domingo, 3 de fevereiro de 2013
Crer na caridade suscita caridade - Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Liliana e os seus dez filhos, uma parábola sobre o que distingue uma sociedade decente - por José Manuel Fernandes
Estas incongruências reforçam a convicção de que houve neste processo muita inumanidade e, porventura, algum preconceito. Por isso ele é, também, exemplar sobre alguns dos males da nossa sociedade.
Primeiro que tudo, o problema da imposição da laqueação de trompas. O tribunal, apoiado pela corporação dos juízes - da associação sindical a um comunicado apócrifo do Conselho Superior da Magistratura -, sustenta que a decisão de tirar os filhos à mãe nada teve a ver com o facto de esta, por razões religiosas, não aceitar realizar aquele tipo de operação. O tribunal diz até que Liliana a "aceitou" num acordo com os técnicos da Segurança Social. O que não deixa de ser extraordinário, pois aparentemente o tribunal não se interrogou sobre as condições em que Liliana terá sido levada a aceitar um "acordo" que, sendo conhecida a sua religião, mais soava a imposição. Por outro lado, conforme relatava o último Expresso, este tipo de imposição está a tornar-se muito habitual na Grande Lisboa. A "sugestão" vem por regra de técnicos da Segurança Social, as destinatárias são quase sempre mulheres de origem africana. É uma solução expedita que desobriga os técnicos e lhes permite passar o problema ao hospital, altura em que os serviços lavam dele as mãos.
Mesmo que o tribunal não tivesse considerado a falta à laqueação de trompas uma questão relevante - e considerou, como se verifica lendo as 42 páginas do acórdão -, a verdade é que em momento algum questionou a validade da "sugestão". Mais: apesar de o acórdão descrever a situação familiar do pai das crianças, um muçulmano com três mulheres e três famílias diferentes, em nenhuma passagem há qualquer referência ao facto de Liliana ser muçulmana, como se as suas crenças não tivessem qualquer importância nas suas opções e não devessem ser respeitadas.
Não está em causa saber se concordamos com as opções de Liliana, nem sequer o que possamos pensar de alguns aspectos da religião muçulmana. O ponto, como notou esta semana José Tolentino Mendonça, é que "é trágico não perceber-se que a ofensa à liberdade religiosa coloca em causa a liberdade em sentido absoluto, a liberdade de nós todos". E foi a liberdade religiosa de Liliana que foi posta em causa neste processo.
A leitura da sentença é muito instrutiva. Não quero ser injusto, pois não pretendo conhecer todos os detalhes do caso, mas a forma como é descrita a intervenção dos diferentes serviços sociais é reveladora de uma frieza e de rotinas burocráticas que afligem. Em certos períodos visitavam a casa de Liliana de três em três meses, concluíam que ela ainda não estava a cumprir com todas as "sugestões", faziam mais um relatório e ficavam à espera que um qualquer milagre ocorresse entretanto. Por exemplo: os papéis da cabo-verdiana não estavam em ordem e por isso ela não podia receber apoios sociais (só recebia abono de família, num certo período 175 euros); os técnicos determinavam então que tinha de ir tratar dos papéis; ao mesmo tempo condenavam-na por às vezes deixar os filhos mais novos à guarda dos mais velhos e constatavam que o pai só ia a casa alguns dias por semana. Pergunta-se: mas como queriam que ela fosse tratar dos papéis? Podia encontrar outros exemplos, que o padrão seria sempre o mesmo: olhava-se para aquela família com os olhos de quem tem uma família normal e exigia-se a uma mãe com nove filhos que lhes desse os banhos que se dão numa casa da classe média, mesmo quando se reconhecia que a água estava cortada ou o esquentador avariado.
Não duvido que, pelo menos em alguns dos períodos, aquela família era muito desorganizada, que aquela mãe não cumpriria com todas as obrigações que hoje se esperam de uma mãe, mas só por uma vez se encontrou uma resposta adequada para a situação: quando uma técnica da organização não-governamental Movimento em Defesa da Vida passou a acompanhar o processo. Ia a casa da Liliana quatro vezes por semana, levou-a a Cascais a tratar dos papéis e enquanto a colaboração se manteve a evolução foi notável. Não é possível deixar de pensar que isso também sucedeu porque esta organização se baseia na dedicação de voluntários e nos serviços públicos há demasiado espírito "das nove às cinco" e um desejo inconfessável de que "ninguém venha com mais problemas". Não é sempre assim, mas é demasiadas vezes assim. Talvez porque o sentido de humanidade de uma sociedade diminua consoante temos mais leis e mais funcionários a tratar de nós, e menos obrigação sentimos de olhar para quem está ao nosso lado e possa precisar de ajuda. A simples existência de serviços sociais é nisso muito eficaz: alivia-nos a consciência.
