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sábado, 14 de dezembro de 2013

O Pânico da Misericórdia - por Nuno Serras Pereira



14. 12. 2013
O título que encima este texto parecerá a muitos, senão mesmo a todos, totalmente espiclondrífico, uma vez que sendo a Misericórdia de Deus infinita, concomitantemente se crê que a confiança destemida n’Ela o deverá ser também. Por isso, a Igreja, mormente nos últimos 50 anos, não se cansa, num modo sempre crescente, de a anunciar e praticar. Isso é aliás, sem dúvida alguma, parte essencial e irrenunciável da sua Missão, enquanto prolongamento-presença de Jesus Cristo na história de todos os homens e do homem todo.

No entanto, têm sido esquecidas ou, pelo menos, relegadas para um esconso tão irrelevante e obscuro que não se dá por ele, outras verdades que são fundamentais para uma apreensão das Verdades de Fé, na sua rigorosa hierarquia (o que não significa, de modo nenhum, que qualquer delas seja insignificante ou supérflua). Esta será, porventura, uma das razões que tem levado sua Santidade o Papa Francisco I, a repisar, com uma insistência desusada, a existência do diabo, e a desmascarar as suas artimanhas pestíferas. É caso para dizer, apesar de alguns dizerem que o Santo Padre anda obcecado com o demónio, até que enfim, já não era sem tempo. 

Não saberei dizer se alguém concordará comigo, uma vez que fazê-lo parece ser uma impossibilidade “metafísica” (ou será meramente “existencial?), mas estou em que também faz falta uma pregação habitual sobre a Justiça de Deus e a possibilidade real da condenação eterna, isto é do Inferno. De facto, tenho deparado demasiadas vezes, ao longo da minha vida, com situações desconcertantes, absurdas, mesmo de uma enorme gravidade, diabólicas. Darei somente um exemplo para ilustrar o que quero significar. Um pai de família, casado e com filhos, já nascidos, leva a sua esposa, mãe grávida, ao “abortadouro dos arcos”. Interpelado pela Leonor aceita conversar. Continua contente e feliz apesar do que a Leonor lhe diz porque “Deus é misericórdia” e, portanto, não faz mal nenhum abortar seu filho “porque Deus perdoa”. Por estas e por outras é que S. Pio de Pietrelcina, mais conhecido por Padre Pio, revelava, ou sentenciava, “Eu tenho mais medo da Misericórdia de Deus do que da Sua Justiça. A Justiça de Deus é conhecida: sabe-se por que leis ela se governa e, se alguém peca e ofende a Justiça Divina, pode apelar à Misericórdia, mas se abusa da Misericórdia a quem poderá recorrer?”.

Se os Santos, como sempre ensinou o Papa Bento XVI, são os melhores intérpretes da Palavra de Deus, de Jesus Cristo, o Verbo de Deus feito carne, para nos Salvar, então será de toda a conveniência levar a sério esta sentença do Santo Padre Pio.

Uma medicina eficaz a que podemos recorrer é a de memorizarmos, meditarmos e rezarmos um Acto de Contrição bem feito. Há muitos anos encontrei um nas obras do P. Manuel Bernardes que me pareceu, como é, excelente. Mais tarde, porém, deparei com um outro, usado em outros países, que pela sua completude e concisão se me afigura que talvez seja ainda de maior proveito para as almas. É o seguinte: “Meu Deus, dói-me de todo o coração ter-Vos ofendido, e detesto todos os meus pecados, porque temo a perda do Céu, e os sofrimentos do Inferno; mas principalmente porque Vos amo, Meu Deus, que sois infinitamente bom e merecedor de todo o meu amor. Com o auxílio da Vossa Graça proponho-me firmemente confessar os meus pecados, fazer penitencia, e emendar a minha vida. Amen.”.

Um Santo Natal, na Graça de Deus, para todos.

domingo, 29 de setembro de 2013

O arqui-inimigo do Papa Francisco - por Nuno Serras Pereira



29. 09. 2013

Santa Brígida da Suécia co-padroeira da europa chamou, por mandato de Nosso Senhor, a um Papa seu contemporâneo, o seguinte: “Tu és pior que Lúcifer … . Tu és mais injusto que Pilatos … Tu és mais meu inimigo do que Judas … Tu és mais abominável do que os que crucificaram o meu corpo”. 

