terça-feira, 16 de abril de 2013

Um esclarecimento sobre “Terrível emergência pessoal (Carta aos amigos)” - por Nuno Serras Pereira



16. 04. 2013

Muitos se recordarão, ainda que vagamente, como eu, de uma narrativa de Eça de Queirós, que nos descreve uma família escutando um dos seus membros lendo em voz alta as notícias relativas a desastres e catástrofes relatadas pelo jornal. Nessas páginas de aguda perspicácia mostra-nos o autor como as reacções e intensidade das comoções de cada um não dependem da dimensão real da tragédia nem da profundidade do sofrimento alheio mas sim da proximidade geográfica e do maior ou menor conhecimento que se tem das vítimas. Assim, uma cheia diluviana que afogou centenas de milhares de chineses é encarada com a maior das indiferenças, talvez um leve bocejo, enquanto o torcimento de um tornozelo da vizinha provoca grande aflição e um enorme sobressalto.

Tão calejado e empedernido que estava, e ainda estou (ou estamos?), pela torrencialidade quotidiana de calamidades noticiadas por grandes meios de comunicação social, há uns anos atrás, morando eu no convento de S. José, em Campo de Ourique - poiso e remanso de grandes Missionários franciscanos, quando vinham recuperar forças, restabelecer a saúde e tratar de assuntos úteis e necessários às Missões africanas -, rebentou mais uma das inúmeras guerras, ou guerrilhas, a que a Guiné-Bissau nos acostumou. Confesso que não me deu grande cuidado a não ser o de rezar pelas vítimas e também pela Paz – era, tão só, ajuntado às orações usuais.

Ora sucede que por esse tempo tinha vindo a esmolas, para socorro das suas ovelhas, a cujo cheiro tresandava, o benigníssimo e provecto Bispo daquelas gentes, o franciscano D. Settimio Ferrazeta. Escusava-se à hora do jantar para ansioso escutar os telejornais sobre o que se passava com o seu povo. Como era mouco, em virtude da diminuição das capacidades auditivas e a sua vista estava muito enfraquecida, permanecia de pé com a cara praticamente colada ao ecrã, não ao centro, mas do seu lado esquerdo. A sua angústia e o seu sofrimento eram visíveis, a sua dor patente, a expressão do seu rosto comovia até às entranhas, era manifesto que experimentava a tragédia que se abatia sobre a sua Igreja, sobre cada um dos seus e dos que estavam destinados a conhecer Jesus Cristo, como sua. Os padecimentos daquele povo, eram os seus. Parecia mesmo vivê-los com maior intensidade do que aqueles que lá se encontrava. Aquele rosto era transparência do Amor de Jesus Cristo. A ele me rendi tão completamente, que aquilo que me era estranho e mais uma catástrofe entre muitas outras se transformou numa vivência existencial, num cuidado empenhado, numa preocupação constante, num comprometimento oracional mais sério e frequente. 

Quando na meditação imaginária(uma verdadeira forma de oração), que ontem redigi, falo de padecimentos que não são fruto de doença psiquiátrica nem de possessão demoníaca, uma vez que os tratamentos efectuados se mostraram impotentes para os remediar ou simplesmente aliviar, refiro-me a algo mais profundo, ou melhor Misterioso, que indico com as expressões “participante nos sofrimentos de Cristo” e, no final, “todas as injustiças que eles padecem se abatem sobre mim”. “Eles” são os que aparecem no sítio para que remete o link “Socorram-me, por Caridade”, isto é os embriões humanos, quer dizer as pessoas na fase inicial da sua vida, aqueles que tanto o Papa João Paulo II como Bento XVI afirmaram categoricamente ter o mesmo valor transcendente que qualquer um de nós. Eles são eu, eles são tu, são o teu melhor amigo, o teu mais querido familiar, melhor e mais ainda, eles são Jesus Cristo, que os Criou, por Eles Se fez homem, sofreu a Paixão e foi ignobilmente Crucificado. Por cada um deles, como por ti. Incorporados pelo Baptismo em Jesus Cristo, “completámos na nossa carne o que falta à Sua Paixão”, isto é, a ela somos associados para que a Redenção, em si completa e perfeita, se torne efectiva em nós e nos outros.

