sábado, 6 de junho de 2009

Hetero ou homo?

1. a) A interrogação que intitula este texto seria há algumas décadas inteiramente incompreensível. Nos dias de hoje, porém, em virtude de campanhas sistemáticas, cientificamente planificadas (a documentação que o comprava é abundante), de modo descarado ou subliminar, contando com o apoio cúmplice de alguns magistrados, jornalistas, publicitários, membros do clero, políticos, psiquiatras, psicólogos, juristas, capitalistas, etc., – de há muito que estes sectores são objecto de infiltrações e de recrutamentos cuidadosamente preparados[1], como aconteceu, para dar um exemplo, com o marxismo nos princípios e meados do século XX -, nos dias de hoje, dizia, perante esta questão logo se pensa, condicionadamente, que há duas classes de seres humanos, sendo que uns são heterossexuais e outros homossexuais, entendendo-se por estes termos uma marca identitária que define o ser de cada um. É como se fossem de espécies diferentes. A pessoa deixa de ser substantiva, e passa a adjectiva.

b) Este ponto é de capital importância e é nele que se decide tudo o mais. Por isso debater estas questões sem primeiro esclarecer este assunto corresponde a derrota certa para quem defende a verdade e o bem de todos. Importa, por isso, afirmar com clareza que o ónus da prova da reivindicação que essas pessoas fazem recai sobre elas. Como não existe prova alguma de que a homossexualidade seja inata ou imutável, pelo contrário, as evidências disponíveis mostram exactamente o contrário, os gay e homossexualistas procurarão fugir à questão desviando a atenção através de ataques aos adversários ou abordando outros temas. É imprescindível não ceder e permanecer firme até à demonstração cabal da inconsistência da posição deles. Não é que com discussões ou debates se tenha a pretensão de mudar a opinião obstinada dos opositores. O ponto é esclarecer quem ouve ou lê. Quem entende isto perceberá logo a falsidade e vacuidade de todas as suas reivindicações, topando de imediato o dislate e a deformidade enormes do dito “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Quem não o compreender, também não encasquetará o resto.

c) Pessoa homossexual (reparem que não escrevo o homossexual) é aquela que tem comportamentos sexo/genitais com pessoas do mesmo sexo. A fantasia da chamada “orientação” sexual não passa de um estratagema engendrado para alcançar os tais objectivos de persuadir as gentes do tal absurdo da identidade. O termo “orientação” sexual não passa de uma palavra talismã, que de tanto usada é acreditada, dispensando as pessoas de reflectir e pensar, originando, pelo seu “poder mágico”, uma submissão acéfala, em manada.

É claro que há pessoas que sentem atracção genital por outras do mesmo sexo. Mas isso não constitui, de modo nenhum, uma identidade, uma orientação. Pois se assim fora teríamos de admitir a pedofilia, a pederastia, o incesto, a bestialidade como orientações ou identidades sexuais, merecedoras da mesma aceitação, defesa e promoção que a homossexualidade. Se a pessoa, independentemente dos seus actos, pode ser definida, pelas suas inclinações ou atracções emocionais e genitais, então teremos necessariamente de reivindicar o “direito ao casamento” para o pedófilo e o pederasta (“amor inter-geracional”), para o incestuoso (“amor inter-familiar”), para o zooerasta (“ amor inter-espécies”).

c) A verdade, porém, é que toda a pessoa é de si heterossexual. Algumas pessoas[2], heterossexuais, padecem de desordens de identidade de género, experimentando atracção por outras do mesmo sexo. Algumas delas cedem a esse distúrbio e têm comportamentos sexuais depravados e degradantes. Dos que optam por este tipo de procedimento mesmo que durante bastante tempo, um número muito significativo descobre a verdade e, independentemente da atracção, alcança viver em castidade, não só a sexual/genital também a do coração. Um outro número considerável consegue reencontrar a sua inerente heterossexualidade, vivendo-a saudavelmente no casamento ou no celibato. São felizes, tanto quanto é possível sê-lo nesta vida, e não têm a mínima intenção de regressar ao inferno que experimentaram. Estas recuperações podem ocorrer através de terapia, por exemplo a reparatória, ou pela conversão religiosa, ou por uma mistura de ambas.