Depois de declarar à mesma Santa que a Fé consiste em “crer que Eu sou um Juiz Justo e Misericordioso (acrescenta) Mas agora está minado o fundamento, porque todos crêem e pregam que sou Misericordioso, mas quase ninguém prega nem crê que Eu seja Justo Juiz. Esses acham-me quase um Juiz iníquo. De facto, seria iníquo o Juiz, que por misericórdia despedisse sem castigo algum os iníquos, os quais por conseguinte oprimiriam ainda mais os justos. Mas eu Sou um Juiz Justo e Misericordioso, de modo que não deixarei sem castigo nem sequer o mínimo pecado, nem sem recompensa o mínimo bem.” (Esses pregadores malvados) “ … que pecam sem temor, que negam a Minha Justiça, atormentam os meus amigos … ” (dando-lhes) “opróbrio e toda a espécie de dor … como se fossem demónios” “experimentarão a Minha Justiça, serão como ladrões confundidos publicamente diante dos Anjos e dos homens … . De facto, como os enforcados são devorados pelos corvos, assim estes serão devorados dos demónios e não consumidos.” (Dirigindo-Se à Sua Igreja, continua o Senhor:) “Não escondas nenhum pecado, não deixes nenhum por punir, nem consideres nenhum ligeiro. Tudo aquilo que tiveres descuidado, Eu recordá-lo-ei e julgar-te-ei.” (E mais adiante) “não há homem algum que seja tão pecador que o seu pecado não seja perdoado, se o pedir com o propósito de se emendar e com contrição.” Considerar que esta grande Santa era inimiga desse Papa, seu contemporâneo, seria totalmente absurdo. Pelo contrário, o que a movia era a Misericórdia pelo Santo Padre, pela Igreja e pelos pecadores, numa palavra, era o próprio Deus cuja essência é Amor, Justiça e Misericórdia.
Eu, que como todos têm a certeza absoluta (e eu mais do que todos) não sou santo, mas sim um pecador obstinado, cujas obsessões demoníacas têm prejudicado, de modo inquestionável, a defesa da vida e da família e do Evangelho, a ponto de que se não foram as minhas intervenções tudo na Igreja, na vida e na família estaria a correr esplendidamente sou agora inundado de correio electrónico que espuma cóleras indignadas, as quais de resto agradeço do fundo do coração, pelas minhas agressões sórdidas e soberbas ao Santo Padre, a propósito de uma sua entrevista recente, nuns textos que podem ser encontrados aqui e aqui também aqui e mais aqui (embora não recomende a sua leitura).

Eu que me sinto em comunhão plena com o sucessor de Pedro e Vigário de Jesus Cristo na terra, e com o seu Magistério, dando muitas Graças a Deus pelo dom, o Papa Francisco, com que nos presenteou, e do qual muito tenho aproveitado, ando desconcertado com as reacções veementes a essas pequenas e insignificantes reflexões (mas há aí alguém que cuide que haja quem ligue ao que escrevo? Haverá escritos de eclesiásticos mais ignorados, silenciados, e censurados do que os meus garatujos!?). 

Uma entrevista, como ensinou o Papa Bento XVI, não é um ensinamento Magisterial. Nela o Santo Padre fala como doutor particular e o que diz pode, e às vezes deve, ser criticado, e dele se pode discordar. Há, no entanto, nos dias de hoje, uns zelotes que vêm em qualquer manso e cordial parecer discrepante um ataque feroz ao próprio Espírito Santo; e que tomados de um pânico esbaforido raivam impropérios esbugalhados, chovendo perdigotos diluvianos contra o suposto apóstada ou hipotético herege. 

