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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Querido “Diário de Notícias” - P. Gonçalo Portocarrero de Almada

In i

Obrigado por me fazeres sentir a alegria de ser discípulo de Cristo, na sua Igreja e nesta obra de Deus, que tem a glória humana de não ter como Jesus, nenhuma glória humana
Que sina a minha: mal nasci, saí no jornal! Não tive culpa. Só que me aconteceu o insólito facto de ser o primeiro de três gémeos portugueses, dados à luz em Haia, a capital dos Países Baixos.
Menino e moço, recordo que em casa se lia o “Diário de Notícias”, sobretudo a sua necrologia, uma parte indiscutivelmente verídica do órgão oficioso do regime que, por isso, só podia ser objectivo na medida em que a censura o permitisse.
Depois do 25 de Abril, o mesmo diário, para se redimir do seu passado colaboracionista, entregou-se com fervor ao novo poder. Foi por estas alturas o consulado do Nobel literato que, em pleno PREC, alinhou pelas “boas práticas” da ditadura do proletariado.
Em casa, claro, continuava-se a receber o jornal, cujo obituário merecia a melhor atenção dos mais velhos da família, que aí encontravam sempre pessoas das suas relações. Para as outras verdades, as do país e do mundo, era preciso ir ao “Le Monde”, à “Time”, à BBC ou à “Deutsche Welle”.
Lembrei-me de tudo isto agora, que o “Diário de Notícias” se lembrou de devassar uma pacata obra de Deus – logo por azar a instituição eclesial em que sirvo há já alguns anos – atribuindo-lhe estranhas gestas, para além de secretos mundos e muitos fundos. Fá--lo com meias verdades, repetindo velhos tópicos, mas sem nenhuma especial originalidade.
Nada de novo, portanto. Contudo, surpreendi-me: afinal, é tão fácil fabricar um escândalo! Quer-se acusar de opulência a diocese de Lisboa? Basta recordar que as igrejas da Baixa valem muitos milhões e, portanto, o patriarcado é, na realidade, multimilionário. Pretende-se denegrir as carmelitas descalças? Escandalizem-se os leitores com a sua obrigatória reclusão e as suas arrepiantes autoflagelações. Precisa-se de caricaturar as missionárias da caridade? É dizer que as desgraçadas não têm televisão, não leram, nem podem ler, O Memorial do Convento. Interessa difamar a Companhia de Jesus? Reedite- -se o que dela disseram os que, em 1910, a expulsaram do país, sob a acusação dos jesuítas envenenarem as águas dos fontanários públicos…
A bem dizer, não há pessoa ou instituição, por mais santa que seja, que resista a uma “grande investigação sobre o seu lado secreto”. Nem mesmo o próprio Cristo. Bastaria dizer, por exemplo, que, com trinta anos, não tinha residência fixa e vivia apenas com homens, um dos quais, por certo, ladrão. Que se deixava tocar por prostitutas e, enquanto havia quem morresse de fome, aceitava ser perfumado com bálsamos caríssimos. Que pregou o amor, mas chicoteou os seus semelhantes. Que chamava a si as criancinhas e tinha, como seu amigo predilecto, um jovem adolescente, que se reclinou sobre o seu peito… Tudo verdades, a concluir numa sacrílega mentira, a que o incauto leitor seria induzido por um inquérito “rigoroso” e “objectivo”.
É lógico que seja assim. É lógico que o poder laico não possa tolerar uma Igreja livre. É lógico que os discípulos do Mestre crucificado sejam objecto do escárnio e da maledicência dos seguidores do príncipe deste mundo. É lógico que uma entidade indiscutivelmente fiel à Igreja e unida ao Papa e aos bispos, seja maltratada onde recentemente se negou o dogma católico da virgindade de Maria e se criticou o último livro de Bento XVI. É lógico que a viúva do Nobel, erigida – sabe--se lá porquê!? – em alta autoridade para os fenómenos eclesiais, seja fiel à memória anticristã do seu defunto marido que, segundo a própria, “detestava profundamente as religiões”. É lógico. Aliás, como o mundo, também o inferno deve estar cheio de gente com carradas de razão… Mas sem amor.
Querido “Diário de Notícias” da minha vida: obrigado por esta companhia, desde o meu nascimento e, presumivelmente, até à minha morte. Obrigado por me fazeres sentir a alegria de ser discípulo de Cristo, na sua Igreja e nesta obra de Deus, que tem a glória humana de não ter, nem querer ter, como Jesus, nenhuma glória humana.
Não te peço que deixes de ser o que sempre foste e, seguramente, continuarás a ser, por muitos e bons anos. Mas, se noticiares a minha morte na tua infalível necrologia, por favor, diz apenas que morreu alguém profundamente feliz.