Quem socorre, pois, aos entre todos mais “periféricos”, para usar uma expressão do Papa Francisco, aos mais esquecidos, ignorados, abandonados, que não têm voz para se defender nem presença na comunicação social para se manifestarem e reivindicarem os seus direitos, acode-me a mim, muito mais, acode ao próprio Jesus Cristo.

Mas reconhecer a pessoa humano no seu estado embrionário, respeitá-la, protegê-la e amá-la é uma enorme Caridade que se faz também a todos aqueles que estão envolvidos, como perpetradores, nesta raivosa hecatombe, sem precedentes na história da humanidade. As horribilíssimas penas inomináveis que lhes estão destinadas, caso não se arrependam e se convertam, após o Juízo pessoal e universal, podem, de algum modo, ser carregadas por nós vicariamente (substituidamente) como uma Cruz que possa, sobrenaturalmente, influir nas suas liberdades escravizadas de modo a transformá-las em liberdade de tender para o Amor, para Deus. Também a esses sofrimentos me refiro na meditação de ontem.

Pelos vistos, não me expliquei bem no texto de ontem, pois deixei algumas pessoas em grande alvoroço preocupadas tão só por mim – creio que a sua excessiva amizade os detiveram nas feridas do dedo sem toparem que ele apontava a lua ensanguinhada. A culpa evidentemente foi minha que não revi o texto (confesso que também não o farei com este, pois custa-me tanto escrever que fico de tal modo esbodegado de cada vez que redijo qualquer insignificância, que não tenho forças, nem disposição, nem vontade par o fazer) e conclui-o abruptamente.

Mas não peço desculpa, porque estou confiado que Deus aproveitou o vosso susto e as vossas orações para tudo reverter em favor das pessoas no seu estado embrionário e dos grandes pecadores frios e implacáveis que as subjugam impiedosamente.

Estou verdadeiramente persuadido, em virtude da grande estima que me têm e do grande amor que nutrem por Jesus, que todos não só assinarão a petição Um de nós, como se empenharão em fazê-la chegar a muitos outros para que todos possam participar da infinita alegria de Deus.

À honra e glória de Cristo. Ámen.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

When in Doubt, Choose Life: Symposium on Plan B (Morning-after Pill): Part I - by Allison LeDoux

In Truth and Charity Forum 

Editor’s Note: The editors present this series (read part 2, part 3, part 4) on the recent furor over Plan B as an opportunity for our fellow pro-lifers to slow down, step out of activist mode, and enter into the conversation in a prayerful and thoughtful way.

The Church encourages conversation among faithful scientists and theologians as new science comes to light and as we deepen ethical reflection. Typically such conversations occur in academic settings, but since the recent furor pushed the issue into the open, causing much confusion and scandal, we felt it important to present the latest science and moral reflection in a context of faithful discussion.

We offer this series in a spirit of obedience to the Magisterium, and as an opportunity for faithful Catholics and people of good will to come to a greater understanding of the nuances of the Church’s teaching and the complexities of the science and art of medicine in the difficult situations involving the treatment of women who have been raped. There has been no (and will be no) revision in the Church’s teaching concerning direct abortion or contraceptive sexual acts between spouses. Both are morally illicit without exception.

As with all Truth and Charity Forum articles, opinions belong to the author alone and do not necessarily represent the official position of Human Life International.


It seems the infamous issue of emergency contraception (hereafter as EC) and rape victims is back in the news. In Germany, it was recently announced that Catholic hospitals would allow the “morning-after pill” to be given to victims of sexual assault. LifeSiteNews and other news sources have reported on the particulars of the situation. Our purpose here is not to repeat the news reports and analysis, but to consider some of the medical/moral questions that are often asked when the issue of administering “emergency contraception” to rape victims arises.