Chegamos assim à questão do equilíbrio da sentença - até porque a decisão de dar um filho para adopção é a solução- limite, a solução para casos extremos. Neste caso, retirar sete dos dez filhos a uma família onde se admite que há amor e carinho, onde não há maus tratos, abusos sexuais ou dependência de drogas, onde podem faltar umas vacinas no boletim de saúde mas onde as crianças têm aproveitamento escolar muito razoável, é incompreensível. Se houvesse violência ou abandono, o que se decidia? Condenava-se a mãe à forca e o pai ao exílio?
Aquilo que parece ser proibido, seguindo a lógica da sentença, é ser pobre e ter muitos filhos. Não está lá escrito, mas é o que está implícito numa declaração do juiz Rui Rangel ao PÚBLICO, em que defendeu que os pais "não podem ter os filhos que querem" se não tiverem condições. Ficámos sem saber o que sugere nesses casos. Talvez a castração, pois é o passo que falta dar.
Em todo o acórdão se nota que as acusações àquela família oscilam permanentemente entre ela não ter condições de vida tranquilas, não haver dinheiro suficiente ou a casa ser pequena, e a mãe (sistematicamente tratada como "a progenitora") não cumprir com as sugestões dos técnicos, sendo culpada de desorganização. Algumas das coisas que lhe fizeram são mesmo inauditas e impensáveis se se tratasse de alguém mais diferenciado e com advogado constituído. Basta referir que Liliana foi convocada para ir a tribunal sem saber ao que ia, que chegou e ouviu a leitura da sentença secamente, que depois não pôde levantar uma cópia porque era sexta-feira e os serviços já tinham fechado, que teve de lá voltar na semana seguinte e acabou assim por falhar o prazo do recurso por 24 horas. Kafkiano, no mínimo.
Uma sociedade decente não é uma sociedade com muito "Estado social", muitos serviços públicos de assistência, muitas instituições de acolhimento e muita burocracia. É sim uma sociedade que sabe olhar para os seus vizinhos e ajudá-los, que respeita e valoriza as famílias e que só se intromete no espaço de liberdade dos cidadãos quando isso é mesmo inevitável. Não me parece que numa sociedade decente o Estado e os seus agentes se comportem como neste caso da Liliana. Mas todos os que, nas suas relações, a podiam e deviam ter ajudado mais, como a sua comunidade de Fé, também não estão ilibados.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Usurpações aterradoras - por Nuno Serras Pereira
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
O desafio da geração - por João César das Neves
A tentação da revolta e desânimo é bem compreensível. O pior da conjuntura, o verdadeiro mal que cria no tecido social é a surpresa, a desilusão, a indignação. Confiávamos no sistema que faliu e surgiu o oposto do prometido. Muitos sofrem muito, mas o que mais ocupa os nossos protestos é o desalento, a queixa, a fúria. Este país deixou-nos outra vez ficar mal. Ouvimos muitas histórias degradantes de injustiças, mentiras, direitos violados, inocentes sofrendo, corruptos e burlões. Grande parte é falsa, pois a fúria cria o exagero, mas muitas são verdade. Assim, multidões de argumentos justificam a atitude negativa. O efeito de todas é sempre promover propostas repulsivas, nunca construtivas. A receita é denúncia, revolta, violência, nunca compreensão, solidariedade, perdão.
Perante a indignação é fácil esquecer os valores que sempre guiaram a nossa vida, ou que dizíamos que guiavam em tempos mais serenos. Vemos pessoas honestas dizer e fazer coisas brutais. Quantos cidadãos pacatos não repudiam agora a lei e a autoridade, rejeitam a democracia, desprezam o País, recomendam violência e revolução, agridem o próximo? Todas estas atitudes justificam-se como luta pela justiça, mas apenas produzem vingança. Foi assim que surgiram as maiores barbaridades da história: Hitler e Ben Laden diziam responder a ataques. Invoca-se a dor e a iniquidade, mas isso apenas revela a fragilidade das antigas convicções, renegadas logo que testadas.
