sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bispos assim, Sim!

Importante descubrimiento de la “Pave the Way Foundation”

NUEVA YORK, jueves 1 de octubre de 2009 (ZENIT.org).- Nada de “Papa de Hitler”. Nada de colaboradores voluntariosos del nazismo. Algunos documentos encontrados en Alemania por la Pave the Way Foundation (PTWF) prueban que ya desde septiembre de 1930, los obispos católicos habían excomulgado al Partido Nazi de Hitler.

De los documentos hallados por Michael Hesemann. Colaborador de la PTWF, en septiembre de 1930, tres años antes de que Adolf Hitler subiera al poder, la archidiócesis de Maguncia condenó de forma pública al Partido Nazi.

Según las normas publicadas por el Ordinario de Maguncia, estaba “prohibido a cualquier católico inscribirse en las filas del partido nacionalsocialista de Hitler”.

“A los miembros del partido hitleriano no se les permitía tomar parte en grupo en funerales u tras celebraciones católicas similares”.

“Mientras un católico estuviera inscrito en el partido hitleriano no podía ser admitido a los sacramentos”.

La denuncia de la archidiócesis de Maguncia fue publicada en primera página por “L’Osservatore Romano” en un artículo publicado el 11 de octubre de 1930.

El título del artículo es: “El partido de Hitler condenado por la autoridad eclesiástica”.

En él se declaraba la incompatibilidad de la fe católica con el nacionalsocialismo. Ninguna persona que se declarara católica podía convertirse en miembro del partido nazi, bajo pena de la exclusión de los sacramentos.

En febrero de 1931 fue la diócesis de Münich la que confirmó la incompatibilidad de la fe católica con el partido nazi.

En marzo de 1931 también la diócesis de Colonia, Parderborn y las de las provincias de Renania denunciaron la ideología nazi, prohibiendo de modo público cualquier contacto con los nazis.

Indignados y furiosos por la excomunión emitida por la Iglesia católica, los nazis enviaron a Hermann Göring a Roma con la petición de audiencia al Secretario de Estado Eugenio Pacelli. El 30 de abril de 1931, el cardenal Pacelli rechazó encontrarse con Göring, que fue recibido por el subsecretario, monseñor Giuseppe Pizzardo, con el encargo de tomar nota de todo lo que los nazis pedían.

En agosto de 1932, la Iglesia católica excomulgó a todos los dirigentes del Partido nazi. Entre los principios anticristianos denunciados como herejes, la Iglesia católica alemana mencionaba explícitamente las teorías raciales y el racismo.

Siempre en agosto de 1932, la Conferencia Episcopal alemana publicó un documento detallado en el que se daba instrucciones de cómo relacionarse con el Partido Nazi.

En el documento, publicado por la Conferencia Episcopal Alemana, está escrito que estaba absolutamente prohibido a los católicos ser miembros del Partido Nacionalsocialista. Quien desobedeciera sería inmediatamente excomulgado.

En el documento de la Conferencia Episcopal encontrado por la PTWF está escrito que “todos los Ordinarios han declarado ilícito pertenecer al Partido Nazi”, porque “las manifestaciones de numerosos jefes y publicistas del partido tienen un carácter hostil a la fe” y “son contrarias a las doctrinas fundamentales y a las indicaciones de la Iglesia católica”.

En enero de 1933 Adolf Hitler llegó al poder y las asociaciones católicas alemanas difundieron un folleto titulado “Un llamamiento serio en un momento grave”, en el que consideraban la victoria del Partido Nacionalsocialista “un desastre” para el pueblo y para la nación.

El 10 de marzo de 1933, la Conferencia Episcopal alemana reunida en Fulda escribió un llamamiento al Presidente de Alemania, el general Paul L. von Beneckendorff und von Hindenburg para expresar “nuestras preocupaciones más graves que son compartidas por amplios sectores de la población”.

Los obispos alemanes se dirigieron a von Hindenburg manifestando su temor de que los nazis no respetasen “el Santuario de la Iglesia y la posición de la Iglesia en la vida pública”.

Por esto pidieron al Presidente una “urgente protección de la Iglesia y de la vida eclesiástica”.

Los obispos católicos habían previsto esto, pero no fueron escuchados.