2. Quem julga que a aprovação civil do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo não tem implicações na sua vida e na dos seus está muito enganado. Uma vez que a sua legalização será feita em nome da igualdade e da não discriminação, a “lei” funcionará como a do racismo e similares[3]. Por isso:

a) A “bondade” dos comportamentos sodomitas e a equiparação do seu “casamento” com o matrimónio será ensinado nas escolas, desde a mais tenra idade. As crianças serão submetidas a experiências, a que chamam jogos, para aprenderem a lidar com a expressão afectiva e sexual, independentemente do sexo, com a finalidade de conhecerem a sua “identidade”.

b) Nenhuma instituição, caritativa, eclesial, de ensino, de grupos juvenis, poderá opor-se à contratação e emprego de sodomitas assumidos, como hoje se diz. Assim nos escuteiros, na catequese, nas Igrejas, nos colégios, nos orfanatos, etc., teremos chefes, monitores, professores, catequistas que abertamente praticam a sua homossexualidade. O problema não é somente o do péssimo exemplo e de modelos desadequados, mas também o de abuso de menores que é, proporcionalmente, muito mais elevado por parte das pessoas homossexuais.Com o tempo, os próprios seminários serão obrigados a admitir sodomitas activos.

c) Os padres, sob pena de prisão, serão proibidos de pregar contra os pecados sodomitas e até de ler em público as passagens da Sagrada Escritura que os condenam como abominações. Em qualquer emprego, qualquer pessoa poderá ser despedida por expressar a sua discordância, mesmo que do modo mais educado e gentil, com os comportamentos homossexuais. Tornar-se-ão obrigatórias sessões de formação nas empresas para combater a homofobia, entendida como qualquer tipo de discordância daquele género de comportamento.

d) Aos oficiais ou funcionários das conservatórias de registo civil que por razões filosóficas, de consciência, ou religiosas se oponham a esse tipo de relação não lhes será reconhecido o direito à objecção de consciência. Ou a violentam ou serão despedidos. Um fotógrafo profissional que pelas mesmas razões se recuse a aceitar esse trabalho será posto em tribunal por discriminação. O mesmo acontecerá a quem não queira alugar espaços para esse tipo de cerimónias ou para as “bodas”; a quem se recuse a vender ou alugar um andar a esses “casais”.

e) Se em nome da igualdade se aceita o “casamento”, então será inevitável, por mais juras que agora façam em contrário, a legalização da adopção de crianças, secundarizando o seu bem, por parte destes novos “casais”. Evidentemente que o estado providenciará, com o dinheiro dos nossos impostos, a produção de crianças através da fecundação artificial para satisfazer a procura destes “casais”. Uma vez isto alcançado, a próxima batalha será a reivindicação do “casamento” religioso. As confissões que a ele se prestarem serão toleradas, as que a ele se opuserem serão perseguidas e proibidas em nome dos direitos humanos, da luta contra a discriminação.

f) Os psiquiatras e psicólogos que aceitem fazer terapia àquelas pessoas com atracção genital indesejada por outras do mesmo sexo, que a peçam livremente, serão objecto de desdém público, de campanhas de calúnia, de perseguição e finalmente proibidos de exercer. Por outro lado, com o decorrer do tempo, todo aquele que não se sentir bem e lutar contra a sua desordem será tido e tratado como enfermo que deverá recorrer a uma “terapia”.