Perante o embate é possível subir ou descer. Podemos enfrentar ou criticar, inovar ou gemer, criar ou agredir. É agora que o nosso carácter, a fibra, as raízes, as convicções profundas mostram o seu valor. O embate é brutal e muitos cedem. É fácil desanimar, desistir, acusar, insultar, agredir, odiar, mas o problema fica na mesma. Um pouco pior. Difícil é subir ao nível da dificuldade e enfrentá-la. Vencer ou perder, mas encará-la. Como o fizeram as gerações antigas em encruzilhadas bem mais duras.
O pior da crise não é o desemprego, as falências, a pobreza, o desânimo. O mais negativo não é o peso financeiro, a recessão económica, o choque social, a desorientação política, a paralisia cultural, o bloqueio institucional. O pior da crise é o ódio. Só o ódio poderia realizar as irresponsáveis previsões catastrofistas que dominam a imprensa. O ódio é a única força que pode perpetuar o mal, deixando cicatrizes na economia, na sociedade, na política e na cultura. A situação justifica repulsa, angústia, desânimo, até mesmo desespero ou revolta. Mas não pode justificar o ódio, porque nada o justifica. O ódio nunca nasce das circunstâncias, mas da atitude face às circunstâncias. O ódio, mesmo mascarado de justiceiro, nunca tem razão. É sempre um mal arbitrário, abusivo, inaceitável.
Portugal vencerá o teste, como venceu outros muito maiores. Da crise nascerá um país mais justo, dinâmico e equilibrado. A única dúvida é como cada um de nós se coloca neste processo. Como em épocas passadas, podemos estar do lado do futuro ou da reacção. Podemos desistir, protestar, exigir, gemer, insultar ou, pelo contrário, encarar as dificuldades, procurar resposta, construir a solução. Destes, apenas destes sairá o novo Portugal. Não é do Governo, política, troika, Europa, FMI, que ajudam ou complicam, e geralmente complicam mais do que ajudam. A saída da crise depende de milhões de cidadãos anónimos tentando melhorar a sua vida e encontrando a resposta. Se a percentagem dos que vencem o ódio for superior à dos seus promotores, Portugal passa o teste. Só o nosso carácter, a fibra, as raízes e as convicções profundas nos permitirão vencer o desafio desta geração.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Isabel Jonet - por Vasco Pulido Valente
Ao que parece, Isabel Jonet tinha cometido o imperdoável pecado capital de dizer numa entrevista que preferia a caridade ao Estado social e, sobre isto, já de si claramente subversivo e provocatório, de invocar S. Paulo. Se as luminárias da Quadratura, por uma questão de curiosidade, se houvessem dado ao excessivo trabalho de ir ao site do Banco Alimentar, descobririam logo que ele não aspira a ser senão "uma resposta necessária mas provisória" a uma situação desesperada, porque o Estado deve garantir a qualquer pessoa "um nível de vida suficiente que lhe assegure e à sua família, a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica" e ainda a toda a variedade de contribuições que se tornem necessárias. E, para que não restem dúvidas o Banco Alimentar rejeita a "caridade condescendente" e define o seu trabalho como uma "opção de cidadania", que, em última análise, se destina a contribuir para o advento de mais "justiça" social.
Quanto à dra. Isabel Jonet, que o anticlericalismo indígena escolheu para bode expiatório da sua impotência, é uma mulher estimável que, de repente, se viu metida no meio de um jornalismo espertalhão. Não sendo nem moralista, nem teóloga, nem política, falava com a maior inocência sobre si e o seu papel no Banco Alimentar, não lhe ocorrendo que se podia meter num sarilho ou suscitar uma polémica a cada palavra. Atravessou este pequeno tumulto com dignidade e boa fé. E suspeito que ganhou apoios para o Banco Alimentar. A Quadratura do Círculo irritou muito boa gente. Confesso que me irritou a mim e que decidi logo ajudar com regularidade essa extraordinária empresa. Mais do que isso, estou contente com a decisão. Primeiro, porque eles merecem. Segundo, porque Isabel Jonet mostrou que era uma senhora normal, honesta e franca - exactamente o contrário dos políticos que lhe ladram aos pés.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Europa y los Estados Unidos, después de décadas de deslocalización productiva, ahora deben reindustrializarse - di Ettore Gotti Tedeschi
En el mundo occidental la exigencia de desapalancar (deleveraging) la deuda producida en treinta años por familias, empresas, instituciones financieras y Estados está provocando ese fenómeno que, para simplificar, se define recesión, esto es, crecimiento negativo del producto interior bruto. El PIB se contrae porque las familias reducen los consumos, las empresas producen menos, las bancas limitan las intermediaciones, los Estados procuran endeudarse menos. Los capitales disponibles son escasos y más costosos, el crédito es inferior y, subjetivamente, más costoso a causa de las diferencias entre “spread”. La superación de la recesión no será fácil ni realizable a corto plazo.