Los documentos encontrados por la PTWF son de notable importancia porque ponen fin a las repetidas calumnias que quisieran manchar a la Iglesia católica como diligente colaboradora del naturismo, cuando en realidad fue la primera en denunciar su peligrosidad.

[Por Antonio Gaspari, traducción del italiano por Inma Álvarez]

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Soberania de quem?


O conceito relativista de democracia que hoje impera tem transformado os regimes democráticos em verdadeiros totalitarismos, transmutando os Estados de Direito em estados tirânicos. Esta verdade elementar é denunciada e esclarecida quer nas Encíclicas o Esplendor da verdade e o Evangelho da vida, de João Paulo II, quer na Deus é caridade e na Caridade na verdade, do Papa Bento XVI.

De facto, se não se admite uma soberania superior à vontade arbitrária dos cidadãos expressa em maiorias circunstanciais dependentes das modas de momento ou do jogo das forças que detêm o poder de manipulação, então o mais forte prevalecerá prepotentemente sobre o mais fraco e em nome da liberdade esmagará a do seu semelhante eliminando a vida que lhe dá lugar.

A idolatria democrática/relativista que se vive em Portugal com o correspondente culto que universalmente lhe é prestado é, como não podia deixar de ser, diabólico: sereis deuses decidindo que é bem e o que é mal, fabricando e tirando a vida.

A soberania autêntica e última só pode ser a da verdade, a da justiça, a do bem, a do amor. É a soberania daquela lei moral inscrita no coração de toda a pessoa que é por natureza sociável e que por isso é a base e o fundamento da lei positiva. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, embora imperfeita, supõe isso mesmo. Ela pretendeu ser uma garantia, anterior e superior à lei positiva, para que nunca mais sucedessem barbaridades idênticas ou semelhantes às que aconteceram com o regime nazi.

Esta lei moral própria da natureza racional da pessoa humana (lei moral para governar a natureza) tem a sua origem e a sua autoria no Criador, Supremo Legislador; e só por referência a Ele é possível vivê-la. Estas afirmações não são, contrariamente ao que muitos pensam e ensinam, de ordem confessional mas sim meramente racional. Por isso, como afirma um dos mais eminentes teólogos actuais: “Nenhum Estado se pode escusar da adoração a Deus e da obediência a uma lei moral que é simultaneamente parte integrante desse culto e o único fundamento estável dos direitos humanos”[1]. Aliás, quem ler com atenção, por exemplo, as intervenções do Papa Bento XVI na sua recente visita à República Checa, verificará que ele ensina isso mesmo. Pretender que um Estado seja ateu ou agnóstico é uma irracionalidade fundamentalista que só poderá esmagar a pessoa humana. Soberania do povo, claro, mas desde que não seja absoluta e esteja subordinada à Soberania das soberanias.

Nuno Serras Pereira

29. 09. 2009




[1] “No State is excused from the worship of God and obedience to a moral law both integral to that worship and the only stable foundation for human rights”. In Aidan Nichols O. P., The Realm, p. 147, Family Publications, Oxford, 2008, pp. 160


Ofensiva sem precedentes da Cultura da Morte!

Comunicado dos Juntos pela Vida - 27. 09. 2009

Independentemente dos resultados eleitorais o que se anuncia é uma ofensiva sem precedentes da Cultura da Morte!

1. No longo cortejo de Crimes contra a Humanidade há um que se destaca:

a. Pela natureza, grau de inocência e vulnerabilidade da vítima;

b. Pela assustadora e desproporcional coligação de forças que se une para atacar o mais indefeso dos seres;

c. Pela completa corrupção das funções do Estado, do Direito e da Medicina;

d. Pela instrumentalização e destruição das mães, atiradas para a sarjeta surda de uma dor longa, que as consome em fogo lento;

2. O aborto é o mais abominável de todos os crimes.

3. Os Juntos pela Vida preveniram, na manipulada campanha do referendo ao aborto, que tal como ao dia se segue a noite, ao aborto se seguiria a eutanásia.