Quando, por exemplo, neste texto procuro com uma ironia bem-disposta mostrar que é necessário em primeiro lugar esclarecer o que é bem e o que é mal podendo e devendo depois avançar para a pessoa do pecador e a Misericórdia de Deus que sendo Omnipotente pode perdoar qualquer pecado logo sou acusado de hipócrita fariseu porque Jesus perdoou à mulher adúltera e à samaritana. Seria tão fácil responder, não, de modo nenhum aprovo a homossexualidade (e podia/devia-se acrescentar, por causa disto e daquilo) mas temos que considerar a pessoa que Jesus olha com afecto, etc. Porque há muitos, mesmo muitíssimos católicos que perante a resposta e ensinamentos evasivos dos seus Pastores acabam por pensar exactamente o contrário da verdade que a Igreja ensina. Cá em Portugal isso foi evidente, por exemplo, aquando do último referendo do aborto. Por outro lado recusar-se a falar ou retorquir às questões com o “policarpiano” “o ensino da Igreja é conhecido” é de uma ingenuidade, falsidade ou cobardia desmedidas. Pois se há até Bispos e Cardeais que, por exemplo, sobre o aborto desconhecem grande e relevante parte da doutrina como é que o povo em geral, educado pelos média, a saberá? Se esse argumento colhesse ele então serviria para tudo o mais: falar de Deus e do Seu amor? Isso é conhecido e vem no catecismo; Jesus Cristo é o Salvador? Ninguém ignora que a Igreja o diz e, de resto, vem no Catecismo; Deus é Misericordioso e perdoa todo e qualquer pecado? Qual é a novidade?, toda a gente o sabe e vem no Catecismo – e as pessoas disto estão tão bem cientes que instruídas por grande parte do clero e por não poucos Bispos até têm a certeza absoluta que toda a gente vai para o Céu, pois o Inferno não existe. Sacerdote de Deus, por que recebes estipêndios para celebrar Missas pelas almas dos que partiram se não acreditas no Purgatório? “É para consolar os amigos e familiares”, respondem, sem atenderem que as pessoas não se podem consolar com mentiras.

Tenho mais considerações que gostaria de escrever sobre parte da entrevista do Santo Padre. Provavelmente, continuarei a receber mensagens exigindo que retire os endereços da minha lista de correio-e até ficar a redigir textos somente para mim próprio. Será uma experiência original; como reagirei? Também me indignarei e reivindicarei direito a não ser incomodado e bombardeado por mim mesmo? Como escapar de mim? Sendo exorcizado? Lançado numa masmorra? Decepando-me os dedos? Mutilando-me a língua? Aspirando, admitindo hipoteticamente que o tenha, o meu cérebro? Alguém tem mais sugestões? Agradeço.

Antes de terminar parece-me que poderá ser de proveito declarar que nestes tempos que vivemos o caso da mulher apanhada em adultério e levada à presença de Jesus, ou do Papa Francisco, para ser apedrejada seria impossível. Pelo contrário estas sujeitas são glorificadas em cinemas, óperas, teatros, séries televisivas, telenovelas; não são apedrejadas mas glorificadas; assim também os ideólogos “gays” e seus sequazes. Talvez nalgum recanto perdido do mundo possa acontecer essa barbaridade. Mas no ocidente, no mundo civilizado, a selvajaria que não sei se tardará muito a suceder é exactamente o contrário – alguém apanhado em flagrante “homofobia” é arrastado, por ter citado um passo da Escritura condenando a sodomia (homossexualidade), pela praça de S. Pedro e arrojado aos pés do Sumo Pontífice reinante conclamando: as leis promulgadas pelo triunvirato imperial Obama/Cameron/Hollande determinam que quem é apanhado neste crime nefando seja metralhado até à agonia e que logo seja mergulhado em ácido sulfúrico até nada sobre de si. Tu o que dizes?

Despeço-me reafirmando formalmente a minha comunhão total com o Papa Francisco e com o seu Magistério, confirmando as minhas disposições de obediência e reverência.

Se alguém ler estas linhas recomendo vivamente que conheça a história da Igreja e do Papado antes de se assanhar contra mim. Não por danos q1ue me possa provocar mas para sua tranquilidade e sossego.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Uma vez isto, para sempre isso? - por Nuno Serras Pereira



O P. António Vieira em um dos seus Sermões, a propósito de uma refeição de Jesus em casa de Simão, o leproso, nota, com grande perspicácia, que Simão é assim conhecido não por padecer de lepra, mas sim por a ter sofrido no passado, daí concluindo da obtusidade malvada e obstinada dos homens - que contrariamente a Deus, o qual perdoa, transfigura e, por isso, não lembra mais -, se engancham ao que foi, marcando perpetuamente os outros com os males que sofrem ou que fizeram. Recorde-se que a lepra para a mentalidade bíblica não é só uma doença, como um símbolo privilegiado do pecado. Assim como aquela corrompe e desfigura o corpo, de modo semelhante, este derranca e deforma a alma. Foste uma vez leproso ou pecador, pois para sempre o serás! Foste uma vez isto, então isso ficarás permanentemente, senão mesmo eternamente!

