados, defendendo e reafirmando a democracia e direitos humanos, que estão já a ser contestados por muitos no meio das pressões que se começam a sentir. As tentações de violência serão fortíssimas. Se cair nelas, o globo fica, não mais quente, mas carbonizado.





segunda-feira, 11 de março de 2013

A crise terrível – por João César das Neves

In DN

A Igreja passa por uma crise terrível. Por isso o Papa renunciou. Esse gesto revolucionário abre uma oportunidade para repensar tudo a fundo." Estas são, em resumo, as três teses básicas que, no simplismo habitual, a comunicação social tem divulgado sobre este tema.

Como de costume, a imprensa produz hipóteses, elabora raciocínios e outorga conclusões, sempre com pouca preocupação pela realidade. Por isso é tantas vezes apanhada de surpresa. O seu permanente sobressalto previne-nos para não levar a sério o que os media dizem sobre uma instituição que os ultrapassa espantosamente. Estas teses chegam para mostrar isto.

A suposta "crise terrível" nunca passou de uma invenção de comentadores exaltados. Por acaso a Igreja passa por uma fase particularmente feliz da sua longa história. Uma sequência de papas santos e brilhantes, unidade do clero à volta do magistério, ausência de perseguições abertas nas democracias e enorme aumento de fiéis têm sido raros nos séculos anteriores. Além disso, o vasto e profundo processo de reforma criado pelo último Concílio, sem par em qualquer instituição mundial, torna a Igreja mais ágil, sólida e diligente.

São exactamente estes aspectos, constatáveis numa análise sociológica séria, que levam muitos adversários assustados a apregoar a tese da "crise terrível". O sucesso estrondoso das múltiplas iniciativas de João Paulo II, que manteve o mundo suspenso durante 27 anos, foi continuado pelo sucesso também espantoso das iniciativas de Bento XVI. Com estilo totalmente diferente, ficou provado que a causa não era o inimitável génio pessoal do papa polaco, mas uma força muito mais poderosa que alimenta todos os papas, por serem papas.

Até o escândalo de pedofilia, prova central da tese da "crise terrível", foi mal compreendido. Primeiro porque ao lançar a campanha, os jornais, hostis ou simplesmente oportunistas, fizeram um favor precioso à Igreja, eliminando do seu seio alguns criminosos horríveis. Depois, o truque de suscitar ao mesmo tempo casos muito antigos, de locais muito longínquos, pode impressionar algum tempo, mas acaba por falhar. Qual é o interesse em fazer manchetes de acontecimentos de há 40 anos? Só face à Igreja é que os jornais chamam notícias a coisas acontecidas antes de ter nascido o jornalista que as relata. Hoje, fazendo uma devassa à vida de qualquer clérigo, os jornais prestam um excelente serviço à Igreja, mas maçam os leitores. O que assusta é só atenderem aos poucos casos de pedofilia dentro da Igreja, sem ligar aos de fora, que são a esmagadora maioria.

O outro caso que se diz motivar a renúncia do Papa prova também o oposto do que dizem. Um punhado de criminosos, aliás mais louvados que censurados, entrou na intimidade da Santa Sé sem conseguir encontrar nada de realmente demolidor. Que outro dirigente ou organização, política ou económica (incluindo a administração e a redacção de jornais e televisões), sofrendo uma fuga de informação privada com tal vastidão e detalhe, sairia tão bem quanto o Papa e a Cúria? Qualquer inspecção aos papéis privados de governos e empresas conseguiria provar tão pouco? Se se olhassem ao espelho, aqueles que comentam com ar severo o caso deveriam admitir que, apesar dos pecadilhos revelados, as fugas demonstram antes a virtude da Igreja. A «crise terrível» afinal é outra.

De facto o mundo passa por uma crise terrível. Bento XVI sempre esteve consciente dos verdadeiros dramas, e nunca se distraiu com pormenores secundários, como as tricas que ocupam os comentadores. Consciente da missão central que lhe compete, salvar a humanidade neste momento tão difícil, achou que se deveria dedicar à tarefa fundamental, a oração diante de Deus, entregando a alguém mais jovem a condução dos assuntos operacionais.

O gesto profético de Bento XVI dá a oportunidade à Igreja, não de repensar tudo, como dizem os estranhos, mas de serenamente retomar a função que lhe compete. Essa não precisa de ser repensada pois foi-lhe entregue há muitos anos, junto a um lago.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Papa - por João César das Neves

In Destak

Para que é que a gente quer um papa? É curioso que, no meio de tantos debates à volta da renúncia de Bento XVI, ninguém se incomode em fazer esta pergunta básica que, no entanto, é indispensável. Aliás, se a tivessem feito teriam sido evitados muitos dos disparates que se ouvem por aí.

Será que queremos um papa para ele nos dizer o mesmo que nós achamos? Uma grande quantidade de pessoas parece convencida disso. Estão muito indignados porque o Papa não concordar com eles em vários assuntos, da ordenação das mulheres ao aborto, do casamento homossexual ao modo de celebrar a missa. Mas se fosse para isso que quiséssemos um papa, então ele não era preciso. Bastaria abrir o jornal e ligar a televisão e ficávamos a saber esses palpites, que qualquer pensador das avenidas distila sem dificuldade.

O único valor do Papa é ser representante de Cristo. É ser neste mundo a presença de algo diferente, sublime, transcendente. Não admira que nem sempre concordemos com ele. Mas é importante lembrar que o vigário de Cristo é ele, não o comentador de ocasião. Todas as vezes que os oradores nos veiculam as suas opiniões, muito dignas e respeitáveis, devemos ser ter em conta que o Papa é outro.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O pendão da Páscoa - João César das Neves



«Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração. … Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas» (Dt 6, 6 e 9).

O Deus invisível, transcendente, sublime fez-se carne e habitou entre nós. Este facto inaudito é a base da nossa fé. Isto significa que Deus assumiu um corpo, um rosto, uma posição social, uma cultura, uma terra. O Deus que fez o mundo, amou-o de tal modo que quis viver nele e abandonou a sua sublimidade para ter uma presença corporal.

Isto significa que a nossa fé é a mais concreta, palpável, encarnada de todas as religiões. Nada na nossa fé está desligado da realidade física e concreta. Tudo é patente e visível. Desde o princípio os cristãos são um povo constituído por pessoas particulares, que se reuniam num local específico: «Reuniam-se todos no Pórtico de Salomão e, dos restantes, ninguém se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo não cessava de os enaltecer» (Act 5, 12-13). A religião cristão, apesar de toda a sua elevação espiritual, filosófica e conceptual, nunca desdenhou o povo simples e os marcos terrenos. Campanários e procissões, cruzeiros, catedrais, conventos e mosteiros, hábitos e pendões, nomes de ruas e de hospitais fazem a nossa fé presente na arquitectura e toponímia das nossas cidades, na vida corrente das nossas sociedades. Simplesmente porque «o Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14).

A Encarnação é a presença de Deus no mundo. Precisamente por isso nenhum facto cristão se tornou mais universal e mais visível que o Natal. Todo o mundo o celebra, mesmo que não seja crente, e por todo o lado nessa época se multiplicam os símbolos alusivos. Este excesso de sucesso levou alguns a notar que, presente em todo o lado, o nascimento de Cristo acabava por estar realmente ausente. Assim nasceu o estandarte com o Menino Jesus, que desde há uns anos tem decorado muitas das janelas e fachadas das casas portuguesas.

Trata-se de uma excelente iniciativa, que tem desempenhado um papel muito relevante. No meio de toda a simbólica natalícia, cada uma daquelas singelas bandeiras mostra ao mundo que alguém sente o significado profundo dessa celebração. Ao ver o pendão, instintivamente sentimos um laço profundo com as pessoas que vivem atrás daquela janela. Mais importante, aquela imagem conduz-nos, no meio da vida afogueda, a uma fugaz meditação sobre o sentido da quadra, sobre a profundidade do que estamos a viver.

Agora, por iniciativa de um sacerdote franciscano do Patriarcado, surge o estandarte da Páscoa. Se possível, este ainda é mais necessário que o do Natal. Primeiro porque o Mistério Pascal é o verdadeiro centro da nossa fé, a finalidade última da Encarnação. Por Ele fomos salvos, n’Ele encontramos a vida. Segundo porque esta quadra é socialmente muito menos visível que o Natal, e marcá-la é mais urgente e influente. Terceiro porque o longo período de Quarta-feira de Cinzas ao Pentecostes torna a dispersão mais perigosa e frequente, exigindo ainda mais um símbolo que repetidamente nos recentre no essencial.

Na primeira Páscoa da história, nas sombrias ruas egípcias sob as pragas, as portas estiveram envolvidas. «Tomareis depois um ramo de hissopo, mergulhá-lo-eis no sangue que estiver na bacia, e marcareis o dintel e as duas ombreiras da porta com o sangue que estiver na bacia» (Ex 12, 22). Hoje as portas do templo dedicado a Cristo são os lábios dos fiéis onde brilha o Sangue verdadeiro, como diz S-João Crisóstomo (cf. Catequese 3, 13, ver Ofício das Leituras de Sexta-feira santa). Mas porque não envolver as nossas portas e janelas na proclamação social do mistério que nos dá a vida?

As razões para não pendurar o estandarte são muitas e razoáveis. Tantas quantos os obstáculos da Via Sacra. Só há mesmo um motivo para o colocar. E esse está ligada à razão porque o Condenado seguiu a Via Sacra até ao fim.