4. Disseram-nos que uma coisa não implicava a outra, apesar de Portugal ser o único país que na mesma legislatura legalizou o aborto e tentou legalizar a eutanásia;

5. Hoje o alerta vai mais longe – a partir de 28 de Setembro de 2009 Portugal vai conhecer o mais violento ataque à vida jamais lançado no mundo ocidental:

a. Já temos a lei do aborto mais liberal do Ocidente;

b. O BE proporá a eutanásia, a pedido do próprio, a partir dos 18 anos; e, a pedido dos familiares, para pessoas inconscientes ou inimputáveis. O PS chumbará a proposta aprovando a medida “mais moderada e não menos moderna” da eutanásia "só" para "doentes".

c. É “lógico”, pois quando faltam crianças há que assegurar a sustentabilidade das pensões eliminando os pensionistas.

d. O BE proporá o casamento gay com possibilidade de adopção. O PS chumbará e, mais “moderadamente”, aprovará primeiro “só” o casamento gay, e num “prudente depois” a adopção.

e. Será imposta nas escolas a propaganda gay através da educação sexual.

f. Irão chamar os promotores e industriais do aborto para serem os responsáveis pela educação sexual para a prevenção do aborto;

g. Irão assimilar o contrato de casamento e a união de facto – que passarão a ser situações equivalentemente precárias –, desprotegendo-se totalmente mulheres e crianças.

6. Por tudo isto a partir de 28 de Setembro de 2009 está decretada a caça à criança, ao idoso, ao doente e à mulher.

7. Com a mesma angústia de morte que sentiram as pessoas mais lúcidas perante os passos crescentemente errados que antecederam a Segunda Guerra Mundial, os Juntos pela Vida recordam hoje aquela frase atribuída a Balzac: “maldito o que não gritasse no deserto, pelo receio de não ser ouvido por ninguém”.

8. Neste momento como em outros da nossa história recente os Juntos pela Vida saberão assumir as suas responsabilidades, seja pela acção junto do parlamento hoje eleito, seja na promoção de todas as movimentações populares necessárias a impedir este imposição de uma Cultura de Morte.

Lisboa, 27 de Setembro de 2009

domingo, 27 de setembro de 2009

Um Povo Perverso e de Coração Duro


O resultado das eleições de hoje demonstra à saciedade que o povo português escolheu lugubremente a morte. De facto, os partidos necrófilos conseguiram a maioria dos assentos no parlamento. A eutanásia, o suicídio assistido, o “casamento” entre gays e o abuso de menores através da “educação” sexual obrigatória, para dar alguns exemplos, tornar-se-ão realidades “legais” em Portugal. Uma nação que assim vota maioritariamente é constituída por um povo profundamente perverso e de coração duro.

A Hierarquia que tem a estrita obrigação de Evangelizar este povo, pelo contrário, lisonjeia-o e adula-o. Os Pastores que têm como missão, entre outras, confrontar as gentes com os seus pecados e despertá-las para a conversão passam-lhe a mão pelo pêlo calando cobardemente os seus vícios e fazendo pregações que a todos encantam e que não incomodam ninguém. Bem se tem queixado o Papa de que muitos Bispos se procuram a si e aos seus interesses em vez de velarem pelo bem integral daqueles que lhes foram confiados. A adulação que ao longo da história e da Tradição da Igreja sempre foi vista como um pecado grave é agora tida como máxima virtude e mesmo critério de discernimento na escolha de Pastores. Quanto maior a lisonja dos poderosos e do espírito do tempo, da mentalidade reinante, maior a honra e a fama dos Pastores que as procuram acima de tudo. Contente, mesmo muito contente, deve estar a Rádio Renascença com as ajudas contínuas, sistemáticas e preciosas que tem contribuído para dissolver a verdadeira identidade humana e cristã desta nação.

Querem que eu aceite a vontade “soberana do povo” expressa nesta votação? Não a aceito e repudio-a com veemência semelhante à rejeição pela vontade “soberana do povo” que condenou Cristo à morte. Querem que eu cumprimente a José Sócrates pela vitória eleitoral? Não o faço, antes o reconheço como representante daquela tirania sanguinária que já chacinou 40 mil crianças nascituras e que se prepara para aumentar o número de vítimas inocentes.

Este povo precisa de conversão e os Pastores têm que dizê-lo, sem medo e com clareza, em Fátima, nas Dioceses, nas Paróquias, nos meios de comunicação social, oportuna e inoportunamente. À honra de Cristo. Ámen.

Nuno Serras Pereira

27. 09. 2009

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Eleições: limitar crueldades e perversões?