3. Tudo isto, e ainda o mais que se poderia dizer, parecerá aos ingénuos e ignorantes fruto de uma mente delirante e alucinada. Mas basta estar razoavelmente informado, não evidentemente pelos grandes órgãos de comunicação social que sistematicamente censuram os factos e acontecimentos que não lhes agradam, para saber que muitas destas coisas já vão acontecendo por esse mundo fora e que as outras estão em preparação. Pode durar mais ou menos tempo, algumas destas coisas não acontecerão imediatamente, outras nem brevemente, mas acabarão por suceder inevitavelmente. A documentação é vastíssima e inegável. A dificuldade não é encontrá-la, mas sim realizar uma síntese de tanta abundância. À honra de Cristo e de seus servos S. Carlos Lwanga e companheiros[4]. Ámen.

Nuno Serras Pereira

02. 06. 2009


[1] Nem todos são “gays”, para usarmos a terminologia em voga, isto é, pessoas que têm comportamentos sodomitas e advogam uma ideologia de reengenharia social para alcançarem os seus objectivos. Também há os homossexualistas, quer dizer, aqueles cujo comportamento sexual é com pessoa de sexo diferente mas que partilha da ideologia gay.

[2] Cerca de 1,8% da população

[3] Será preciso lembrar que entre a cor da pele (racismo) e o comportamento (homossexualidade) não há semelhança alguma?

[4] Estes Santos foram martirizados, com extremos de crueldade, por, em virtude da sua Fé, se negarem e oporem à lascívia sodomita do seu rei, em finais do século XIX.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Carta a J. Sócrates: Mostrar a verdade - Imagens de aviso, salvam vidas

Comunicado Da Federação Portuguesa pela Vida (FPV)

“Mostrar a verdade - Imagens de aviso, salvam vidas"

A Federação Portuguesa pela Vida comunica que enviou um fax ao Sr. Primeiro-Ministro do seguinte teor.

1. A Organização Mundial de Saúde lançou uma campanha anti-tabagismo com o lema Mostrar a verdade - Imagens de aviso, salvam vidas, para impelir os fumadores a deixarem o vicio.

2. A Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo concorda com a colocação de imagens chocantes nos maços para combater o marketing e levar os fumadores a ter vergonha de exibir o seu vício;

3. A Sociedade Portuguesa de Pneumologia afirma que a prevenção do tabagismo está a falhar e que: “o tabaco deveria ser mais caro, deveria haver mais acções de fiscalização e campanhas de sensibilização, assim como o acesso universal a consultas de cessação tabágica e linhas telefónicas de apoio.”

4. Eis 3 instituições unânimes a dizer: para diminuir comportamentos errados é preciso desincentivá-los e fiscalizá-los, em ordem a mudar mentalidades.

5. A FPV recorda que tanto os opositores como os defensores da liberalização do aborto, incluindo o Sr. Primeiro-Ministro, disseram querer diminuir os abortos; e houve defensores do SIM a anunciar que a liberalização do aborto faria diminuir o seu número.

6. As organizações anti-tabagistas propõem um plano completo de combate, adequado a quem quer combater eficazmente uma prática social.

7. Convidamos o Sr. Primeiro-Ministro para, em conjunto, aplicarmos a mesma fórmula e cumprirmos o objectivo comum de acabar com o aborto.

8. Lancemos a campanha “ABORTO: Mostra a verdade- imagens de aviso salvam vidas”

9. O consentimento para o aborto deve ser assinado na ecografia da menina a abortar;

10. Vamos exibir imagens de abortos para combater o marketing e dissuadir os promotores do aborto de divulgarem essa prática;

11. O aborto tem de ser dissuadido por um preço social elevado e deve deixar de, como agora, ser totalmente grátis, e com direito a subsídio e licença de maternidade;

12. Haja consultas obrigatórias que dêem alternativas à mulher empurrada para o aborto, em vez da situação actual em que os médicos que oferecem alternativas são obrigados a assinar um papel que os proíbe de ajudar grávidas em dificuldades.

13. O Governo tem de apoiar as centenas de associações de todo o país de modo a criarem uma rede nacional de apoio a grávidas em dificuldades;

14. Seja criada uma linha paga pelo Governo e a funcionar 24h/dia apenas para aconselhamento que dissuada da prática do aborto, ou que assessore em lidar com as suas consequências físicas, psíquicas e sociais.