Nós, como ensinava S. Gregório, somos filhos dos nossos actos, das nossas acções. Estas não são unicamente transitivas mas também intransitivas, por outras palavras, elas não exercem somente uma modificação exterior, no mundo, mas repercutem no interior, configurando-o, formatando-o, para usar um vocábulo muito em voga. Se roubo, torno-me ladrão. Se mato, directa e deliberadamente um inocente, faço-me assassino. Se minto, sou mentiroso. Se compartilho os meus bens e o meu tempo, sou generoso. Se me abstenho de consentir em pensamentos, palavras e actos impuros, sou casto, etc., etc. É, por isso, que uma pessoa é aquilo que consente e não aquilo que sente. Seria absurdo acoimar de incendiário qualquer sujeito que sentindo embora sôfregas ganas de lançar fogo a pinhais e depósitos de explosivos nunca o tivesse feito; ou considerar bêbado, um outro que tendo desejos importunos, embora insistentes, de ingerir álcool em demasia nunca neles consinta nem lhes dê cumprimento; ou condenar como adúltero um homem casado, que sentindo-se atraído por outras mulheres que não a sua esposa não lhe seja infiel. Pois, tudo isto, que naturalmente é óbvio e a tudo se aplica, se desarma e rende perante aquela “coisa” que hoje se denomina, com uma expressão absurda e abstrusa, homossexualidade.  Tiveste actos sexuais com alguém do mesmo sexo, ou mesmo simplesmente padeceste ou ainda sofres de atracção desordenada por pessoas do mesmo sexo, embora não a consintas? Pois, tens então uma orientação homossexual; és irremediavelmente e para sempre um homossexual! E o não reconhecimento disso constitui uma violenta agressão, uma fobia demente, uma discriminação persecutória! 

O monumental dislate advogado totalitariamente pelos “homonazis” não tem, como é evidente, nenhum fundamento na realidade. Não só pelo que já dissemos anteriormente mas também porque existe inatamente, inscrita no próprio ser da pessoa humana, uma única orientação sexual, a recíproca entre varão e varoa, entre macho e fêmea, entre homem e mulher (felizmente, isto que para mim é evidente há muitos anos, é nos dias de hoje reconhecido por distintos psicólogos e psiquiatras, por exemplo, Joseph Nicolosi). Que ela depois possa ser distorcida, como uma das muitas consequências do pecado original, que se traduz numa alienação e rejeição da própria identidade corpóreo espiritual, a mais das vezes inconsciente, sem acto de culpa própria portanto, é indubitável. A verdade, porém, é que a resolução dos problemas que subjazem a esses desejos desordenados faz com que eles desapareçam. A psicoterapia actual ainda não consegue restaurar em todos os que a ela recorrem a sua condição natural e inata (aquilo que hoje se diz heterossexualidade; estes termos são absurdos porque a palavra sexo ou sexualidade já diz a diferença), mas o facto indesmentível, apesar da propaganda contrária, de o alcançar em percentagens muito significativas (do ponto de vista médico) é altamente encorajador, pelo que faz todo o sentido, continuar a intensificar e aprofundar essas terapias, que os “homonazis” querem proibir.

A quantidade ingente (em termos percentuais) de ex-homossexuais, para usar a terminologia corrente, que reencontraram a sua natural sexualidade e que hoje vivem casamentos fecundos e felizes aí está como um testemunho irrefutável desmentindo a ideologia “homototalitária”. Uma quantidade enorme destas curas foi alcançada simplesmente por uma vivência séria do Cristianismo, ou por uma aliança deste com a psicoterapia. Pelo que é inegável a existência de um profundo problema religioso subjacente a esta patologia ou enfermidade espiritual. Acresce que uma soma igualmente significativa de pessoas que tinha actos sexuais com outras do mesmo sexo, deixou essa vida promiscua e doentia, não obstante a permanência de desejos desordenados não consentidos, e vive agora uma vida continente e casta.

Graças a Deus que pessoas altamente qualificadas que se têm dedicado a estes nossos irmãos forjaram uma terminologia adequada, que não veicula a ideologia “homonazi” como a que está em voga nos dias de hoje. Assim, os termos homossexualidade, ou “gay”, ou lesbianismo, ou “orientação sexual” que transmitem uma falsa ideia de uma identidade distinta das outras pessoas, devem ser abandonados e substituídos pelos seguintes: homens que fazem sexo com outros homens (hsh), mulheres que fazem sexo com outras mulheres (msm), pessoas que têm uma atracção desordenada por outras do mesmo sexo (adms ou ams). 