1. O Episcopado português alertou os cristãos para que não traíssem as suas consciências no acto de votar nas próximas eleições. Admitir a possibilidade dessa aleivosia ou deslealdade é o mesmo que confessar a existência de uma verdade objectiva, reconhecida pela consciência, que não é compatível com determinadas escolhas partidárias.

2. No espectro político português existe um consenso generalizado em relação a um número significativo de direitos humanos, por exemplo, direito à saúde, à habitação, ao emprego, etc. No entanto, essa unanimidade não se verifica quanto aos modos de alcançar ou possibilitar o exercício desses direitos. Uns cuidam que se consegue de uma maneira e outros de outra. Os cristãos, perante a complexidade destas questões, podem legitimamente divergir entre si sem que traiam a verdade inscrita nas suas consciências. Tudo depende do juízo prudencial que cada um é chamado a exercitar com um profundo sentido de responsabilidade.

3. Todos sabemos, pela comunicação social, que há partidos políticos que têm programas e modos de acção totalmente incompatíveis com a verdade objectiva, à qual a consciência se deve conformar, do valor absoluto (absoluto relativo ao Absoluto) da dignidade de toda a pessoa humana. Os direitos a que nos referimos no nº 2 são pretensões que derivam dessa dignidade. No entanto, a dignidade da pessoa humana tem outras exigências que esses partidos repudiam mas das quais nunca se pode abdicar: o direito à vida desde a concepção até à morte natural – que se opõe ao aborto, à experimentação em pessoas na sua etapa embrionária, à clonagem, ao suicídio assistido e à eutanásia; o direito a constituir família, fundada no matrimónio entre um varão e uma mulher, até que a morte os separe, à sua protecção e promoção – que se opõe ao divórcio, ao “casamento” entre pessoas do mesmo sexo e à reprodução artificial; o direito à liberdade de ensino e de educação – que se opõe, por exemplo, à educação sexual obrigatória nas escolas.

4. Se há várias forças políticas que não só aceitam como agridem a verdade que a consciência cristã testemunha outras haverá que a defendem e propugnam. Porém, o cristão poderá deparar-se com situações que lhe coloquem um dilema. Por exemplo, pode existir um partido mais conforme à verdade integral que a consciência testemunha mas que não tem possibilidade de chegar ao poder; enquanto um outro, embora inquinado, poderá, caso tenha os votos suficientes, limitar a crueldade e as perversões daqueles que as têm legislado e as querem alargar ainda mais. Neste caso não poderemos dizer que seja ilícito votar nesse partido maior uma vez que o eleitor não escolhe votar nas suas iniquidades mas sim no poder que ele tem de evitar males maiores. Não se escolhe por isso o mal menor mas sim o bem possível naquela circunstância. Pode não só ser lícito mas até uma obrigação moral, caso seja certa sua eficácia real em reduzir danos tamanhos. Numa situação dessas, alguns pequenos partidos poderiam mesmo, caso o entendessem, convidar os seus adeptos a votarem noutra força partidária. Todavia importa muito notar que houve imensa gente, por exemplo, que votou Cavaco Silva precisamente com essa convicção e ele afinal acabou por fazer ainda pior que os outros.

Nuno Serras Pereira

24. 09. 2009

Carta ao amigo Luiz Bassuma de Hermes Rodrigues Nery

São Bento do Sapucaí, 23 de setembro de 2009

Caríssimo amigo LUIZ BASSUMA,

No dia 17 de setembro, o Partido dos Trabalhadores, outrora defensor da liberdade de expressão e de opinião e dos princípios democráticos, emergiu a face sombria, orwelliana, contida em toda estrutura dominada pelo afã de poder, que já não leva em conta a dignidade da pessoa humana (princípio fundamental da nossa Carta Magna, art. 1º, III), mas os pérfidos interesses de uma lógica de poder que se volta contra o ser humano.

O Partido dos Trabalhadores que outrora criticou FHC, o "príncipe dos sociólogos" por ter dito "esqueçam o que escrevi", agora age com mais pragmatismo, por conta das exigências desse mesmo poder que espolia a alma humana, vitimando as sãs consciências, não corrompidas por vilezas e pactos faustianos. Voltam-se contra um princípio fundamental da nossa Constituição, para atender os propósitos daqueles que buscam impor uma cultura anti-solidária, porque não cultiva mais a gratuidade que faz da vida um dom fecundo e esplendente.