15. Lance o Governo uma campanha de sensibilização para os gravíssimos efeitos do aborto, quer para a criança morta, quer para a mãe, quer para o pai, quer para os irmãos, avós, etc.

Lisboa, 3 de Junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Resistência contra o Nacional-sexualismo totalitário - Comunicado

NÃO à IMPOSIÇÃO da inclusão OBRIGATÓRIA da educação sexual nas escolas!

[Projecto-Lei Projecto Lei 660/X (PS)]

Os cidadãos Portugueses, nomeadamente Pais com filhos em idade escolar, que em número significativo e em devido tempo fizeram chegar a sua voz à Assembleia da República colocam as questões abaixo às quais exigem respostas:

a) As escolas já fazem a explicação científica completa da reprodução humana. Mas aos políticos não basta. Agora o que querem é doutrinar os seus valores e a sua visão do homem;

b) Há mais de 300 modelos de educação sexual já testados, muito distintos nos objectivos e resultados. Não percebemos com que direito quer o parlamento português, entre os 300, impor 1 modelo único, uma espécie de “nacional-sexualismo” totalitário.

c) Queremos que nos dêem a prova científica de que “o” modelo “nacional-sexualista” já foi testado noutros países e deu os resultados pretendidos. Onde diminuiu o número de gravidezes adolescentes? Onde diminuiu o número de infecções sexuais?

d) Queremos ver as actas da Comissão parlamentar que debateu esta lei para saber quais foram as provas científicas apresentadas.

e) Exigimos que cada deputado nos responda a estas perguntas: acha que educou bem os seus filhos? Acha que foi tão exemplar que tem o direito de impor as suas convicções aos outros?

f) Queremos saber que “impacto ético” se prevê que este modelo “nacional-sexualista” venha a ter.

g) Há pessoas que querem esse modelo para os seus filhos, e estão no seu direito. Mas têm o direito ao modelo e ainda o direito à prova de que este modelo foi sujeito a um controle de qualidade cientificamente sólido.

h) Há pessoas que não querem este modelo, e também estão no seu direito.

i) Rejeitaremos, até ao limite das nossas energias, a interdisciplinaridade do modelo “nacional-sexualista” pois é a forma de o tornar compulsivo e anti-democrático, e por sexualizar de forma obsessiva todo o tempo escolar.

j) Se nós quiséssemos dar preservativos e contraceptivos aos nossos filhos não faltariam caixas nas nossas casas; sabemos muito bem onde os podemos ir buscar e de graça. Srs deputados: não finjam que não percebem!

k) Esta lei de educação sexual humilha de novo os professores: considera-os uns “pais indignos” de educar sexualmente os próprios filhos; mas uns “professores hiper-habilitados” para educar sexualmente os filhos dos outros;

l) Rejeitamos o ataque cobarde do Governo aos professores: primeiro ata-os de pés e mãos e atira-os à água para avaliar o seu mérito natatório; agora, obriga-os a leccionar matérias que não dominam e que, na maioria, não subscrevem.

m) Os nossos filhos não são da sociedade nem da comunidade escolar. A educação dos filhos é um direito/dever dos pais que é indisponível: nem os pais podem prescindir dele nem o Estado lho pode retirar.

n) Esta lei da educação sexual é uma tirania ilegítima e não científica imposta às crianças;

o) Esta lei da educação sexual é uma intromissão intolerável na esfera de liberdade das famílias;

p) A Plataforma vai lançar nos próximos dias um vasto conjunto de iniciativas para implantar a resistência a nível nacional.