In the Ethical and Religious Directives for Catholic Health Care Services, the guiding document that applies Catholic moral teaching to Catholic health care facilities in the U.S., directive 36 discusses the issue of treating victims of sexual assault:
Compassionate and understanding care should be given to a person who is the victim of sexual assault. Health care providers should cooperate with law enforcement officials and offer the person psychological and spiritual support as well as accurate medical information. A female who has been raped should be able to defend herself against a potential conception from the sexual assault. If, after appropriate testing, there is no evidence that conception has occurred already, she may be treated with medications that would prevent ovulation, sperm capacitation, or fertilization. It is not permissible, however, to initiate or to recommend treatments that have as their purpose or direct effect the removal, destruction, or interference with the implantation of a fertilized ovum.
No one would deny the need for sensitive and compassionate care to a person, who has been done such violence. The Church teaches that a female rape victim should be able to defend her bodily integrity. However, things can seem a little complicated when we look at exactly what that might entail, so let us try to clarify the issues at hand.

Directive 36 indicates the need for “appropriate testing” to determine if conception has occurred already. There are two types of testing: pregnancy testing and ovulation testing. Both however, have limitations.

A positive pregnancy test means the woman was already pregnant before the rape, and thus there would be no logical or medical reason for prescribing emergency contraception. A negative pregnancy test does not tell us whether or not the woman has conceived.

If conception has occurred (as a result of the rape, or even another act in the past few days), it still takes about a week for the newly conceived developing embryo to travel through the fallopian tube to implant in the uterus. A pregnancy is clinically detectable only after implantation.

Ovulation testing might make it possible to ascertain whether or not the woman was in the ovulatory phase of her cycle at the time of the rape. If it were possible to effectively determine that the woman was in an infertile time of her cycle, again there would be no logical or medical reason for prescribing EC. But, what is the likelihood that the victim would faithfully chart her cycles and could determine her fertile time with pinpoint accuracy? Additionally, ovulation testing, while helpful, can sometimes miss the hormone surge needed to determine the potential window for fertilization, so we have to ask, can we ever be truly sure that emergency contraception wouldn’t cause an abortion?

Let’s say, for the sake of example, that it is deemed “safe” for the victim to be offered drugs to prevent conception. Then we must ask the question, what drugs are capable of doing what Directive 36 defines as acceptable?

According to Directive 36, it is permissible to treat the victim with drugs that would be contraceptive per se, but it is not permissible “to initiate or to recommend treatments that have as their purpose or direct effect the removal, destruction, or interference with the implantation of a fertilized ovum.” Reports on the recent controversy of the Catholic hospitals in Germany, indicate that this principle holds there as well.

It has not been proven that any of the drugs used to treat rape victims, which are commonly known as “morning-after pills” or “emergency contraception” (usually Plan B, NextChoice, or sometimes higher doses of regular birth control pills), only prevent ovulation, sperm capacitation, or fertilization.

These drugs are purposefully designed to have multiple mechanisms of action. That is, they may sometimes prevent ovulation, sperm capacitation, or fertilization, but, they also may act as abortifacients by inhibiting the implantation of a newly conceived child in his or her mother’s womb. There is no way of knowing for sure when particular mechanisms of the drug will “kick in.”

To date, there is no such drug that meets both criteria (contraceptive, but not abortifacient).

Some studies mislead by suggesting there is no “post-fertilization” effect and claim the drugs only act by preventing conception. A study cited in the journal Contraception made this erroneous assertion in 2012. This study has been called into question because the lead author is affiliated with the pharmaceutical companies that produce the drug. Other researchers do admit to the post-fertilization (abortifacient) effects. EC proponent and researcher James Trussell, in a recent study, acknowledges that post-fertilization effects do exist.

It is always important to consider the source. What degrees of objectivity and truth are there in a given study or opinion? Proponents of contraception (“emergency” or otherwise) typically operate by a false definition of pregnancy, as beginning at implantation. This is approximately one week later than when pregnancy truly begins – at conception. God is not the author of confusion!