Parece-me de todo desejável que os textos do Magistério da Igreja abandonem o termo homossexualidade e adoptem estes ou outros semelhantes que são, enquanto a mim, precisos e verdadeiros. De facto o vocábulo homossexual, de recente uso, não tem nenhum de per si nenhum conteúdo doutrinal, nem é essencial a qualquer ponto da Doutrina, pelo contrário é meramente acidental e substituível pelo termo tradicional ou por estes que indiquei. Acresce que, na minha opinião, é estrambólico que no Catecismo da Igreja Católica, se fale de “pessoas homossexuais” sem estender esse tipo de terminologia no mesmo campo da sexualidade dizendo, por exemplo, “pessoas prostitutas”, “pessoas masturbadoras”, “pessoas fornicadoras”, “pessoas pedófilas”; ou, fora desse campo, “pessoas cleptomaníacas”, “pessoas piromaníacas”, etc., etc.

Uma interrogação que surge em muitas mentes será a de se uma pessoa com atracções desordenados por outras do mesmo sexo (adms) poderá ser Santa. A resposta é claramente afirmativa. De facto, se isso constituiu para ela uma provação, e contra a qual (adms) combateu incansavelmente toda a sua vida, saindo vencedor, amando a Deus sobretudo e sobre todos, e ao próximo ordenadamente, com o Amor que lhe veio de Jesus Cristo, claro que está na Glória de Deus, e poderá ser canonizado pela Igreja, se é que já o não foi. Isto não significa que um “homossexual” possa ser Santo, mas exactamente o contrário. O mesmo se diga de toda e qualquer outra tendência predominante ou exclusiva objectivamente desordenada.

Isto, porém, não significa que a propensão desordenada por pessoas do mesmo sexo seja equivalente à natural tendência da de um homem por uma mulher. Isso seria o que alguns designam por “homoheresia”. Essa falsa equivalência levou muitos, ainda que não poucos de grande boa-fé, a concederem que pessoas com adms profundamente radicada fossem consideradas aptas para receberem as Ordens Sacras, isto é, para o Sacerdócio ministerial. Não obstante ser válido o Sacramento da Ordem recebido deve afirmar-se com toda a clareza que não é lícito e que por isso devem dele se excluir os candidatos que padeçam desse distúrbio - até para seu próprio bem. De resto, existe uma gama variada de outras circunstâncias ou características que expungem um número considerável de candidatos, pelo que não se trata de uma discriminação injusta, mas sim de um discernimento salutar.

Uma vez, porém, que existem Sacerdotes assim, como é do conhecimento público (que, de boa-fé ou dissimuladamente, com a cumplicidade ou por ignorância da parte dos respectivos prelados foram, admitidos ao Sacramento da Ordem), é seu grave dever acolher e cooperar com a Omnipotência da Graça de Deus, vivendo continentes e castos, na inteireza do seu ser, de modo a que abracem, de todo o coração, o Dom, o Espírito Santo, que os faça viver existencialmente a conformação com Jesus Cristo, Esposo da Igreja. Esta Nupcialidade exige o enjeitamento do narcisismo e o acolhimento da alteridade e da reciprocidade assimétrica, na entrega verdadeira e sincera de si mesmo a Deus e aos outros, por Seu amor. Transfigurados, pela configuração com Jesus Cristo, sanados pelo Seu Amor Infinito, poderão também eles vir a ser Santos.

04. 01. 2013

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Júbilo Imenso do Amante Infinito - Nuno Serras Pereira

Imenso, Infinito, parecem ser termos grandemente exagerados para falar do amor, talvez desculpáveis por causa de uma paixão que enlouquece aquele que a padece. Não assim, no entanto, se considerarmos que o único Amor Verdadeiro, fonte e origem de qualquer genuíno amor, é Deus, na essencial Comunhão da única Natureza Divina em três Pessoas iguais e distintas entre Si: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este Amor libérrimo, que Se basta a Si mesmo, quis gratuitamente, portanto, sem necessidade ou precisão alguma da Sua parte, criar-nos para nos fazer participantes dessa felicidade incomparável, desmedida, impensável. Numa centragem soberba e egoísta primordial, instigada pelo Antiamor, o Maligno, dispensámos essa Amigança como se fora um fardo, como se fora uma mesquinhez invejosa que nos impediria de ser plenamente.