Austeridad es la expresión que mejor caracteriza esta fase económica del mundo occidental. Pero no hay que descuidar la tentación de transferirla a otros países.
Europa y los Estados Unidos, después de décadas de deslocalización productiva, ahora deben reindustrializarse para sostener la ocupación interna y volver a encontrar una nueva competitividad. Pero, sin mucho capital para las inversiones, se intentará la vía de las reformas a fin de crear mayor productividad y obtener menores despilfarros. Se buscará, en lo posible, reducir la importación de productos y reimportar las producciones. Escenarios distintos de estos permiten prever tensiones sociales difícilmente manejables. Tampoco hay que excluir que se llegue a la devaluación de las monedas y a la protección de sectores económicos considerados estratégicos.
El deseo de no sufrir o de limitar el impacto de la recesión se podrá, por lo tanto, concretar en una transferencia de los problemas a los países emergentes, o sea, a esos mismos países adonde se desplazaron las producciones en el pasado reciente. Con fatiga, en cambio, para poner en marcha el verdadero motor de la recuperación económica occidental: promover al formación de las familias.
El impacto de estas estrategias en los países emergentes podría ser grave porque sus economías, aún frágiles, verían bruscamente reducidas las exportaciones, con la consiguiente disminución de los capitales de entrada. Estas naciones también experimentarán la contracción del PIB y tendrán que procurar que crezca la demanda interna. Pero esta elección podrá producir algunos efectos como el uso de capitales para incrementar las inversiones internas y el crecimiento del poder adquisitivo local, que, en definitiva, significa también un mayor coste del trabajo. Se trata de un proceso que, una vez activado, conducirá al aumento de los precios de los productos exportados y, por lo tanto, a una competitividad más escasa.
En occidente, gracias a las tecnologías, las producciones que necesitan una mano de obra menos costosa encontrarán nueva competitividad y esto requerirá a los países emergentes la especialización en producciones más costosas —no compensable por las tecnologías— que, en cambio, serán cada vez más objeto de competición entre esas mismas naciones, con repercusiones negativas sobre las menos dotadas. Los países emergentes más ricos y tecnológicamente avanzados podrán intentar la penetración en occidente, adquiriendo empresas y produciendo localmente. Pero será indispensable que acepen reglas para ellos completamente nuevas.
Se configuran riesgos de impacto que habrá que manejar estratégicamente para no debilitar a las franjas más vulnerables de la población y a los países más pobres, que precisamente estaban entrando en el ciclo del bienestar, aunque con capacidades limitadas de competición.
Así pues, además de las estrategias occidentales de reindustrialización, es el mundo entero el que debe aliarse para salir juntos de la crisis y consentir que el reequilibrio de la distribución de la riqueza —iniciado con la globalización— pueda llevarse a cabo sin egoísmos, con solidaridad y justicia. El mundo global no puede soportar nuevas deslocalizaciones. Sobre todo de la crisis y de la pobreza.
Vatican Bank president calls for reindustrialization of US, Europe - by Ettore Gotti Tedeschi
In the Western world the need to deleverage the debt produced over 30 years by families, businesses, financial institutions and states is giving rise to that phenomenon which, to simplify things, is called “recession”, namely as an absence of growth of the gross domestic product. The GDP decreases because families consume less, businesses produce less, banks limit their intermediation. States aim to be less indebted. Available capital is scarce and more expensive, credit is less and, subjectively, costs more, because of the differences in the spreads. It will not be easy – nor in the short-term possible – to surmount the recession.
“Austerity” is the word that best describes this phase in the economy of the Western world. But the temptation to transfer it to other countries should not be ignored.
Europe and the United States, after years of productive delocalization must now be reindustrialized in order to sustain internal employment and to rediscover new competition. Yet, with less capital to invest reforms will be introduced to create greater productivity and leave less waste. As soon as possible an effort will be made to reduce imports and to reimport production. Envisaging any other scenario would allow one to foresee social tensions difficult to handle. Reaching the point of the devaluation of the currency and the protection of economic sectors deemed strategic cannot be excluded.