One of the best ways for us to understand what is at stake is to remember the classic analogy of the hunter in the woods. Two men are hunting deer. One goes off on his own. Suddenly the hunter hears a noise, and readies his gun. But, is it a deer or is it his hunting buddy returning? Obviously, the hunter would not proceed in doubt and risk shooting his hunting partner. Neither should we proceed in doubt by offering emergency contraception to victims of sexual assault when a human life may be at stake. One life lost is too many.
How do we sort through the conflict? With one simple axiom: “When in doubt, choose life!”

 read part 2, part 3, part 4


Terrível emergência pessoal (Carta aos amigos) - por Nuno Serras Pereira



15. 04. 2013

A lastimosa aflição em que me encontro impede-me de ser eu mesmo a escrever-vos esta missiva. Limitei-me, com enorme custo, com muitos gemidos e suspiros, a esboçá-la a um confrade, dotado de grandíssima caridade, que me tem assistido neste horrível suplício em que me encontro - é ele, partindo não só do que eu disse mas da observação contínua e demorada que de mim tem feito, o redactor deste texto que assino.
 
Não há palavras que consigam descrever nem imagens que possam mostrar a ingente e profundíssima ansiedade e angústia que me assaltam com desmedida fúria raivosa. O quebranto inerme que de mim se apoderou paralisa todas as minhas faculdades. Sinto-me acossado por terrores nocturnos e pânicos diurnos. Não obstante o amparo de excelentes amigos, proeminentes psiquiatras, e toda a panóplia de medicação em que me encharcam, permaneço insone. Não há sequer choques eléctricos, último recurso para as depressões de maior gravidade, que me recomponham. Não há parte sã na minha mente… Tudo é negrume, tudo é desânimo, tudo é desespero.

Suspeitoso da medicina, recorri aos mais autorizados e poderosos exorcistas, mas em vão. Os indescritíveis e desmesurados tormentos que me possuem espatifando-me não são, assim o sentenciaram, provocados pelo diabo.

Mas as febres altíssimas, os suores gélidos, as convulsões frenéticas, os sufocos contínuos, as rigidezes cadavéricas, as exaustões esbodegadas, as sovas misteriosas que me escavacam, não me dão um instante de alívio, um momento de sossego. Experimento na minha pele, na minha carne, no meu coração dilacerado, na minha alma desmaiada, sevícias tamanhas que não duvido em afirmar que não há dor semelhante à minha dor, não há tribulação nem agrura como a minha. Isto, não é retórica, é mesmo assim.

Desculpem lá a expressão mas estou mesmo completamente à rasca, estou numa agonia sanguinolenta, e só os meus queridos amigos é que me podem valer. Poderão ajudar-me? Querem socorrer-me? Eu sei que é um sacrifício medonho o que vos imploro, mas a verdade é que, por mais espantoso que pareça, ninguém mais me poderá remediar… Nos meus caríssimos amigos está toda a minha Esperança! Valham-me, imploro-vos! Perdoem-me a debilidade, mas não me abandonem! Sem ti, estou perdido!

Como é que me podem acudir, a mim participante nos sofrimentos de Cristo?

Tudo o que fazes ao mais minúsculo a mim mesmo o fazes, e tudo aquilo em que não o socorres é a mim mesmo que não socorres: os embriões humanos têm direito ao mesmo respeito devido à criança já nascida e a qualquer outra pessoa (“ … o uso de embriões … como objecto de experimentação constitui um crime contra a sua dignidade de seres humanos, que têm direito ao mesmo respeito devido à criança já nascida e a qualquer pessoa.” (Bem-aventurado João Paulo II, Evangelium vitae, 63).