Quando o Amor Se fez um de nós, ao ser concebido, por virtude do Espírito de Amor, no seio da Virgem amada e amante do Altíssimo ensinou-nos por palavras a desmesura do Amor que nos mostrou com a Sua vida, a Sua Paixão e Ressurreição.


No capítulo 15 do evangelho segundo S. Lucas o Amor Infinito revela-nos que Ele é exultação eterna de alegria e que esse gaudio pode ser jubilosamente intensificado sempre que um desamor, um inimigo, um egoísta, um traidor, um homicida, um luxurioso, um intrujão, um avarento, enfim, um miserável pecador, se reconhece tal e se abre ao fidelíssimo Amante, que o chama e o espera, tomando o caminho de regresso ao Seu acolhimento amistoso, paterno, caloroso, jubilosamente febril, delirante de alegria, endoidado de contentamentos e de regozijos pelo achamento do amado que estava perdido, pelo ressurgimento do bem-amado, que estando morto volta à Vida.


Para os baptizados (= mergulhados no Amor de Cristo morto e Ressuscitado), este reencontro jucundo com o Amor, que os Criou e Libertou, acontece nos afáveis amplexos e santos ósculos do Ressuscitado, através da confissão sacramental.


A Confissão ou Reconciliação embora tenha as mais das vezes como ponto de partida, da nossa parte, uma necessidade de restauração, de salvamento, de fome desesperada de Amor, de sede prementíssima de Verdade, de reconciliação, de Comunhão, de recuperação da harmonia connosco mesmos, com os outros, com a natureza e com Deus, poderá, no entanto, ser um enorme acto de gratidão, de amor, ao Amor Daquele que muito nos Amou e que nós desistimos de amar. O Amor somente Se alegra como o Amor e unicamente Se ofende do desamor. Quando Jesus Cristo ensina através do Seu Corpo, que é a Igreja, que o pecado é uma ofensa a Deus está a dizer-nos que o Amor Infinito de Deus Se deixa ferir por tudo aquilo, consciente e livremente escolhido, que nos arreda do Amor, da Verdade, e consequentemente da nossa identidade, que nos destrói, que nos impede a felicidade e bem-aventurança eternas e o antegosto dela mesmo, ou através da, na Cruz do nosso caminhar neste mundo.


Aqueles bens que o filho ingrato e esbanjador dissipou não são necessariamente riquezas materiais herdadas, mas sim os talentos recebidos enquanto imagem e semelhança de Deus, e Seu filho adoptivo, pelo baptismo: os dons da natureza, os quais sem a Graça, isto é a Comunhão com Deus, não se sustentam mas, pelo contrário, deperecem e se derrancam – a inteligência, a memória, a vontade, a formusura, a corporeidade, etc., etc. Claro que se poderá argumentar que o Diabo é mais inteligente que todos os crentes juntos mas a verdade é que essa é uma inteligência imbecil, estólida, estúpida, esparvoada, sem entendimento, capaz das maiores artimanhas e astúcias, mas totalmente inábil para a Sabedoria, impossibilitada para o Amor, incapaz de servir na entrega de si mesmo aos outros: é uma escravidão, uma teia cheia de subtilezas e argúcias em que se enreda a si mesmo, rebeldemente encasmurrando-se cegamente, e a todos os seus escravos, na masmorra da sua soberba por toda a eternidade.


Se com alegria, cuja fonte é Deus, queremos dar a Jesus Cristo a enorme alegria de nos Salvar, de recuperarmos a nossa Comunhão de Amor com Ele, teremos então de fazer uma Confissão, ou Reconciliação, bem-feita. 


Uma grande vantagem de nos confessarmos a um Padre, como o fazem também os Papas, ou melhor a Jesus Cristo que quer tornar-Se presente no Sacerdote, é a de ser sujeito às mesmas fraquezas que os demais podendo assim compreendê-los melhor. De si, qualquer ser humano é susceptível de cometer qualquer pecado, mesmo que nunca o venha a fazer. S. Junípero, um dos primeiros companheiros de S. Francisco de Assis, sendo posto a ferros por suspeito de querer assassinar um alto aristocrata, como fosse interrogado se intentava fazê-lo respondia com todo sossego: se não fora a Graça de Deus seria capaz disso e de muito pior. E como a questionação prosseguisse sondando intencionalidades de mais patifarias e malvadezas ele sempre respondia tranquilamente a mesma coisa. Valeu-lhe S. Francisco que posto ao facto do caso pressurosamente foi ao seu encontro testemunhando em seu favor. Outros Santos quando sabiam que algum terrível criminoso ia a ser enforcado diziam aos seus companheiros: vamos acompanhar com as nossas orações aquele desgraçado em cujo lugar estaríamos se não fora a Graça de Deus.