Esta cultura amplamente desumana "se configura como verdadeira ‘cultura de morte’. É ativamente promovida por fortes correntes culturais, econômicas e políticas, portadoras de uma concepção eficientista da sociedade."1 É uma cultura forjada e alimentada (financiada por organismos internacionais) pelos detentores de um poder de alcance global, a disseminar por toda a parte contra-valores venenosos. Uma cultura que funciona como uma espécie de "camisa-de-força" a asfixiar a liberdade humana, a desviá-la da verdade, para descaracterizar e até destruir a própria identidade do homem como pessoa. Trata-se de "uma guerra dos poderosos contra os débeis: a vida que requereria mais acolhimento, amor e cuidado, é reputada inútil ou considerada como um peso insuportável, e, conseqüentemente, rejeitada sob múltiplas formas"2

A estratégia dos que buscam impor esta "cultura da morte" é a mesma dos que impuseram – em outros períodos da história – sistemas opressores contra o ser humano. Em obra organizada por Norberto Bobbio, esta estratégia é bem explicitada: os detentores do poder buscam "induzir os próprios membros a se conformarem às normas que a caracterizam, de impedir e desestimular os comportamentos contrários às mencionadas normas, de restabelecer condições de conformação, também em relação a uma mudança do sistema normativo".3

Para isso, existe "uma gama de sanções, extremamente variada e de peso punitivo diferente, entre as quais mencionamos, além do caso extremo da morte, os da privação de determinadas recompensas e direitos, as formas de interdição e de isolamento, as de reprovação social, de admoestação, de intriga e de sátira".4

Meu caro Bassuma!

A sua punição foi um primeiro indício do que poderá vir pela frente, do que poderão fazer contra aqueles que se posicionarem contra o que querem impor para todos: a sociedade hiper-tecnológica desprovida de humanidade. Foi uma primeira sanção, para intimidar os tíbios e acomodar os sequiosos pelo bem-estar às custas de um sistema opressor.

O fato é que tantas "injustiças e opressões"5 são "disfarçadas em elementos de progresso com vista à organização de uma nova ordem mundial"6, em que há décadas vêm criando a nova mentalidade que nega a primazia da pessoa humana e a sua dignidade.

O aborto é hoje a ponta do iceberg destes tempos convulsivos de pós-modernidade e pós-humanidade. Os que querem a sua aprovação, rebelam-se contra a lei natural (inscrita no coração de cada ser humano). É o ápice de uma revolta metafísica que não aceita o mistério da Criação e da Redenção, e quer fazer engendrar - aqui e agora - uma sociedade inteiramente artificial, para além da própria natureza humana, por obsessão do cientificismo vigente.

O que está em jogo são fortes interesses econômicos, políticos e demográficos. A pressão para a legalização do aborto faz parte dessa estratégia e existe por causa de ações com origem fora do Brasil, a longo prazo. Isso vem de longe, mas agora, estamos chegando ao limite ético, em que se quer mesmo destruir o conceito de pessoa humana, para que os fragilizados da nova ordem mundial sejam objetos manipuláveis. Começa hoje com os nascituros, amanhã com os idosos, depois com os deficientes, e mais ainda, com os descontentes e críticos do novo sistema mundial.

De modo imediato, a legalização do aborto é desejada por ser o meio mais rápido e eficiente de controle populacional.

As pressões para a legalização do aborto intensificam-se por toda a parte, pois interessam aos grupos promotores da "cultura da morte" o fim da estrutura natural da família para que a pessoa humana fique inteiramente vulnerável, para ser facilmente coisificada, deixando, portanto, de ser pessoa, para se tornar uma peça-objeto de uma engrenagem social totalmente desumanizada.

Como o aborto é reçhaçado pela maioria da população brasileira, conforme indicam as pesquisas de opinião, os grupos promotores da cultura da morte agem com muita astúcia, levando em conta o elevado nível de desinformação e desconhecimento desses mecanismos sofisticados de "controle social"; daí colocam em execução os meios de intervenção na sociedade, a partir de métodos sutilíssimos de manipulação.

"O manipulador não procura só provocar intencionalmente o comportamento que deseja do manipulado; procura também, de modo igualmente intencional, esconder a existência e natureza da ação que provoca o comportamento do manipulado"7. Assim, os meios de comunicação servem de instrumento apropriado para essa finalidade, para alienar e manipular, com o objetivo de obter, lentamente, o controle social, a partir da ideologia daqueles grupos que detêm o poder e querem impor o modus vivendi para os que acabam se tornando reféns desse sistema opressor.

A ideologia passa então a moldar uma "opinião pública" que funciona como roupagem (mesmo que artificial) costurada e imposta a contragosto dos usuários, mas que acabam não tendo outra opção a não ser aceitar o figurino imposto, por uma questão de sobrevivência, porque lhe tiraram o chão sob os pés. E então "a justificação ideológica do poder"8 "aceita tanto pelos dominados, quanto pelos dominadores"9, justamente por ser construída e imposta sob coação, acaba sendo uma "falsa consciência de uma situação de poder"10 "uma falsa motivação dos comportamentos de mando e de obediência"11, por isso todos os sistemas totalitários, ao longo da História, explodiram como numa panela de pressão, em revoluções sanguinárias e ódios incontáveis, ou mesmo implodiram por dentro, em lentas agonias, como no Império Romano. Esta "opinião pública ", que é falsa consciência, é co mo a Medusa mitológica, que pode ser vencida pelo escudo de Perseu; daí o valor e o sentido de sua militância lúcida e heróica, em favor dos mais indefesos, que são os nascituros.

Sendo falsa consciência e fabricada por ideólogos da opressão, a opinião pública pode contrariar, sim, a verdadeira consciência do homem, e funcionar como um desvio de propósitos, afastando-o daquilo que realmente lhe traz a felicidade. Por isso, "a legislação não pode basear-se somente no consenso político, mas também sobre a moral que se fundamenta em uma ordem natural objetiva."12 E a história tem demonstrado fartamente que o ser humano é mais forte do que as forças e os poderes que querem destrui-lo. O homem sem liberdade deixa de ser pessoa, fica reduzido e apequenado a uma vida de inseto (como bem expressou Kafka), porque manipulado como numa teia estrangulatória. Por isso, a manipulação é a pior forma de violência.

"A manipulação é um fenômeno unívoca e insofismavelmente negativo. Entre todas as formas de poder, é ela que acarreta mais grave condenação moral. Tem-se afirmado, por exemplo, que ela constitui ‘a face mais ignóbil do poder’ e ‘a forma mais inumana da violência’ ou que quem dela é vítima ‘é espoliado da alma’".13

Além das sanções referidas contra os que não se deixam corroer pela "falsa consciência" da "justificação ideológica do poder", os grupos promotores da cultura da morte agem mais sutilmente no campo dos controles internos, utilizando "meios com que a sociedade procura mentalizar os indivíduos – especialmente durante a socialização primária – sobre as normas, os valores e as metas sociais consideradas fundamentais para a própria ordem social"14 "aqueles que não ameaçam uma pessoa externamente, mas por dentro de sua consciência: ‘os controles internos dependem de uma socialização bem sucedida; se esta última foi realizada adequadamente, então o indivíduo que pratica certas transgressões contra as regras da sociedade será condenado pela própria consciência que na realidade constitui a interiorização dos controles sociais".15 Por isso tem sido investido tanto, especia lmente através dos meios de comunicação, para a difusão desta nova mentalidade que vem corroendo a beleza e a dignidade do ser humano, acuando as pessoas aos estilos de vida degradantes, encurralando-as ao beco sem saída da vida sem sentido, portanto indigna de se viver.

Feminismo radical, aborto, eutanásia, educação sexual liberal e homossexualismo fazem parte desta cultura inumana.

Mas agora, é possível que sejam intensificadas as sanções contra os promotores da cultura da vida: "uma gama de sanções, extremamente variada e de peso punitivo diferente".16

É preciso que se saiba claramente que a causa da vida humana, a defesa da família e da dignidade da pessoa humana trará exigências de sacrifícios, renúncias e sofrimentos. É causa nobre, que requer elevada consciência e magnanimidade. É defesa da civilização humana, do bem maior que possuímos, que é a vida, vida esta que nos foi dada para ser vivida na plenitude. Trata-se de uma cruzada, de um combate espiritual, em favor das promissões mais excelentes do ser humano. Por isso um bom combate.