ABAIXO A TIRANIA
PELA LIBERDADE DE EDUCAÇÃO
PELA LIBERDADE DE PENSAMENTO
CONTRA O “NACIONAL-SEXUALISMO”
VIVA A RESISTÊNCIA
VIVA PORTUGAL

Portugal, 3 de Junho de 2009

Pela Plataforma,

Artur Mesquita Guimarães – V. N. Famalicão

Fernanda Neves Mendes – Leiria

Miguel Reis Cunha - Algarve

Tlm. 963 408 216

info@plataforma-rn.com

http://www.plataforma-rn.com

domingo, 31 de maio de 2009

Advertido por Deus


1. Em virtude daquela loucura infinita que só o Amor e a Misericórdia que Deus é podem explicar fui Ordenado sacerdote no dia de Santa Maria Goretti, 6 de Julho de 1986. Não foi por acaso que na pagela que fiz distribuir, segundo um costume antigo, citei o Salmo 115 (116): “Como agradecerei ao Senhor tudo quanto fez por mim? Elevarei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor”. Totalmente incapaz de retribuir em gratidão os milagres que Ele operou em mim só podia incorporar-me naquela acção de graças que é o Sacrifício Eucarístico de modo que agindo na Pessoa do próprio Jesus Cristo fosse Ele mesmo a minha Gratidão, só assim condigna. O Cálice da Salvação é o Sangue de Cristo Ressuscitado e Glorioso, que Se torna presente quando na consagração o sacerdote diz: “Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do Meu Sangue …”. Daí quem em grande parte a minha resposta à vocação (ao chamamento) sacerdotal, a que nunca me teria atrevido se não fora por uma atitude de Fé na orientação do meu director espiritual, fosse motivada ou marcada por esta gratidão e pela vontade de proporcionar a todos os que viesse a encontrar e que estivessem longe de Jesus Cristo a mesma experiência de Redenção que me tinha sido concedida, sem mérito nenhum da minha parte.

No seguinte mês de Outubro fui enviado para o nosso convento em Coimbra. A comunidade era constituída pelo P. Mário Branco, famosíssimo pregador, poeta, tio do cantor José Mário Branco, o P. Veiga Araújo, confessor de nomeada, exímio no acompanhamento espiritual, o P. Ilídio de Sousa Ribeiro, Doutor em filosofia e escritor, o P. Carlos Barbosa, Doutor em Teologia Dogmática, antigo reitor do colégio dos órfãos, o Frei Andrade Café, seminarista, notável pelo seu espírito de serviço e o Frei Joaquim, um santo.

O frei Joaquim era um irmão de 80 anos que se destacava por passar despercebido. Dormia, comia, trabalhava muito e rezava imenso. Quando tinha algum tempo livre dedicava-o sempre a visitar os presos e os doentes, levando-lhes palavras de conforto, de consolação, de esperança, ensinando-lhes com simplicidade a confiança em Deus, a devoção à Virgem Santíssima, o amor à Igreja.

A sua mansidão, suavidade e humildade eram verdadeiramente singulares. A consciência que tinha da transcendência do “Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor” era profundíssima e por isso passava longos tempos completamente prostrado diante do Sacrário. E essa distância imensa a que se punha da Divindade, esse nulificar-se, essa percepção de ser mendigo do Ser, ocasionava uma radical proximidade de Jesus Cristo, que derramava na sua alma sobreabundantes tesouros da Sua graça.

Viver com um santo, ao contrário do que se possa pensar, nem sempre é fácil, podendo mesmo ser árduo. E a razão é simples. A sua vida é uma luz que continuamente descobre os nossos erros, defeitos e pecados. Não é que ele no-los aponte, só que na presença da sua luminosidade torna-se patente aquilo que antes não víamos. E a descoberta dos nossos monstros interiores, para usar uma expressão de Jean Vanier, é, pelos menos ao princípio, assustadora. Claro que acaba por ser sempre proveitoso, porque nos “obriga” a uma conversão contínua, a uma humildade crescente. Mesmo o processo de aceitação da perfeição do outro tem as suas etapas dificultosas, uma vez que o nosso pecado para se esconder aos nossos olhos, procura encontrar no outro imperfeições ou defeitos com que se irritar. Mas a singeleza e a inocência terminam por triunfar forçando-nos à rendição.