The wish to avoid reaping the consequences of the recession or to limit its impact could result in the transfer of the problems to the developing countries, those very countries, that is, to which in the recent past production was transferred, but striving to give an impetus to the true driving force of Western economic recovery: promoting the formation of the family.
The impact of these strategies on developing countries might be serious, because their still fragile economies might suddenly see their exports reduced with the consequent fall in revenue. These nations too will experience the fall in the GDP and must seek to increase internal demand. Yet this decision could produce such effects as the use of capital to increase internal investments and the growth of local purchasing power which, ultimately, also means the higher cost of labour. This is a process which, once initiated, will lead to an increase in the price of exports and hence to less competitive prices.
In the West, thanks to technology, production which demands cheaper labour will encourage new competition and this will require the developing countries to specialize in more expensive goods – which are not offset by technology – which will, however, increasingly be an object of competition between the nations themselves, with negative repercussions on those less well equipped. The wealthiest and technologically most advanced of the developing countries may try to penetrate the West, purchasing companies and producing on the spot. However, it will be indispensable that they accept rules which for them are quite new.
They represent risks, whose impact they will manage strategically in order not to weaken the more vulnerable sectors of the population and the poorest countries, which were on the point of entering the cycle of well- being, if with limited competitive skills.
In addition to the Western strategies of reindustrialization, therefore, the whole world must join forces if it is to emerge from the crisis and achieve an equitable distribution of wealth – which began with globalization – to be implemented without selfishness but rather with solidarity and justice. The global world cannot sustain further delocalization. Especially of the crisis and of poverty.
2012-02-24 L’Osservatore Romano
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Corações ocos
"Velhos, ó meus queridos velhos, saltem-me para os joelhos: vamos brincar?" Alexandre O' Neill
O número perturbador de velhos portugueses que morreram sós, e estiveram anos sem ninguém disso dar conta, permitiu uma série de piedosas declarações. A "atomização da sociedade", de que falou, admiravelmente, Simone de Beauvoir, num ensaio esquecido mas não datado [La Vieillesse], facilitou o sistema em que sobrevivemos, e que "confina com a barbárie."
Os nossos velhos pagam, amarga e dolorosamente, as nevroses das suas infâncias e as consequências das suas vidas frustradas, esmagadas, irrealizadas e aceitas com a resignação de quem foi alienado para consentir o inevitável declínio. A velhice, tal como as sociedades modernas a tratam, é uma questão de anomalia política, uma mutilação. Podíamos, talvez, atenuar essa violência, essa desolação social, com um pouco de compaixão.
Porém, autorizámos que nos esburacassem os sentimentos. Reparem: deixámo-nos de nos cruzar uns com os outros: simplesmente, atravessamo-nos; afastámo-nos da cordialidade, expulsámo-nos dos laços que nos uniam e justificavam como seres humanos e como comunidade. O nosso coração está oco.
Um país que abandona assim os seus velhos, que assim deixa morrer os seus velhos, é um sítio sem memória, um vácuo no vácuo. Um local inóspito que perdeu a ligação do espiritual e foi ocupado pela desordem estabelecida. Mas os sobressaltos de emoção são momentâneos. A dialéctica da Imprensa impede a durabilidade das nossas indignações, já de si muito ténues e muito frágeis. Os velhos mortos na solidão de todas as mortes serão substituídos pela inclemência da eterna actualidade. Morrem e passam a número. A dissolução do humano assimilou os nossos mais pequenos gestos, as nossas mais escassas fraternidades. A vulgaridade dos factos torna-se banalidade. Chega a ser indecoroso o lado mau da vida que os jornais expõem. Mas é assim. E o que assim é tem muito peso. O peso escandaloso da insensibilidade.
Os nossos velhos não estão, apenas, a morrer nas suas casas geladas de calor humano. Estão a morrer nos jardins, sentados na distância de já haverem perdido o pessoal sentido de identidade. O tempo flui neles e sobre eles, e já lhes não interessa, sequer, a desolação do seu fim de vida. Estão a morrer em caixotes horrendos, os paióis para onde são despejados como inutilidades que se desprezam.
E os jornais vão fornecendo números, levando, finalmente, para as primeiras páginas, aqueles que sempre as tinham merecido. Não gostamos dos nossos velhos. Abandonamo-los nos hospitais, rasuramos da nossa memória os seus afagos de pais e avós, as atenções que nos concederam, o amor que nos ofereceram sem contingências.
Que estamos a fazer a nós próprios?