Socorram-me, por Caridade, que todas as injustiças que eles padecem se abatem sobre mim.

domingo, 14 de abril de 2013

A força da família em tempos de crise - Nota dos Bispos Portugueses

A família, um bem social

1. Consideramos da maior oportunidade, no atual contexto da sociedade portuguesa, atravessada por uma crise social e económica de particular gravidade, que se traduz para muitos em desalento e falta de perspetivas de futuro, colocar em relevo o bem insubstituível que representa a instituição familiar, «origem e património da humanidade» (Bento XVI).
A família representa um bem público, um bem social. Podemos encará-la na perspetiva do seu relevo privado, como um bem para a realização pessoal, no plano afetivo, espiritual ou outros, de cada um dos seus membros. Mas devemos também encará-la na perspetiva do seu relevo social, do bem que representa para a sociedade no seu todo. Podemos caracterizá-la como a fonte básica do capital humano, social e espiritual de uma sociedade, a que assegura o seu futuro e o seu crescimento harmonioso. A saúde e coesão de uma sociedade dependem, por isso, da saúde e coesão da família.

Só a família concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher pode desempenhar esta função social. As alterações legislativas que, entre nós como noutros países, vêm redefinindo o casamento de forma a nele incluir uniões de pessoas do mesmo sexo, esquecem esta verdade fundamental.

A família é a primeira e mais básica das instituições sociais, antes de mais porque assegura a renovação das gerações, sendo a primeira função de qualquer comunidade a de assegurar a sua própria sobrevivência e renovação. E cumpre essa função porque representa o contexto mais adequado e harmonioso para a educação das novas gerações.

A família é o santuário da vida e do amor, lugar da manifestação de «uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura» (Papa Francisco).

Razões da insubstituível importância da família

2. Na família respeita-se a dignidade da pessoa humana, esta é encarada como ser único e irrepetível. Nela não há lugar para o anonimato. Nela a pessoa é acolhida e amada pelo que é, não pelo que faz ou pelo que produz. Por isso, o contexto familiar é aquele em que os mais vulneráveis, incluindo os doentes e portadores de deficiência, não deixam de ser valorizados.

A família é a primeira e mais básica escola de sociabilidade. Nela se aprende a convivência com o outro e o diferente; o homem é diferente da mulher, os irmãos nunca são iguais, e os filhos nunca são o reflexo da imagem dos pais.

Na família a solidariedade não é imposta, é espontânea e calorosa. Ela é o campo privilegiado da gratuidade, do dom desinteressado, onde espontaneamente se dá sem esperar nada em troca e com a maior das alegrias.

Na família a autoridade é exercida como serviço e por amor.

A renovação das gerações no seio da família também permite a mais harmoniosa aliança entre a tradição e a novidade. As gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como a sua mais preciosa herança, aqueles valores perenes que não estão sujeitos à usura do tempo e não passam com as modas. As gerações mais novas representam a abertura ao novo, ao dinamismo e à criatividade, que tornam vivos esses valores perenes.

Num outro aspeto a família representa o contexto mais adequado e harmonioso para o crescimento e educação das novas gerações. A família nasce da unidade e complementaridade das dimensões masculina e feminina, que cooperam, nessa unidade e complementaridade, para a integridade da educação humana.

O casamento, como união entre um homem e uma mulher, tem representado nas sociedades e culturas mais diversificadas um símbolo dessa riqueza que representa a dualidade sexual, da unidade dessa diversidade. A mensagem bíblica exprime-o com as palavras do Génesis: «Deus os criou homem e mulher … e viu que a sua obra era muita boa…». Esta riqueza da dualidade sexual, da unidade e complementaridade dos dois sexos, está presente na família e, por seu intermédio, deve penetrar em toda a sociedade. Todos os âmbitos da vida social ganham com o contributo simultâneo, diversificado e harmónico das especificidades masculina e feminina, que são complexas, não são rígidas e uniformes, mas são uma insubstituível riqueza.

A família e a crise económica e social

3. A crise económica e social que o nosso país atravessa vem evidenciando, precisamente, a riqueza que representa a família. Tem sido a solidariedade familiar, que se traduz em solidariedade entre gerações, em muitos casos, o primeiro e mais seguro apoio de quem se vê a braços com o desemprego, ou a queda abrupta de rendimentos, com a consequente incapacidade de fazer face a compromissos assumidos que se destinam à satisfação de necessidades familiares essenciais, como a da habitação.