2. Quando cheguei a Coimbra eu ainda não conhecia este varão de grandes virtudes a não ser de um ou outro encontro ocasional, quando ele nas férias vinha a Lisboa para as passar cuidando de prisioneiros e enfermos e deter-se em adoração diante de Jesus sacramentado. Não fazia pois ideia do que me esperava. Mas foi logo na primeira Missa, em dia de semana, pelas 19h e 30m, que celebrei na nossa Igrejinha na Av. Dias da Silva que Deus humanado me advertiu, através dele.

Chegada a hora da Comunhão, como tivesse consagrado uma única partícula, dirigi-me ao Sacrário e retirei a única Píxide que lá havia para distribuir o Pão da vida à assembleia que participava no Santo Sacrifício, no Banquete Sagrado. Colocada em cima do altar para retirar a tampa, senti uma resistência. Tornei, com mais força, a tentar destampar; em vão. Repeti; nada. Insisti; impossível. As pessoas esgazeadas esperavam silenciosas na fila para a Comunhão. Atrapalhado, envergonhado, corado, divisei entre o povo um senhor espadaúdo e alentado, de idade madura e comportamento devoto. O frei Joaquim, como era seu costume, entoava cânticos do ambão e enlevado como estava de nada se apercebia. Com um olhar implorante fiz um trejeito ao senhor corpulento que logo entendeu o meu pedido. Com passo decidido e firme, embora solene, subiu ao altar e tentou abrir a Píxide Sagrada. Não conseguiu. Esforçou-se mais; falhou. Ajuntei-me a ele para intensificar e revigorar o empenho; intento gorado. Incomodado em extremo pela situação, só me lembrando de Nosso Senhor sofrendo tratos às mãos dos ímpios, ali de novo humilhado, suscitando o acontecimento um enorme embaraço e assombro, agradeci a generosidade e gentileza ao senhor e dirigindo-me a todos pedi perdão e convidei-os a fazerem a Comunhão Espiritual. Enquanto se retiravam para os bancos, peguei no vaso Sagrado para o colocar de novo no Sacrário. O frei Joaquim, que de nada se tinha apercebido, dirigiu-se então para mim, naquele seu passo apressado e hesitante que fazia-me lembrar o E.T., pedindo que não esquecesse de lhe dar o Senhor sacramentado. Comuniquei-lhe, com aquela voz segredada própria destas ocasiões litúrgicas, que a Píxide não abria. Ao que ele logo retorquiu como uma brisa leve mas firme: abre, abre. Eu confesso, que apesar de estar com o Senhor nas mãos e junto ao coração, só pensei: agora só me faltava mesmo a teimosia de um velhote! Mas evidentemente não quis discutir ali o assunto nem fazer de conta que não tinha ouvido. Por isso regressei ao altar e coloquei o recipiente sagrado em cima do corporal, pensando para comigo que ele não teria outro remédio senão render-se à evidência. O frei Joaquim aproximou-se e com dois dedos, o polegar e o indicador, agarrou uma pequena cruz, frágil, inclinada, como que a partir, que encimava a tampa, puxou ao de leva e esta abriu! Ouviu-se uma gargalhada geral na assembleia. Exclamei graças a Deus! O povo sossegou na sua hilaridade e distribui a Sagrada Comunhão.

3. Meditando no acontecimento, pensei para comigo, vens cheio de erudições universitárias, lestes milhares de páginas ao longo do curso e não foste capaz de dar Jesus Cristo aos outros. Chamaste um homem cheio de vigor como se a sua energia resolvesse o assunto. Aprende pois que não é a capacidade nem as forças humanas que são capazes de levar Jesus aos outros. Só a santidade o consegue fazer. É na fraqueza que se revela a força, o poder e a sabedoria de Deus. E a chave para chegar a Jesus é só uma: a Cruz. Deus advertiu-te; toma nota. À honra de Cristo. Ámen.

Nuno Serras Pereira

28. 05. 2009