Por mais hediondo, abominável e ignóbil que seja qualquer pecado, ou uma multidão infinda deles, perante a Misericórdia Infinita de Deus Amor não passam, como dizia o Santo Cura de Ars, de grãozinhos de areia. Com isto não queria ele apoucar a gravidade do mesmo mas sim proclamar a Omnipotência do Amor Divino, para que a Ele rendidos, arrependidos, nos despojássemos das nossas absurdas defesas, deixando-nos conquistar e transfigurar para nosso bem. 


Consideremos agora, ainda que brevemente, as condições para uma confissão como deve ser.


1 – Dar-se conta do mal feito ou do bem que se podia e devia ter realizado e não se levou a cabo. A isto se chama exame de consciência. Não será preciso recordar que pecado não é aquilo que cada um arbitrariamente acha ou decide, mas sim aquilo que vai contra a Lei de Deus (o Seu Amor) e o Evangelho, tal como apresentado pela Doutrina da Igreja.


2 – Desgosto pelo que se fez ou deixou de fazer. Por outras palavras, arrependimento. Não é necessário que esta dor seja sensível. Com isto quer significar-se um perceber a malícia ou fraqueza que levou a cair, um apoucamento da grandeza e dignidade que isso significa, e a infidelidade à Aliança de Amor com o Senhor. O arrependimento por desilusão connosco mesmos ou por temor das penas, ou consequências, eternas que o pecado implica, é imperfeito e chama-se atrição, sendo no entanto suficiente para o perdão. O perfeito, que se alcança por puro amor de Deus, designa-se contrição, sendo que esta nos livra também das consequências temporais do pecado.


3 – Querer mudar, ou regressar ao Amor do Pai. Quer dizer o propósito de emenda, ou seja, a determinação de permanecer no Amor, na casa do Pai, do Amigo. Claro que este objectivo brota de uma confiança na Graça de Deus, com qual, somos chamados a cooperar, e não de uma presunção das nossas próprias forças.


4 – Honestidade e sinceridade connosco mesmos, com o confessor e com Deus. Trata-se aqui da acusação corajosa e verdadeira de todos e cada um dos pecados graves, ou mortais, de que se lembra, ainda não confessados ou mal confessados (sendo de grande proveito confessar também as faltas leves ou veniais). Quem propositadamente (por vergonha ou outro motivo) ocultasse um pecado grave (mortal) não faria uma confissão bem-feita, mas um cometeria sacrilégio, não lhe aproveitando pois a absolvição, antes acrescentando mais um grave pecado. Por isso, quem tiver consciência de uma ou mais confissões mal feitas deverá fazer uma confissão geral, dizendo os pecados das confissões mal feitas e os sacrilégios cometidos. Depois disso experimentará uma grande paz e uma enorme alegria. Quem isto escreve fez uma confissão geral no Sacro Convento de S. Francisco, em Assis, aos 28 anos. O confessor, um sacerdote franciscano, polaco, experimentado, ajudou a desenterrar enormidades tamanhas que o penitente sentiu grandes suores frios e transpiração das mãos, cousa que nunca mais lhe sucedeu, ao recordar a fealdade medonha de seus pecados passados, mas ficou de bem com Deus e inundado da Sua Misericórdia.


S. Francisco de Sales conta que o lobo voraz e predador quando quer devorar uma ovelha, para que o pastor não dê tento, arrebata-a abocanhando-a pelo pescoço para que ela não possa balir, uma vez que de outro modo não a lograria pois seria destroçado à cajadada. Assim, continua o Santo, procede o demónio com as almas que quer perder: incute-lhes um bloqueio para que não confessem todos os pecados ao Pastor, Jesus Cristo no Sacerdote, que as protege e as salva.


Importa muito acrescentar que a confissão bem-feita pede a descrição das circunstâncias para um entendimento adequado da mesma. 