Mas esse apoio não é suficiente. A crise também evidencia que a comunhão e solidariedade que se vivem no seio da família não pode limitar-se ao seu âmbito interno. A família não pode fechar-se sobre si. Esse espírito de comunhão e solidariedade deve partir da família e alargar-se à sociedade inteira. Deve traduzir-se na entreajuda entre várias famílias. As experiências de muitas comunidades cristãs são já disso testemunho, mas não é demais salientar a necessidade de se multiplicarem essas experiências de partilha entre famílias.

Na raiz da crise que atravessamos estão fracassos de um modelo económico assente na maximização do lucro e do consumo. Afirma Bento XVI na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano (n. 5): «O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa ótica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspetiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom».

A gratuidade típica das relações familiares deve servir de modelo para este novo paradigma de desenvolvimento económico.

A família e a abertura à vida

4. Talvez o mais eloquente sinal de que a crise da instituição familiar se traduz em malefícios sociais seja o da crise demográfica, que muitos consideram o mais grave dos problemas sociais das sociedades europeias, numa perspetiva do seu futuro mais ou menos próximo. As últimas estatísticas apontam Portugal como um dos países com mais baixa taxa de natalidade em todo o mundo.

A família abre-se, por desígnio natural, à vida.

Poderá parecer irrealista salientar a importância desta abertura à vida no atual contexto social, em que o desemprego e a precariedade laboral atingem de modo particular os jovens. Este facto deve levar-nos a não nos resignarmos com esta situação, como se ela fosse inevitável, como se a economia não devesse estar ao serviço da pessoa humana, e fosse a pessoa humana a dever sujeitar-se às exigências da economia. Salienta Bento XVI na encíclica Caritas in veritate (n. 25), a propósito da instabilidade laboral, que quando «se torna endémica a incerteza sobre as condições de trabalho, resultante dos processos de mobilidade e desregulamentação, geram-se formas de instabilidade psicológica, com dificuldade a construir percursos coerentes na própria vida, incluindo o percurso rumo ao matrimónio».

Mas, por outro lado, a crise que atravessamos também é reflexo da crise demográfica. Numa sociedade em envelhecimento, as despesas públicas serão cada vez maiores em pensões, saúde, etc., e as receitas cada vez menores. Assim, o financiamento do Estado há de ser cada vez mais problemático.

É claro o bem que representa hoje a maior longevidade, o facto de os idosos viverem mais tempo do que noutras épocas. O que é problemático não é isso; não há idosos “a mais”, porque estes são sempre uma riqueza, e nunca um peso. O que é problemático e causa desequilíbrios é que não nasçam crianças.

Afirma ainda Bento XVI na encíclica Caritas in veritate (n. 44): «A abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza social e económica. (…) A diminuição dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado “índice de substituição”, põe em crise também os sistemas de assistência social, aumenta os seus custos, contrai a acumulação de poupanças e, consequentemente, os recursos financeiros necessários para os investimentos, reduz a disponibilização de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os “cérebros” para as necessidades da nação. Além disso, as famílias de pequena e, às vezes, pequeníssima dimensão correm o risco de empobrecer as relações sociais e de não garantir formas eficazes de solidariedade. São situações que apresentam sintomas de escassa confiança no futuro e de cansaço moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do matrimónio, a correspondência de tais instituições às exigências mais profundas do coração e da dignidade da pessoa. Nesta perspetiva, os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade, preocupando-se também com os seus problemas económicos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional».
Ajudam a combater a crise da natalidade medidas fiscais, que promovam o emprego juvenil, ou que facilitem a conciliação entre o trabalho e a vida familiar. Mas o contributo decisivo para vencer a crise demográfica situa-se no plano da cultura e da mentalidade. Há que superar o “cansaço moral” e a “falta de confiança no futuro” a que alude a encíclica Caritas in veritate. Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise da natalidade.

Qualquer mensagem de desvalorização da vida humana acarreta consequências negativas a este respeito. Uma delas – sem dúvida a mais grave – é o aborto e sua banalização a que vimos assistindo entre nós com a cobertura da lei vigente. Afirma, ainda, sobre esta questão, a Caritas in veritate (n. 28): «Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca».

A família, um projeto duradouro

5. Para vencer a crise demográfica, como em relação a muitos outros aspetos relativos à sua função social, há que acreditar na família como um projeto duradouro, assente num compromisso de doação total e não na volatilidade dos sentimentos. Só nesse contexto é razoável a decisão de ter filhos. Se a saúde e coesão da sociedade dependem da saúde e coesão da família, esta está estritamente ligada à sua estabilidade.

Vai-se generalizando, porém, a opção por formas de convivência marital precária, que recusam esse compromisso; tal como é cada vez mais frequente o recurso ao divórcio, o que a legislação vigente também não deixa de facilitar em extremo.

Salienta, a este respeito, a exortação apostólica Familiaris consortio (n. 11), de João Paulo II, que «a sexualidade diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana» e se realiza «de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte». A doação física total é verdadeira só na medida em que envolve toda a pessoa, também na sua dimensão temporal, com a comunhão de projetos para o futuro: «se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente». Esta totalidade corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, a qual supõe o contributo contínuo do pai e da mãe para o crescimento harmonioso dos filhos. 

Por isso, ainda segundo essa exortação apostólica (n. 11), «o “lugar” único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio». Este «não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador». Esta fidelidade não mortifica a liberdade da pessoa, «põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora».
A esta luz, não é demais lembrar a responsabilidade que representa a preparação, mais remota e mais próxima, para o casamento. Uma preparação que envolve as famílias, as instâncias educativas e a Igreja.

Importa, ainda, salientar como, também neste aspeto, deve evitar-se que cada família se veja sozinha a enfrentar dificuldades que possam conduzir à rutura. A experiência de um casal que soube superar as suas dificuldades de relacionamento pode servir de ajuda para outros que se confrontam com essas dificuldades. Experiências de entreajuda entre famílias neste campo também devem multiplicar-se no âmbito das comunidades cristãs.

E se é verdade que a Igreja nunca deixará de proclamar a indissolubilidade do casamento, antes de mais perante quem se prepara para o contrair, tal não pode significar insensibilidade ou indiferença perante o sofrimento de quem experimentou um fracasso matrimonial, independente de qualquer juízo de culpa, que até pode nem existir. A Igreja acolhe e acompanha com solicitude essas pessoas.

Olhamos com simpatia e apreço os movimentos e instituições que se preocupam e dedicam à família, encarnando o amor de Deus e manifestando-lhe o rosto amável da Igreja.

A sociedade à imagem da família

6. Muitas vezes a família é encarada como um refúgio que protege de um ambiente hostil da sociedade que nos rodeia, um oásis de harmonia no meio do deserto, um espaço de humanização no meio de um mundo desumanizado. E é assim de facto. Mas também podemos encarar a família de outra perspetiva: como a fonte e o fermento de onde parte a renovação da sociedade. É assim através dos filhos, que se devem proteger das más influências da sociedade, mas que também a esta podem dar muito do que recebem na família.

Os valores que se vivem na família – a pessoa amada e acolhida como ser único e irrepetível, o amor gratuito, a solidariedade espontânea, a autoridade como serviço, o valor do doente e do idoso, a aliança da tradição e da inovação, a unidade e complementaridade das dimensões masculina e feminina, a fidelidade e o compromisso – devem estender-se, por seu intermédio, a toda a sociedade: às empresas, aos serviços públicos, às escolas e hospitais, às comunidades eclesiais, às associações. A família é o modelo, o dever ser de qualquer convivência humana.

Num contexto de crise económica e social, que para muitos se traduz em desalento e falta de perspetivas de futuro, é esta a mensagem que queremos transmitir, como antídoto a esse desalento e como ajuda à superação dessa crise: que a família seja reconhecida e apoiada na missão social que só ela pode desempenhar.

Fátima, 11 de abril de 2013