Felicito-o por seu mandato pró-vida, pela lucidez e coragem com que tem sido perseverante no bom combate pela vida. Pois, "se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação". (Ecl. 2,1), com a convicção de que "as almas dos justos estão na mão de Deus" (Sab. 3,1).

Cordialmente,

Hermes Rodrigues Nery*

Bibliografia:

1. Evangelium Vitae, 12

2. Evangelium Vitae, 12

3. Franco Garelli, verbete Controle Social, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, p. 283, 1992)

4. Franco Garelli, verbete Controle Social, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, p. 284, 1992)

5. Evangelium Vitae, 5

6. Evangelium Vitae, 5

7. Mario Stoppino, verbete Manipulação, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, p. 727, 1992)

8. Mario Stoppino, verbete Manipulação, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, p. 728, 1992)

9. Mario Stoppino, verbete Manipulação, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, p. 728, 1992)

10. Mario Stoppino, verbete Manipulação, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, p. 728, 1992)

11. Mario Stoppino, verbete Manipulação, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, p. 728, 1992)

12. Declaração de Aparecida em Defesa da Vida

13. Mario Stoppino, verbete Manipulação, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, p. 728, 1992)

14. Franco Garelli, verbete Controle Social, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, p. 284, 1992)

15. Franco Garelli, verbete Controle Social, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, p. 284, 1992)

16. Franco Garelli, verbete Controle Social, Dicionário de Política (org. Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, Edunb – Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, p. 284, 1992).



*
Prof. Hermes Rodrigues Nery é Secretário-Geral do Movimento Brasil Sem Aborto, Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, e Vereador (PHS), Presidente da Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí (SP).

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Vale a pena ler Camilo

1. O bom P. João Maia, SJ, Deus lhe fale na alma, um grande escritor e crítico literário, visita de casa de meus pais, escreveu há largos anos, que as pessoas que lêem, nos dias de hoje, dispersam-se por uma quantidade infinda de escritores, saltitando num frenesim de autor em autor. Na sua opinião isso era uma perda de tempo que pouco adiantava a uma sólida cultura. Segundo ele, o que importava era conhecer bem as obras literárias fundamentais da humanidade, voltando repetidamente a elas, entre as quais incluía a Ilíada e a Odisseia, a Divina Comédia, as peças de Shakespeare, o D. Quixote de la Mancha, as obras de Dostoiévski e pouco mais. Dos portugueses, para além dos Lusíadas, do P. Manuel Bernardes e do P. António Vieira, admirava muito particularmente Camilo Castelo Branco. É certo que considerava Eça de Queirós um talento, porém, para Camilo reservava o epíteto de génio. Estimava-o como o maior escritor de síntese da língua portuguesa, com uma riqueza de vocabulário, maior que a de Aquilino (deste dava a entender que quem leu um livro seu, leu praticamente todos, devido à sua falta de inventividade, no que às histórias diz respeito), colhida ao longo de toda a nossa história e com uma criatividade exuberante e fecundíssima que, não obstante a insistência ou mesmo repetição de alguns temas, gerava personagens originais, situações imprevistas, circunstâncias variegadas, episódios únicos, surpresas contínuas.

É verdade que quem começa a ler Camilo depara-se com algumas dificuldades de monta, como o fez notar há dias um cronista bem conhecido.

Uma delas é o vocabulário. A cada passo tropeçamos em palavras que nunca vimos nem ouvimos e que dificilmente se encontram na maioria dos dicionários disponíveis. Outra é a construção gramatical e a frase enfeitada, retorcida, ornada e enrolada de tal maneira que chega a provocar irritação. Depois também se encontram exclamações, paixões, reacções, expansões, modos de dizer que se estranham nos dias de hoje. Estas são, julgo eu, as principais penas que pode padecer quem se abalançar a ler as suas obras. No entanto, estou em que em sofrê-las se alcançam grandes ganhanças e vantagens.

Nas suas novelas e romances topamos com o homem tal como é no seu melhor e no seu pior. Alguns dos seus textos gritam pecados, blasfémias e crimes horrendos, ignominiosos, infames, desenrolando diante de nós as paixões mais baixas e vis; outros, todavia, comunicam unção religiosa, prodigalizam-se em mostrar, “ao vivo”, as grandes virtudes quer teologais quer morais, apresentam-nos a redenção operante. Depois, tanto nos põe a rir à gargalhada como nos comove até às lágrimas. Num momento nos desassossega noutro enche-nos de consolação. A sua narrativa por vezes é tranquila e amena mas logo se torna vertiginosa e empolgante

Antes de adiantar algo mais, por aqui me interrompo para sugerir uma ou outra coisa a fim de que o leitor não desanime perante os obstáculos.