domingo, 19 de agosto de 2012

Seudosectas - por Juan Manuel de Prada

Hace unas semanas escuchábamos a Tomás Gómez decir que «habría que elevar a rango de ley que personas que pertenezcan a seudosectas como el Opus Dei no puedan ocupar responsabilidades públicas». A Tomás Gómez, que es bocón y cachas de gimnasio, le hemos escuchado muchas machadas rocambolescas y hasta soltar un mitin desde un coche de la policía; y, como es un «echao p alante», tendemos a pensar que todo lo que sale de su boca son exabruptos o paridas irreflexivas, brotadas como un magma originario de una sesera en estado de licuefacción. Pero no.

Cuando Tomás Gómez reclamaba una ley que impidiera a personas del Opus Dei ocupar responsabilidades públicas estaba cumpliendo lealmente ese papel de liebre o avanzadilla que sus compañeros de progreso le han adjudicado. Apenas unas semanas más tarde, de modo mucho más articulado y contundente, a Andrés Ollero, magistrado del Tribunal Constitucional y miembro del Opus Dei, le organizan una ordalía, reclamando que rechace ser ponente en la resolución contra la ley del aborto vigente, y que incluso se inhiba en el debate previo a la sentencia. Y todo ello porque, a juicio de las gentes de progreso, Ollero sostiene «posiciones ideológicas extremas».

Como los lectores de ABC llevan muchos años leyendo las terceras de Andrés Ollero sabrán que es hombre bonancible y cordial, de moderación exquisita, siempre ponderado en sus opiniones, laborioso y con un intachable currículum académico. Pero, ¡ay!, Ollero es iusnaturalista; y, como tal, considera que el aborto es un crimen; lo que, para las gentes de progreso, es una posición ideológica extrema. Pero las gentes de progreso obran con cierta lógica; es la lógica del mal, pero lógica a fin de cuentas y, además, la única lógica imperante en un mundo que ha dejado de ser razonable.

No debemos olvidar que el Tribunal Constitucional al que Andrés Ollero pertenece ya estableció, en su sentencia 116/1999, de 17 de junio de 1999, que «los no nacidos no pueden considerarse en nuestro ordenamiento constitucional como titulares del derecho fundamental a la vida que garantiza el artículo 15 de la Constitución». Y, puesto que nuestra democracia no es una forma de gobierno, sino una religión de Estado, cuya Biblia es la Constitución y cuyo pontífice máximo es el Tribunal Constitucional, nuestras gentes de progreso se rasgan lógicamente las vestiduras, viendo que un reconocido miembro del Opus Dei se dispone a preparar una ponencia en la que se atreverá a discutir dogmas de fe consolidados por la doctrina del tribunal al que pertenece. ¡Hasta ahí podíamos llegar!

A Ollero le aguardan unos meses de acoso mediático que lo dejarán convertido en un ecce homo; como es persona templada y bondadosa, sabrá echárselos sobre las espaldas, y ni siquiera guardará rencor contra los orquestadores. Pero este episodio de naturaleza martirial nos confronta, una vez más, con una realidad que muchos católicos pretenden obviar: a saber, que la religión que profesan choca frontalmente con la religión del Estado, tal como ha sido fijada por la doctrina constitucional; y que, tarde o temprano, la religión del Estado tendrá que impedirles ocupar responsabilidades públicas, para que sus «posiciones ideológicas extremas», propias de una seudosecta integrista, no colisionen con el normal desenvolvimiento de las instituciones y el imperio de la ley inicua. Salvo, naturalmente, que abdiquen de tales posiciones, que es lo que la mayoría de los presuntos políticos católicos españoles ya han hecho.



www.juanmanueldeprada.com

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma questão de dragões - João César das Neves

João César das Neves

In DN

Nunca mandes saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti." Ernest Hemingway colocou a sua descrição de 1940 da guerra de Espanha debaixo deste verso do poeta seiscentista John Donne. Roland Joffé, numa abordagem ao mesmo tema, fala agora "daquele lugar, dentro de nós, onde encontrarás dragões".