Consideremos alguns exemplos:


- Uma pessoa acusa-se de faltar à Missa ao Domingo ou dia Santo de Guarda. Mas faltou uma vez ou 30 vezes ou um número que não consegue contabilizar por terem passados muitos anos? É bem de ver que a culpa é diferente. Ou faltou a esse preceito, acto de amor para com Deus Amor que Se torna presente e Se quer dar em alimento, porque estava de viagem na China e não encontrou nenhuma Igreja: claramente não há pecado algum; ou porque estava a cuidar da mãe doente que não podia ficar sozinha: não é evidentemente um pecado mas um acto de caridade; ou porque ficou a ver na televisão o dancing days ou a casa dos segredos: provavelmente serão dois pecados…


- Alguém confessa, roubei, sem mais. Mas roubou o quê? Um milhão de euros? 20 euros, cinquenta cêntimos? A um milionário ou ao desgraçado de um pobretana? A gravidade, naturalmente varia, podendo mesmo ser leve. Ou furtou para comer, uma vez que não conseguiu honestamente garantir a subsistência de outro modo: não há pecado nenhum, mas sim o exercício do direito à vida, a desfrutar dos bens da Terra que Deus destinou a todos.  


- Beltrano se argui de faltar à castidade. Falta saber uma vez, ou um número indeterminado? Por pensamento consentidos, por visionamentos deliberados impróprios, por palavras conscientemente obscenas ou por outros actos livres? Consigo mesmo, ou com outra pessoa, neste caso do mesmo sexo ou de sexo oposto, é casado ou solteiro, tem votos religiosos, ou é sacerdote, ou Bispo? Foi em local Sagrado? Estava embriagado ou consciente? Foi premeditado ou compulsivo? Foi com besta, animal, (não é necessário indicar com que tipo)? Foi com adolescente, ou com criança, ou com bebé? É doente contagioso que possa colocar em grave risco ou mesmo provocar a morte do outro/s? Os actos foram contraceptivos? Recorreu a abortivos precoces? Haverá ainda algumas outras questões que convirá abordar, mas sempre sem entrar em minuciosidades perniciosas à imaginação e serenidade da alma e do corpo. 


- Sicrano confessa que abortou. É a mãe? Ou o serial killer que ganha dinheiro à custa da matança? É a avó (e/ou outros) que pressionou intoleravelmente a filha ao abortamento do neto? No caso de ser a mãe, foi contra a vontade do pai da criança que se prestou a todo o apoio ou foi num acto de desespero ou de depressão profunda? Ou foi contra tudo e contra todos, porque sim, ou por colocar em primeiro lugar os estudos, a carreira, enfim, qualquer outro objectivo que por maior que seja é sempre incomparavelmente inferior ao valor sublime e transcendente da vida da pessoa nascitura exterminada? Ou terá sido uma intervenção médica cujo objectivo era salvar a vida da mãe implicando embora a morte indirecta da criança nascitura que, apesar de prevista, não era de modo nenhum procurada ou querida; não se trata então, do ponto de vista moral, de um abortamento.


Muito se poderia dissertar ainda sobre isto, mas creio que estes breves tópicos darão uma ideia do que pretendo transmitir.


5 – Ter Fé, ou seja, Acreditar no Excesso de Amor do Pai, na Infinita Amizade de Jesus Cristo, na Imensa Consolação do Espírito Santo, ou seja na Misericórdia jubilosa de Deus, que mostra que é Omnipotente principalmente quando perdoa.


6 – Aceitar com gratidão e simplicidade o abraço e os festejos do Pai, a Alegria de Jesus, o Regozijo do Espírito Santo. Por outras palavras, acolher a absolvição concedida por Cristo Vivo e Ressuscitado, através do Padre.


7 – Cumprir a penitência dada pelo Sacerdote como preparação para o Banquete da Eucaristia, que não nos serve um vitelo gordo mas sim o Próprio Jesus-Amor-Amizade como iguaria e nutrimento, para em nós estabelecer a Sua morada, de maneira a que antegozemos as delícias do Céu e nos preparemos para o Grande Banquete definitivo e eterno onde todos os contentamentos, ledices, alegrias, deleites, letícias, enlevos, exultações, gáudios, gozos, comprazimentos, regozijos e jucundíssimos júbilos nos satisfarão plena e absolutamente porque Deus será tudo em todos. Foi para essa Glória inexprimível que Ele nos Criou e Redimiu. À honra de Cristo. Ámen.

31. 12. 2012