2. a) Quanto ao vocabulário: Passar adiante das palavras que não entende porque de qualquer modo compreenderá o essencial das narrações. Aos editores da obra camiliana recomendaria que publicassem as suas obras com notas de rodapé ou com um vocabulário nas últimas páginas que desse os significados dos termos mais dificultosos. Em alternativa poder-se-ia publicar um dicionário do vocabulário camiliano. Um intelectual como, por exemplo, Vasco Graça Moura faria isso com a maior das facilidades.

b) Quer quanto ao vocabulário como quanto ao estilo algumas obras são mais simples do que outras. Quem, por exemplo, ler O Regicida, A Filha do Regicida, O Senhor dos Paços de Ninães, o Marquês de Pombal, a Luta de Gigantes, não encontrará dificuldades de maior. Convirá, no entanto, que tenha algumas prevenções pois aquilo que o autor apresenta como histórico e verídico, com alguma frequência são fantasias da sua fertilíssima imaginação ou, se quisermos, uma mistura de factos com invenções. Esta é aliás uma característica constante na sua obra. Pega em personagens e eventos verdadeiros e depois vai modelando-os ao sabor da sua inventividade, a qual, não obstante, não se pode dizer, quanto a mim, inteiramente ficcional já que respeita a verdade da realidade e condição humanas.

c) À medida que se vai relendo e tornando a reler a sua vasta obra desvanece-se aquela primeira impressão de estranheza e saboreia-se cada vez mais o vernáculo e o castiço do seu escrever. Depois vem a vontade, pelo menos comigo assim sucedeu, de anotar as palavras difíceis e consultar variadíssimos dicionários para conhecer os seus significados. Por outro lado, aquelas frases ou períodos que nas primeiras abordagens nos pareciam alambicados, intrincados, afectados, bizarros, revelam-se como uma prosa poética destilando uma beleza extraordinária. Com surpresa, verificamos no conhecimento que vamos tendo das pessoas e dos seus problemas que aquilo que nas suas obras tínhamos como exageros melodramáticos são afinal quadros fiéis de tantas situações que ainda hoje sucedem.

Se alguém pensa que reler Camilo assiduamente seja coisa monótona desengane-se, pois não só sempre encontrará coisas novas como lhe parecerão diferentes as novelas que compulsa.

3. Ler Camilo é imergir na portugalidade do povo português. É embeber-se da sua alma. É expandir o pensamento, experimentar ressonâncias emotivas e afectivas novas, comungar com a nossa história e com os seus mais ilustres poetas, prosadores, historiadores, mestres de espiritualidade e pensadores (isto não significa que se esteja de acordo com o seu modo de pensar ou de interpretar). Se, como é uso dizer-se, quem aprende uma nova língua ganha uma nova alma, então quem lê Camilo engrandece a sua, em virtude da riqueza que a sua linguagem transporta.

Se fora estrangeiro Camilo Castelo Branco seria reconhecido como um dos grandes da literatura. O seu Amor de Perdição, como diz Agustina, ombreia com o Werther de Goethe. Mas estou persuadido que este último autor será incapaz de elaborar o Amor de Salvação que Camilo veio a escrever uns tempos depois.

Espero que Portugal não desista de Camilo como se ele estivesse fatalmente destinado a desaparecer.

Livros como O Bem e o Mal, As Três Irmãs, O Santo da Montanha, a Bruxa do Monte Córdova, O Demónio do Ouro, As Novelas do Minho, para dar alguns exemplos poderão fazer bem a muita gente.

4. Em relação aos autores portugueses, como aliás no respeitante aos estrangeiros, tenho aquele defeito que o P. João Maia apontava de me dispersar por muitos, mas apesar de tudo não esqueci a lição. Por isso os escritores portugueses que leio, releio e continuo a reler são o Vieira, o Bernardes, o Camilo e o Eça.

Nuno Serras Pereira

14. 09. 2009