Os horrores da perseguição republicana à Igreja e subsequente guerra civil nos anos 1930 são ambiente apropriado para testar valores em condições extremas. O filme There be Dragons (Encontrarás Dragões, 2011) fá-lo através de dois amigos de infância que seguem caminhos opostos. Na abominação, destaca-se a firme aposta de um deles numa linha de amor, compreensão e misericórdia, até pelo intolerável. O filme brilha pelo retrato de S. Josemaría Escrivá e da sua insólita decisão de seguir a pessoa de Cristo num clima tão adverso. E pelos frutos que daí saem: "Quando perdoamos libertamos sempre alguém: nós próprios."

O belíssimo e profundo enredo valeria por si, com qualquer protagonista. Mas deve sublinhar-se a coragem do autor/realizador em escolher este em particular. A Opus Dei está bem estabelecida no imaginário contemporâneo, mas como encarnação extrema do clericalismo mais sinistro. Joffé não entra em apologéticas. Limita-se a retratar-lhe as origens, dando pistas preciosas para a compreensão da sua natureza. Esta "obra de Deus" nasceu no calvário.

A questão religiosa da nossa Primeira República foi fenómeno paralelo, muito menos cruel. Esse é o tema de O Sol Bailou ao Meio-Dia. A Criação de Fátima, de Luís Filipe Torgal (Tinta da China, 2011), versão revista de uma tese já editada em 2002. O volume trata a história dos primórdios do culto em Fátima e das polémicas que o rodearam. Apesar de hostil, é objectivo, rigoroso e fundamentado e traça um quadro sério e sólido dessa realidade.

O livro pretende demonstrar duas teses que não consegue. Primeiro que "a exposição dos ditos acontecimentos, ocorridos entre Maio e Outubro de 1917, foi desde então sucessivamente reformulada pelos inquiridores e pelos cronistas católicos. (...) A nova e mais elaborada história de Fátima que hoje conhecemos (...) foi, por conseguinte, construída a posteriori pelos historiógrafos católicos e sustentada pela hierarquia da Igreja" (p. 20-21). Leitura atenta do texto, aliás fundamentado em documentos publicados em cuidadosa edição crítica do Santuário, não permite vislumbrar tal manipulação.

A segunda tese é que "foi a Igreja (e/ou certos sectores a ela ligados) que impôs Fátima" (p.20), aproveitando-a para os seus propósitos. Segundo o autor, a Igreja "evoluiu de uma atitude de expectativa prudente (entre Julho e Setembro de 1917), para uma postura de promoção comedida (desde Outubro de 1917) e, mais tarde (sobretudo a partir de 1922), para a apologia evidente das aparições" (p. 21). Seria razoável esperar outra coisa? Era lógica ou até possível a "absoluta imparcialidade" (p. 95) que o livro parece preferir? Não foi aquela evolução que o cardeal Cerejeira retratou ao dizer "foi Fátima que se impôs à Igreja"?

Apesar disso e alguns erros pontuais, o livro fornece um relato rigoroso e informativo. O que mais ressalta é a fragilidade dos argumentos dos críticos de Fátima. Os anticlericais, sem o menor interesse pelos factos, limitam-se a opor-se por razões ideológicas: o que quer que aconteça, aparições e milagres são impossíveis. O mais divertido é chamarem a si mesmos "livre-pensadores".

Outro aspecto curioso que o livro manifesta é o desprezo que os intelectuais têm pelo povo, em geral, e as mulheres em particular. Afirmando-se democratas e liberais, acusam sempre as massas populares de boçais e supersticiosas, simplesmente por não seguirem os seus dogmas positivistas que têm de ser verdadeiros.

Em 2003 o americano Dan Brown quis envolver a Opus Dei, protagonista do filme de Joffé, numa história tonta de superstição, crime e morte n'O Código da Vinci. Há mais de 90 anos que muitos pretenderam fazer o mesmo com Fátima. É sem dúvida uma questão de dragões interiores.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt